Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Desobediência (2017): discussão sobre fé e libertação

Com um poderoso trio de protagonistas, este é um daqueles filmes que conseguem discutir temas fundamentais, mesmo que isso custe aprofundar-se na temática principal.

Religião e cinema sempre se mostraram uma combinação no mínimo polêmica. O interesse pela sétima arte em retratar diferentes meandros do homem e sua fé gerou clássicos como “Ben-Hur”, “Os Dez Mandamentos” e “A Canção de Bernadette”. Mas também gerou obras que questionam justamente essa fé. “Desobediência” pertence ao segundo grupo.

Ronit (Rachel Weisz, “A Favorita”) é uma fotógrafa freelancer que vê sua rotina mudar ao receber a notícia de que seu pai, o rabino Rav Krushka (Anton Lesser, da série “The Crown”) faleceu. Afastada da família e da comunidade judaica há anos, ela reaparece devastada, sem saber ao menos o que causou a morte de seu ente querido. Porém, por não seguir os costumes de sua religião de raiz, Ronit é vista como uma mulher rebelde, alguém que não se pode levar a sério, aquela que pode desvirtuar as esposas locais.

Ao ficar hospedada na casa de seus antigos amigos, Dovid (Alessandro Nivola, “Você Nunca Esteve Realmente Aqui”) e Esti (Rachel McAdams, “A Noite do Jogo”), Ronit logo começa a causar mudanças na rotina do casal. Enquanto seu amigo, prestes a substituir o veterano rabino, a recebe com serenidade, é em Esti que Ronit encontra desconforto, pois sua antiga confidente hoje mal a encara nos olhos.

Mas a situação muda com o passar dos dias, enquanto a comunidade judaica local continua a questionar o porquê de Ronit permanecer ali, mesmo sabendo que os preparativos para a homenagem ao falecido rabino ainda estão por vir. Desta forma, quando a protagonista descobre que a antiga casa de seu pai foi doada em testamento para a sinagoga, a certeza de que todos a viram como alguém que o abandonou aumenta. Em consequência, sua desorientação dá espaço ao porquê de ela realmente estar ali, algo que somente Esti sabia: a paixão que ambas nutriam antes de Ronit partir.

Aliás, é justamente a paixão entre Ronit e Esti que dá o tom desta obra, pois a discussão sobre fé e o julgamento dos que se dizem religiosos pincelam o longa, dirigido por Sebastián Lelio (“Uma Mulher Fantástica”). Suas mãos encontraram experiência ao levar às telas temas que precisam ser discutidos, da mesma forma com que o diretor não exita em abordar o relacionamento das duas. Há uma cena repleta de sensualidade e ternura, sem receios, que merece aplausos por finalmente encontrar lugar na carreira de consagradas atrizes do cinema norte-americano.

A homossexualidade também é pincelada, compondo, junto às discussões sobre fé e fanatismo, um belo quadro. Melancólico, o longa encontra respaldo na trilha incidental de Matthew Herbert (“Gloria Bell”), resultando em um filme corajoso, apesar de não se aprofundar nas razões de cada personagem. Ao contrário, é pela interpretação do trio principal que o espectador pode deixar passar batida essas lacunas.

Rachel Weisz compõe, mais uma vez, uma protagonista complexa, repleta de defeitos, mas cheia de grandiosidade. A exemplo disso, a forma com a qual sua personagem enxerga o passado, admirando os pertences de seu falecido pai, mesmo sabendo que ele não nutria mais ternura pela filha que partiu. A atriz consegue transmitir carinho e desejo apenas em sua troca de olhar. Por sua vez, Rachel McAdams inicialmente parece compor mais uma de suas personagens doces e, mesmo que isso seja o que realmente acontece neste longa, a entrega e a libertação de sua Esti merecem destaque. Sobretudo quando claramente ela se sente enjaulada em sua vida de costumes religiosos e nenhum amor. Já Alessandro Nivola encanta por não construir um homem de simples gênero, mas sim alguém que possui o arco mais forte, cuja compreensão de mundo e de sua própria fé parecem ganhar espaço em cada minuto em cena do ator.

Pela direção empreendedora em um filme com atores consagrados de Hollywood, “Desobediência” encontra em seu elenco a força para transmitir sua mensagem. Mas as pinceladas, em muitos momentos, parecem superficiais, precisando de tonalidades mais estridentes para dizer a que veio, sobretudo no desfecho, que pode desagradar os fãs do cinema corajoso. Aqui, a felicidade se confunde às conclusões dos três personagens, deixando o quadro com aspecto confuso, ao invés da melancolia tão almejada.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Desobediência (2017)

Disobedience - Sebastian Lelio

Ronit (Rachel Weisz) precisa voltar para sua cidade natal após a morte de seu pai distante - um rabino. Mas ela causa um rebuliço no pacato local ao recordar uma paixão proibida pela melhor amiga de infância, que atualmente é casada com seu primo.

Roteiro: Sebastián Lelio, Rebecca Lenkiewicz

Elenco: Rachel Weisz, Rachel McAdams, Alessandro Nivola, Cara Horgan, Liza Sadovy, Omri Rose, Anton Lesser, Dominic Applewhite, Bernardo Santos, Allan Corduner, Nicholas Woodeson, Alexis Zegerman, Mark Stobbart, David Olawale Ayinde, Adam Lazarus, Bernice Stegers, Dave Simon, Sophia Brown, Steve Furst, Trevor Allan Davies

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