Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 28 de março de 2005

Robôs

Exceto as traduções bizarras, como Robot City para Robópolis, o filme consegue ser muito satisfatório e torna-se uma ótima diversão. Apesar da história pouco criativa, todos os personagens possuem características com as quais você irá se identificar, com certeza.

Fazer filme com robôs é uma mania que vem desde os primórdios do cinema. O homem sempre quis imaginar como seria uma cidade habitada exclusivamente por robôs. Como seriam suas vidas? Como eles se “alimentariam”? Como seria a comunicação entre eles? Como eles se relacionariam? Como eles se divertiriam? O filme "Robôs" traz tudo isso em animação computadorizada, de uma forma exemplar. O estúdio Blue Sky, responsável pelo ótimo e divertidíssimo "A Era do Gelo", consegue repetir o sucesso de produção deste último, e melhora em vários aspectos. Numa época em que pensamos que só a Pixar e Dreamworks são as dominadoras do mercado, a Blue Sky, aos poucos, vem mostrando que não está no mercado para ser só mais uma.

No filme, você conhecerá robôs memoráveis, como Rodney Lataria (Ewan McGregor), um jovem e genial inventor que sonha em ajudar todos os outros robôs; Cappy (Halle Berry), uma bela, dinâmica e esperta robô por quem Rodney se apaixona instantaneamente; o nefasto e tirano executivo Dom Aço (Greg Kinnear), que enfrenta Rodney; Grande Soldador (Mel Brooks), o mestre inventor que se perdeu no caminho e um grupo de robôs “desajustados” conhecidos como Enferrujados. Todos eles, liderados por Manivela (Robin Williams) e Piper Pinwheeler (Amanda Bynes). A cabeça, os braços e as pernas de Manivela se soltam do seu corpo, com freqüência, nos momentos mais inoportunos. Quando Rodney atende às necessidades de conserto constantes de Manivela, os dois tornam-se bons amigos. Piper é a irmã caçula e travessa de Manivela, e surpreende a todos com sua determinação.

O resultado desta história é um filme de animação com personagens cheios de alma e de humor físico. Eu me diverti com todos os personagens, sem exceção. Cada um possui características exemplares e cativantes. Não é todo filme que consegue mostrar um carisma com essa excelência. Manivela é o mais engraçado de todos, ao lado da engenhoca de Rodney (aquela garrafa térmica que voa e tem tentáculos), um robô muito atrapalhado e com um carisma absurdo. Ele consegue tirar muitas gargalhadas do público. É desse tipo de personagem de que estou falando. Personagens dos quais você vai lembrar de uma forma singular quando for contar algo do filme para alguém.

"Robôs" mostra muitas lições de moral. Exagerado, mas para o público alvo do longa, são sempre bem vindas. Eles provam que um robô pode brilhar, não importa do que seja feito. Esse é o lema do Grande Soldado. Mas, na vida real, ainda existe muita inveja e seres querendo destruir tudo que foi construído de bom com um único objetivo: ganhar dinheiro. O filme consegue mostrar isso muito bem e passar boas lições para os baixinhos e até para os "grandinhos", que mesmo sendo “maduros”, ainda cometem erros tolos por não darem valor aos sentimentos das pessoas. Hoje em dia é fácil colocar nos filme esse tipo de lição, mas para este em especial, caiu bem. Muito bem.

A história bobona não é nenhuma novidade. Parece que as animações sofrem muito disso. Poucos filmes do gênero possuem histórias novas e interessantes. Ou são bobonas e clichês, ou são sarcásticas como "Shrek". Não que isso seja ruim, mas espero muito por animações que tenham bastante conteúdo. Não quero ficar maravilhado só com o visual, quero desfrutar as qualidades de um bom roteiro também. Algumas cenas no início de “Robôs” lembram "Os Incríveis". Especificamente, as cenas nas quais os pais de Rodney estão construindo-o. Sim, os bebês não são gerados, são fabricados. Chegam em caixas. Bem divertido. Você dará boas risadas.

Falar das vozes (sem redundância) é complicado. Principalmente porque é difícil imaginar outras vozes para os personagens. Ewan McGregor, Halle Berry, Greg Kinnear, Mel Brooks, Drew Carey, Jim Broadbent, Amanda Bynes e Robin Williams conseguem dar conta do recado. Todos foram bem. "Robôs" marca o retorno de Robin Williams às dublagens em filmes de animação depois de seu papel em "Aladdin", de 1992. Além disso, esta é a estréia de Mel Brooks fazendo uso de sua voz num filme deste estilo.

Ewan McGregor disse em entrevista que "a viagem de Rodney para Robópolis lembrou um pouco a minha primeira visita à Londres". É interessante ver como o ator que faz a voz se identifica com o personagem. Não tem como não comentar a performance de Robin Williams (com o personagem Manivela) cantando uma parodia hilária do clássico “Singin’ in the Rain” – chamada "Singin’ in the Oil". Para uns de mau gosto, para outros (estou incluso), veio bem a calhar. Além de várias outras referências, já tradições nas animações, Star Wars, O Senhor dos Anéis, Coração Valente e muitas outras.

A trilha sonora também agrada. É jovem, bem a cara do público do filme. Ricky Fanté, o artista contratado pela Virgin Records, canta “Shine”, a canção dos créditos finais. Também vale lembrar na trilha sonora, as canções de Fountains of Wayne, “Tell Me What You Already Did”; “Walkie Talkie Man”, de Steriogram; a canção de Stacie Orrico, “More to Life”; “Wonderful Night”, de Fatboy Slim e “Love Dance”, de Earth, Wind e Fire. Gostei também da pequena aparição de "Low Rider", numa cena dentro do carro. Sem falar na cena em quem o Manivela dança uma música da Britney Spears (não vou comentar, assista e veja).

Chris Wedge (diretor) e o brasileiro Carlos Saldanha (co-diretor) conseguem o êxito mais uma vez. Tudo que eles queriam e imaginaram, funcionou perfeitamente. Tirando a baboseira da história, tudo está “nos conformes”. A dupla foi responsável pelo o enorme sucesso de "A Era do Gelo". Ambos estão trabalhando na seqüência deste. Torcemos que seja sucesso com o primeiro, o que é um tanto difícil de acontecer.

O filme cumpre com êxito o seu papel de divertir. Você vai adorar os personagens e vai torcer pelo sucesso de todos. Se você achar as atitudes de Dom Aço parecida com os governantes de algumas cidades atualmente, com certeza, não será mera coincidência.

Jurandir Filho
@jurandirfilho

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