Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 03 de dezembro de 2018

Utøya – 22 de Julho (2018): a realidade vista pela câmera do cinema

Drama filmado em plano-sequência mostra a barbárie sem estilização.

É difícil acreditar que a Noruega foi palco de um dos atentados terroristas mais sangrentos da Europa, com mais de setenta e sete pessoas mortas e outras centenas feridas. Em “Utøya – 22 de Julho”, o diretor Erik Poppe (“Mil Vezes Boa Noite”) mostra de forma crua os momentos de terror no acampamento que dá o nome ao filme. No fatídico dia, inúmeros jovens filiados ao partido trabalhista faziam um tradicional encontro fraternal, quando um homem, em posse de um arsenal de guerra, disparou contra todos que via pela frente. Com ideais da extrema direita, o sujeito acreditou estar fazendo uma limpeza em seu país, livrando-o das diversidades. Tanto que, em seu julgamento, se declarou inocente por ter agido em legítima defesa. Além da ação no acampamento, ele também explodiu uma bomba em um prédio do governo.

O filme começa com Kaja – interpretado pela estreante Andrea Berntzen – se dirigindo para a câmera e proferindo as seguintes palavras: “vocês nunca entenderão. Deixe que eu mostre”. No entanto, no momento seguinte, é possível perceber que ela está falando com a mãe pelo fone de ouvido plugado no celular e não com o espectador. A partir desse momento, a câmera seguirá Kaja em um plano-sequência de uma hora e meia (na verdade, se trata de um falso plano-sequência, onde os cortes são imperceptíveis), levando ao pé da letra a sua promessa de mostrar o que aconteceu.

Poppe filma como se sua câmera fosse um dos jovens se escondendo na floresta para fugir do assassino. Então, assim que Kaja encontra um esconderijo em alguns arbustos, a câmera se esconde junto com ela e, quando ouve o barulho dos tiros ao longe, se movimenta para “olhar” o que está acontecendo, como se fosse uma pessoa levantando a cabeça cuidadosamente por cima de um obstáculo. O assassino em si nunca é mostrado claramente, para, evidentemente, não humanizar o terrorista, ou mesmo dar voz as suas loucuras (assim como faz o filme “22 de Julho” de Paul Greengrass, que fala sobre o mesmo assunto). Também não há violência gratuita, por isso, o sangue serve apenas para reforçar o drama.

Para filmes que exploram um único plano sem cortes, é muito importante que o elenco esteja afiado. De outra forma, a força dramática se perde. Os atores precisam ser de qualidade, já que interpretações ruins não poderão ser cortadas na montagem. Aqui o elenco se destaca, principalmente com uma protagonista competente em construir o desespero de forma gradual enquanto procura sua irmã pela floresta. Ela é uma das líderes do grupo, então tenta ajudar os outros, sofrendo com eles. Berntzen entrega um desempenho contido para não destoar do clima do filme e cair no campo teatral.

O naturalismo que lembra um documentário é importante para chocar e alertar que aquilo realmente ocorreu em um país que possui alta qualidade de vida, onde a educação, a cultura e a ciência são extremamente valorizadas e a democracia é praticada plenamente. O que será então de repúblicas pobres econômica e, principalmente, intelectualmente se algo do tipo as atingir? Será que suas frágeis instituições sobreviriam ou seriam desfeitas? Dito isso, é natural traçar um paralelo entre aquela situação na Noruega e o Brasil. Basta torcer para que a violência vista lá não se repita aqui, e que inocentes não percam a vida por causa da visão de mundo deturpada de algum maluco fascista.

Rodrigo Miguel
@rapadura

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Utøya – 22 de Julho (2018)

Utøya 22. juli - Erik Poppe

Roteiro: Siv Rajendram Eliassen, Anne Bache-Wiig

Elenco: Andrea Berntzen, Aleksander Holmen, Brede Fristad, Elli Rhiannon Müller Osbourne, Sorosh Sadat, Ada Eide, Jenny Svennevig, Ingeborg Enes, Mariann Gjerdsbakk, Daniel Sang Tran, Torkel D. Soldal, Magnus Moen, Tamanna Agnihotri

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