Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 06 de novembro de 2006

Flyboys

A premissa de "Flyboys" é bastante interessante, no entanto Tony Bill não é um cineasta talentoso o suficiente para administrá-la de forma a constituir um grande filme.

Meu interesse por "Flyboys" (2006) se deve mais pelo tema. Não conheço nenhum outro filme que mostre a admissão, o treinamento e a guerra nos céus de pilotos aéreos durante a Primeira Guerra Mundial. Desde que assisti ao longa "O Aviador", de Martin Scorsese, fiquei fascinado com a coragem dos pilotos do início do século XX. O avião mal havia sido inventado e lá estavam aqueles homens fazendo malabarismos no céu ou mesmo usando o novo meio de transporte como uma máquina de guerra. O cenário das trincheiras da Primeira Grande Guerra também me interessa, graças ao filme "Glória Feita de Sangue", de Stanley Kubrick. Aqueles homens que lutavam nas trincheiras só com muita sorte conseguiam escapar vivos daquele combate. Da mesma maneira, os pilotos franceses e americanos que lutavam contra os alemães também tinham uma expectativa de vida baixa: de três a seis semanas.

O material principal da trama é muito bom. Pena que Tony Bill não é um diretor talentoso o suficiente para transformar isso num grande filme. "Flyboys" só rende nos momentos de guerra nos céus, ainda que muitas cenas pareçam videogame por causa do CGI. Ainda assim, uma cena como a da explosão do Zeppelin não é sempre que se pode ver no cinema. Se o filme não fosse tão leve, tão família, tão certinho, poderia render mais emoção. O estilo excessivamente clássico e épico compromete o resultado final. Além do mais, o tratamento dado aos personagens é raso e estereotipado e os acontecimentos resultam previsíveis.

O filme mostra um grupo de americanos que chega na França de 1916 para aprender a pilotar aviões e a usá-los como armas. Em 1914, tinha início a Primeira Guerra Mundial na Europa. Vários países europeus estavam sendo destruídos pela força esmagadora alemã. Todavia, enquanto inúmeras pessoas morriam durante a guerra, a América preferiu manter-se de longe, sem mostrar resistência contra. E esse grupo de jovens americanos já citado decide lutar antes mesmo de os próprios Estados Unidos aderirem à batalha. Então, voluntariaram-se para ficarem ao lado da França, uns na infantaria, outros na corporação médica. No entanto, alguns decidiram aprender a voar e, desse modo, notam que a coragem e a honra eram as principais forças que os manteriam unidos.

Entre os outros pilotos, temos um rapaz negro cujo pai foi escravo e que quer conseguir um pouco de respeito da sociedade, um jovem filho de pai rico que foi forçado pelo próprio pai a ingressar na luta armada, um rapaz que cometeu um crime nos Estados Unidos e fugiu para a França para escapar da prisão, entre outros. O líder do pelotão é interpretado Jean Reno.

Vendo o filme, difícil não lembrar de "O Paraíso Infernal", obra-prima de Howard Hawks que mostra a coragem de homens que lidam com um trabalho muito perigoso e que, por isso, precisam viver cada momento de suas vidas como se fosse o último, às vezes procurando nos bares uma espécie de fuga da realidade. Claro que comparar os dois filmes é covardia, mas não perco a oportunidade de elogiar um filme de Howard Hawks sempre que posso.

"Flyboys" foi baseado em fatos reais. Existiu mesmo essa Esquadrilha Lafayette e no final do filme, antes dos créditos finais, vemos o destino dos personagens sobreviventes após o fim da guerra. O diretor Tony Bill é pouco conhecido e tem um currículo de diretor mais ligado a produções para a televisão. "Flyboys" seria o seu filme mais famoso, então.

Aílton Monteiro
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