Cinema com Rapadura

Críticas   domingo, 27 de janeiro de 2019

Beirute (Netflix, 2018): EUA vs. Oriente Médio (de novo)

Apesar de bem dirigido e roteirizado, longa não sai do comum em trama que não empolga.

Filmes que tratam da intervenção norte americana e de seus aliados no oriente médio praticamente já se tornaram um subgênero, devido a grande quantidade de produções que tratam do assunto. É fato que os EUA consideram vários desses países como ambientes infestados de terroristas para poder explorar as riquezas locais e ganhar territórios estratégicos contra seus verdadeiros e potentes inimigos, o que inspira roteiros que Hollywood adora filmar. Eis que surge mais um em “Beirute”. Aqui, o ex-diplomata Mason Skiles (Jon Hamm, “Em Ritmo de Fuga”) se envolve em uma trama política que envolve membros da inteligência americana e israelense.

O filme de Brad Anderson (“O Operário”) começa com um flashback de Skiles e sua vida de festas e ostentação em um Líbano pré-guerra. Após alguns acontecimentos traumáticos, o homem volta à América, largando a vida de diplomata no exterior. Dez anos depois ele é chamado de volta para negociar com terrorista a soltura de um importante membro da inteligência e seu amigo do passado, Cal Riley (Mark Pellegrino, da série “Supernatural”). O problema é que agora Skiles é um alcoólatra amargurado com seus erros do passado. Por isso, ele recebe a ajuda da agente Sandy Crowder (Rosamund Pike, de “7 Dias em Entebbe”), que é praticamente uma babá durante todo o primeiro e segundo atos, só mostrando sua importância próximo ao final. Anderson é reconhecidamente um diretor competente, o que confere aos seus trabalhos boas doses de tensão em sequências bens construídas, e em “Beirute” não é diferente.

Claro que toda a rede de intrigas em volta do protagonista é confeccionada de forma que o espectador nunca saiba quais são as reais intenções de cada um dos peões até o último ato. Será que a única preocupação dos líderes é a segurança do membro sequestrado ou há algo mais em jogo? São perguntas respondidas, mas não literalmente, gerando um pouco de reflexão após os créditos. Méritos do roteirista Tony Gilroy (de “Conduta de Risco”, “Rogue One: Uma História Star Wars”, entre outros), que se acostumou a escrever esse tipo de história e já foi festejado por elas.

Evidentemente que o longa não é primoroso, pois não consegue imprimir nas retinas algo que será lembrado no futuro. Talvez isso nem seja sua culpa e sim daquela quantidade de histórias já contadas sobre o mesmo assunto citadas anteriormente.  O fator surpresa é prejudicado por causa disso. A “surpresa” se refere àquela sensação de impacto por causa da atitude de algum personagem ou pela crueldade de algum acontecimento. Outro ponto é a falta de carisma do protagonista, e isso não tem a ver com a atuação de Jon Hamm, que é um ator de muita competência, e sim da forma como ele é apresentado. Não é possível sofrer ou se importar com o seu problema com álcool ou com qualquer outra parte de sua vida patética. Ele parece mais uma criança mimada jogada em situações de perigo do que alguém que pode salvar o dia. Mesmo o desfecho é abarrotado de fatores que jogam a seu favor e que ele não previu ou planejou. Por isso, infelizmente, o esquecimento é o destino de “Beirute”, um bom filme, mas que não surte impacto ou mudará a vida de quem o assiste.

Rodrigo Miguel
@rapadura

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Beirute (Netflix, 2018)

Beirut - Brad Anderson

Um diplomata americano foge do Líbano em 1972 depois de um trágico acidente em sua casa. Dez anos depois, ele é chamado de volta para a cidade de Beirute para negociar a vida de um amigo que deixou para trás.

Roteiro: Tony Gilroy

Elenco: Jon Hamm, Rosamund Pike, Shea Whigham, Dean Norris, Mark Pellegrino, Douglas Hodge, Alon Aboutboul, Kate Fleetwood, Leïla Bekhti, Jonny Coyne, Larry Pine, Sonia Okacha, Ben Affan, Idir Chender, Mohamed Attougui, Ian Porter

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