Cinema com Rapadura

Críticas   quinta-feira, 01 de novembro de 2018

Quebra-Nozes e os Quatro Reinos (2018): Disney cumprindo tabela

Era uma vez uma história que transformou um clássico da animação em personagens de pele e osso - e nada mais.

A poderosa máquina de sonhos Disney mudou a vida de milhões de pessoas através de suas adaptações de clássicos infantis e das recentes investidas em universos cinematográficos, como Marvel e Star Wars. Mas o que tem chamado a atenção de fãs do mundo inteiro é a onda de filmes baseados em tradicionais longas animados, sobretudo os da segunda era de ouro, levando às telas “Cinderela”, “A Bela e a Fera” e, agora, recriando todo o imaginário em torno do conto em questão, resultando neste O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos. Infelizmente, essa visita ao clássico parece ser feita apenas para preencher um espaço no vasto calendário de estreias do estúdio.

Esta é uma das mais clássicas histórias envolvendo a magia do balé e a música clássica, cuja composição já levou milhões de pessoas a teatros, além de proporcionar algumas adaptações e inspirações ao mundo cinematográfico. Desta forma, nada melhor do que levar às telas a emocionante cruzada do Quebra-Nozes (Jayden Fowora-Knight, “Jogador Nº 1”) em sua empreitada junto da princesa Clara (Mackenzie Foy, “Interestelar”).

Para salvar os quatro reinos enquanto ela encontra respostas para a ausência de sua mãe (Anna Madeley, da série “The Crown”), Clara pede ajuda ao seu padrinho, Drosselmeyer (Morgan Freeman, “Despedida em Grande Estilo”), que a introduz ao segredo mais bem guardado de sua mãe. É a partir do encontro da princesa com o Quebra-Nozes que passamos a conhecer o universo mágico dos Quatro Reinos, nos levando diretamente às principais antagonistas, Mãe Ginger (Helen Mirren, “A Maldição da Casa Winchester”) e Fada Sugar Plum (Keira Knightley, “Colette”).

Claramente a produção possui esmero técnico, sobretudo no desenho de produção. Aqui, o cenário ganha textura na composição nos elementos que se destoam, criando uma espécie de 3D sem a necessidade de óculos especiais, como é o caso do castelo no qual Clara passa boa parte da projeção e da moradia da Mãe Ginger, que se move de maneira ameaçadora. Com isso, a riqueza de detalhes merece créditos junto à fotografia de Linus Sandgrem (“La La Land: Cantando Estações”), aumentando gradativamente o tom sombrio conforme a urgência de ação toma conta da protagonista e de seu fiel escudeiro, que a mantém salva diante dos perigos mortais que corroem os Quatro Reinos desde que a mãe de Clara, a rainha Marie, partiu.

Porém, a magia e o esmero técnico e visual se perdem diante da sensação de se presenciar uma história repetida e já cansada, deixando a fraca protagonista empalidecida e seu fiel escudeiro, o Quebra-Nozes do título, com propósitos rasos. A emoção de toda a tradição desta obra, levada ao balé por Marius Petipa ainda no século XIX, se perde em uma condução literalmente ambígua, pois aqui os diretores Lasse Hallström (“Quatro Vidas de um Cachorro”) e Joe Johnston (“Capitão América: O Primeiro Vingador”) se desconectam em diversas ocasiões, não conseguindo levar o espectador a acreditar nas motivações de Clara ou nas superficiais conclusões que a protagonista tira através de suas impensadas atitudes.

Assim, “O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos” acaba se mostrando uma adaptação com gosto enlatado, produzida para levar o espectador a uma distração que sequer consegue concentrar os mais novos. Vez ou outra podem surgir sorrisos amarelos, principalmente diante da graciosa participação do Rei dos Ratos e sua personalidade idônea, diferente das imemoráveis participações de Mãe Ginger e Fada Sugar Plum – esta ainda contando com os esforços de Keira Knightley -, mas sem sucesso diante do roteiro tão pálido quanto a interpretação de Helen Mirren.

Aliás, a palidez do longa encontra esforços aqui e ali, como também é o caso da trilha de James Newton Howard (“Operação Red Sparrow”), que acompanha as aventuras de Clara e do Quebra-Nozes de maneira similar à visitada por Tim Burton em sua releitura de Alice no País das Maravilhas. E as coincidências não param por aí: personagens secundários que tendem às piadas; desenho de produção enriquecido por fotografia que estimula a imaginação do espectador; vilã caricata que não provoca sensação de perigo algum; narrativa que foge do sombrio para a infantilizada apresentação do perigo em cena; trilha sonora presente o tempo inteiro, vez ou outra homenageando o clássico balé.

É uma pena que o esmero visual e técnico se destoe de forma tão gritante do preguiçoso roteiro de Ashleigh Powell, pois enquanto a obra duela miseravelmente contra o tédio do espectador, a cena durante o crédito final merece destaque pelo esforço em tornar a obra contemporânea, sem deixar de abraçar os traços clássicos de sua origem e a beleza de sua mensagem.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Quebra-Nozes e os Quatro Reinos (2018)

The Nutcracker and the Four Realms - Lasse Hallström, Joe Johnston

Clara (Mackenzie Foy), jovem esperta e independente, perde a única chave mágica capaz de abrir um presente de valor incalculável dado por seu padrinho (Morgan Freeman). Safa na solução de problemas, ela decide então iniciar uma jornada de resgate que a leva pelo Reino dos Doces, o Reino das Neves, o Reino das Flores e o sinistro Quarto Reino.

Roteiro: Ashleigh Powell, Tom McCarthy

Elenco: Mackenzie Foy, Keira Knightley, Morgan Freeman, Helen Mirren, Matthew Macfadyen, Jayden Fowora-Knight, Richard E. Grant, Jack Whitehall, Eugenio Derbez, Ellie Bamber, Ocean Navarro, Sergei Polunin, Misty Copeland, Meera Syal, Omid Djalili, Nick Mohammed, Charles Streeter, Trent Owers, Gemma Wilks, Andrei Cotofan

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