Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 06 de fevereiro de 2019

Canastra Suja (2018): excelente jogo de azar

Com a excelência em sua montagem, este é um baralho repleto de possibilidades que deixam o espectador transtornado em cada cartada.

Jogos de azar podem ser uma verdadeira distração. Para os incautos, talvez um meio de se aventurar. Para os despretensiosos, apenas uma brincadeira. De uma forma ou de outra, é justamente quando menos se espera que a sedução da sorte ou do azar transformam a vida de alguém. Para este “Canastra Suja”, a rotina de seus personagens se faz como um verdadeiro jogo de azar.

Às vezes o cinema consegue coincidir com a rotina de muita gente, criando obras cujas proporções podem parecer pequenas, mas que os efeitos se tornam devastadores. Este é o poder da cinematografia nacional e toda a sua crueza. Nesta nova empreitada de Caio Sóh (“Por Trás do Céu”), é visível como uma alegoria a um jogo de azar pode servir como uma luva para uma família comum, com problemas ordinários. Até que as cartas são dadas.

Karma de uns, o alcoolismo permeia a vida de Batista (Marco Ricca, “Rasga Coração”), cujo apoio familiar lhe serve como grande estímulo. Fugir do álcool é necessário diante das necessidades financeiras do dia a dia e do péssimo relacionamento com seu filho, Pedro (Pedro Nercessian, da série “Assédio”). O ressentimento do primogênito diante das rusgas com o pai constantemente desequilibram a família.

Quase sempre desolada e submissa, por sua vez, Maria (Adriana Esteves, “Marighella”) vive à mercê do dinheiro de Batista como manobrista e das tarefas de casa, cuidando de sua filha mais nova, Rita (Cacá Ottoni, da série “3%”), cujas necessidades especiais desempenham de Maria ainda mais atenção. De tal forma, seu maior pilar em casa é sua filha do meio, Emilia (Bianca Bin, da série “Segredos de Justiça”), que cuida do bem-estar de todos quando pode, mas que mantém relacionamento duplo com Tatu (David Junior, da série “Liberdade, Liberdade”) e seu chefe, o dentista Dr. Lucas (João Vancini).

Jamais o espectador compreenderá todas as tramas deste “Canastra Suja” sem que preste atenção às nuances de cada personagem. As ocasiões não estão no roteiro – também assinado por Caio Sóh – à toa. Enquanto a principal trama se cria, envolvendo desavenças e desilusões dos personagens, que se acumulam uns aos outros como uma gigantesca bola de neve em formação, as subtramas merecem atenção justamente porque constroem diferentes paralelos.

Dez minutos nesta obra e o espectador se encontrará envolvido. Batista necessita segurar-se aos valores familiares para não cair novamente no alcoolismo. Maria mantém ambições diferentes, levando o público a compreendê-la de forma profunda pela espetacular interpretação de Adriana Esteves, cujo talento transparece dos momentos de submissão ao intenso drama. Pedro se vê obrigado a enfrentar orgulho e preconceito para tentar mudar de vida. Emilia quer o bem-estar de todos, mas já não aguenta a pressão de todos os problemas envolvendo sua família. Uma verdadeira pantomima, cujos movimentos dançantes estão envoltos nas conclusões de cada personagem.

Oito deles, aliás, compõem este jogo de canastra, cujo desenrolar mordaz desestimula os mais sensíveis. Este é um dos filmes que prendem pela intensidade de cada um de seus personagens, seja do sutil protagonismo de cada subtrama, seja pela crueza da direção de Sóh. Ele não se mostra inseguro em nenhum momento ao compor um longa original, que ficará na memória por muito mais tempo do que o mais malandro dos jogos de azar pode propor.

Coringa: eis que um dos grandes atrativos deste excepcional “Canastra Suja” é a junção do intrigante roteiro à direção quase teatral. Mas, sobretudo, o ponto forte está na montagem, em forma crescente, como um suspense consegue fazer. E os detalhes escondidos nesta carta na manga é o que, ao final, deixa o espectador propositalmente transtornado, com gosto amargo na boca que todo o azar pode garantir. Mas com a adrenalina a toda, como a promessa de uma vindoura sorte pode fazer acreditar.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Canastra Suja (2018)

- Caio Sóh

Roteiro:

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