Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

O Estranho Mundo de Jack (1993): o peculiar Natal de Tim Burton [NATAL]

Uma viagem aos porquês do espírito natalino ser tão celebrado em todo o mundo em uma divertida e musical incursão.

A Cidade do Halloween tem seus costumes bastante exaltados por seus moradores, peculiares indivíduos que cantarolam por todos os cantos. Todos disseminam o espírito assustador através de suas formas e características: as cabeças rolantes, vermes pegajosos e dentes pontiagudos por entre as sombras. Este é, definitivamente, um lugar mágico que poucos gostariam de visitar. Mas o que tudo isso tem a ver com o Natal? É justamente esse o questionamento do protagonista de O Estranho Mundo de Jack.

Considerado a celebridade máxima de sua cidade, Jack Skellington (interpretado por Chris Sarandon, da série “Orange is the New Black”, e Danny Elfman, compositor de “Os Simpsons” e “Liga da Justiça”, entre outros) é um dos organizadores do Halloween. Todos os anos ele e o ambíguo Prefeito (Glenn Shadix, “Os Fantasmas Se Divertem”) organizam as agruras festivas que os locais tanto amam, espalhando o espírito tenebroso por todo o mundo. Mas Jack está em uma daquelas fases da vida em que todos se questionam. Em uma caminhada em busca do que talvez seja sua epifania, ele descobre uma porta colorida peculiar: verde, no formato de uma árvore, com bolotas coloridas e uma estrela em sua ponta. Jack descobre a Cidade do Natal.

“O Estranho Mundo de Jack” é uma daquelas fábulas natalinas fundamentais. Criação de Tim Burton (“O Lar das Crianças Peculiares”), sua história foi belamente adaptada por Michael McDowell (“A Maldição”) e Caroline Thompson (“A Noiva Cadáver”). Aqui não parece estarmos diante de uma obra relativamente recente, mas sim da adaptação gótica de um clássico de trezentos anos. Isso porque a naturalidade com a qual o tema é retratado nos leva diretamente aos contos clássicos, diversas vezes levados ao cinema.

Como uma boa fábula que é, este filme nos leva aos questionamentos de Jack, quando este se vê esgotado criativamente. Por outro lado, acompanhamos a boneca de pano Sally (Catherine O’Hara, “Frankenweenie”), cuja curiosidade complementa o que significa o espírito natalino para que este jamais se torne repetitivo: um pouco de criatividade aqui; um naco de curiosidade acolá.

Mas a grande diferença está na direção de Henry Selick (“Coraline”), que nos leva da Cidade do Halloween à Cidade do Natal compondo características próprias aos personagens, que se entremeiam nos sentimentos de assustador e de fofura. Enquanto Jack descobre um novo mundo para se inspirar em seu próximo Halloween, o sequestro do Papai Noel (Edward Ivory, “Nove Meses”) e o iminente desastre natalino que se instala fazem o espectador ser introduzido naquele universo. E a miscelânea que o diretor cria merece aplausos por jamais deixar-se levar pelos excessos góticos ou de ternura.

Pois “O Estranho Mundo de Jack” recria o espírito natalino com os já tradicionais toques góticos de Burton e Selick, sem deixar, com isso, de perder a essência. Contando com a sutileza do diretor e a inventividade do criador desta história, o ápice do longa é justamente quando descobrimos que o espírito natalino aqui também se faz presente na união de indivíduos, seja eles quem forem.

O espírito de Natal merece ser visitado nesta obra, cujos cantarolantes personagens já se tornaram ícones da cultura pop. Jack é um daqueles anti-heróis que agraciam a imaginação de quem gosta do final de ano, mas que prefere não cair em determinados clichês. E aqui o espectador descobre que os clichês existem justamente para serem visitados, como o próprio Natal, todo ano.

A mente criativa de Tim Burton e a direção de Henry Selick brindaram o cinéfilo com um filme atípico, um longa-metragem em stop motion, no qual o Bicho Papão (Ken Page, “Dreamgirls: Em Busca de Um Sonho”) é canastrão, Noel nem sempre é paciente e a donzela em perigo pode ser mais perigosa que o vilão. A questão aqui é como a curiosidade pode trazer inovação para uma tradicional celebração. E, como todo bom filme de Natal, isso pode ser feito através das rimas de uma canção.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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O Estranho Mundo de Jack (1993)

The Nightmare Before Christmas - Henry Selick

Jack Skellington (Chris Sarandon) é um ser fantástico que vive na Cidade do Halloween, um local cercado por criaturas fantásticas. Lá, todos passam o ano organizando o Halloween do ano seguinte mas, após mais um Halloween, Jack se mostra cansado de fazer aquilo todos os anos. Assim, ele deixa os limites da Cidade do Halloween e vagueia pela floresta. Por acaso acha alguns portais, sendo que cada um leva até um tipo festividade. Jack acaba atravessando o portal do Natal, onde vê demonstrações do espírito natalino. Ao retornar para a Cidade do Halloween, sem ter compreendido o que viu, ele começa a convencer os cidadãos a sequestrarem o Papai Noel (Edward Ivory) e fazerem seu próprio Natal. Apesar de argumentos fortes de sua leal namorada Sally (Catherine O'Hara) contra o projeto, o Papai Noel é capturado. Mas os fatos mostrarão que Sally estava totalmente certa.

Roteiro: Caroline Thompson, Tim Burton

Elenco: Chris Sarandon, Danny Elfman, Catherine O'Hara, William Hickey, Glenn Shadix, Paul Reubens, Ken Page, Edward Ivory, Kerry Katz, Carmen Twillie, Randy Crenshaw, Debi Durst, Glenn Walters, Sherwood Ball, Greg Proops, Tim Burton, Susan McBride, Mia Brown, L. Peter Callender, Ann Fraser

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