Assim como em esportes como a ginástica artística, em que a nota dos atletas, dependendo da rotina que eles vão apresentar, já parte da nota 10; Crianças Invisíveis não mereceria menor do que essa só pela sua intenção. Desprezando a rigorosidade na avaliação dos quesitos técnicos, apenas um erro gravíssimo seria capaz de descer essa nota. O que definitivamente não ocorre. Há brilhantismo tanto na forma em que o tema é abordado quanto na consistência de todos os aspectos técnicos.
O filme consiste em 7 curtas: Tanzânia, Ciganos, Jesus Children of America, Bilú e João, Jonathan, Ciro e Song, Song e a Pequena Gatinha. Cada um dirigido por diretores diferentes, mas com uma qualidade homogênea de alto nível.
O primeiro curta, Tanzânia, retrata a situação das crianças envolvidas em conflitos como combatentes. Ele também expõe a briga entre povos africanos por um território soberano, a qual começou desde a saída dos europeus, que deixaram as coisas bastante bagunçadas por lá. Alguns aspectos marcaram esse segmento. Primeiro, a foto de Ronaldo Fenômeno na arma de um dos garotos. Segundo, a criança soldado, que guarda seus brinquedos como verdadeiros tesouros, contrastando com a sua realidade predominante. O desfecho de Tanzânia também é particularmente interessante.
Após somos apresentados ao curta Ciganos, que mostra o uso de crianças pelos pais para a prática crimes, como o de furto por exemplo. Apesar de a lei apresentar agravantes para crimes de autoria contra crianças, o segmento nos faz crer que tal punição ainda é insuficiente dado à gravidade de tal prática.
Em Jesus Children of America, somos apresentados, inicialmente, a pais drogados e aidéticos, que são totalmente imprudentes com a educação e com a saúde de sua única filha, deixando de cuidar da menina ou da casa para “se injetar”. Quando os amigos da filha descobrem que ela tem AIDS, ela passa a ser hostilizada por aqueles, sucedendo-se a isso vários fatos que trarão o desfecho do curta.
No brasileiro Bilu e João, a diretora mostra a realidade das crianças catadoras de lixo em São Paulo. Os problemas e desafios pelos quais elas têm que passar para conseguir alguma renda. Mostra também que no meio de um ambiente tão inóspito, pode brotar atitudes de solidariedade e de compaixão de fazerem vergonha à sociedade burguesa, tão segura, em alguns momentos, em taxar os problemas das outras classes, porém tão omissa em avaliar seus próprios.
No filme dirigido por Ridley e Jordan Scott, Jonathan, é retratado de maneira quase que poética, o drama das crianças que se encontram no meio de conflitos armados como sujeitos passivos, que, apesar de não participarem diretamente nos conflitos, também são afetados por todos os horrores da guerra. Jonathan é um fotógrafo, que trabalha em conflitos armados e que já está saturado de ver tantas crianças inocentes feridas ou mortas. Em uma fuga imaginária pela floresta, o homem volta a ser criança e passa, como tal, a vivenciar situações de conflito.
O curta Ciro retrata o descaso de alguns pais na educação de seus filhos, deixando tal obrigação para as ruas. Ciro é um garoto que gosta de fazer desenhos com a sombra de suas mãos e que gosta de parque de diversões. Normal, exato? Só que devido ao desapreço dos seus pais em sua educação, ele foi forçado a aprender a sobreviver nas ruas, marginalizando-se. Outra conseqüência dessa forçada maturidade precoce é a vaidade, algo característico dos mais velhos, apresentada pelo personagem, mesmo que de maneira sutil.
Por fim, o filme termina com o mais belo curta, Song Song e a Pequena Gatinha, não necessariamente o melhor, todavia o mais bonito. Em uma direção de arte magnífica, John Woo retrata duas formas da invisibilidade das crianças. Uma é a da criança trabalhadora, já retratada sobre outro foco no curta brasileiro, e a outra é a da criança privada de amor e de carinho pelos seus pais. No segmento, Song Song é uma criança filha de pais ricos, que possui todas as coisas materiais com as quais uma criança pode imaginar, porém não tem amor de seus pais, que brigam e acabam se separando. No outro lado, tem-se Pequena Gatinha, que, apesar de viver com poucos recursos, tem o amor irrestrito de seu “avô”. O desenrolar da trama vai fazer com que essas personagens se encontrem indiretamente e diretamente.
Dos aspectos técnicos, a atuação dos atores mirins me parece o mais essencial, uma vez que os curtas são protagonizados por eles. Nesse aspecto o filme é fantástico. São ótimos atores. Destaco, entretanto, o garoto cigano (o que se encontra preso e é libertado), Pequena Gatinha, Song Song e Ciro. Atuações impecáveis, que nos deixam maravilhados diante de tanto talento.
Como se pode perceber, a proposta do filme é mostrar as várias maneiras em que as crianças são invisíveis. Tal invisibilidade advém do descaso da sociedade como um todo ou dos próprios pais. O filme levanta uma série de questões importantes, e que devem causar uma reflexão em seus espectadores. É muito pesaroso saber que esse filme teve uma divulgação tão ínfima no circuito comercial, por se tratar de um filme de importância imensurável para se levantar um debate mais consistente sobre a criança, que será quem guiará a humanidade em alguns anos. Se as tratamos dessa forma hoje, como exigir delas atitude diferente no futuro? A tendência, infelizmente, é piorar. Até chegar a um ponto de saturação em que não haverá como ignorar tais situações.
