Cinema com Rapadura

Notícias   domingo, 27 de setembro de 2020

Primeiras impressões de Pátria, nova série espanhola que estreia neste domingo na HBO

Primeira produção espanhola da HBO é um interessante drama sobre as tragédias causadas no País Basco.

Primeiras impressões de Pátria, nova série espanhola que estreia neste domingo na HBO>

Durante a década de 1960, os conflitos internos do País Basco ganharam proporções alarmantes com o surgimento da organização nacionalista Euskadi Ta Askatasuna (ETA). O que começou com um grupo de estudantes que tinham o objetivo de propagar a cultura basca logo se tornou uma associação terrorista, que encontrou na luta armada uma forma de reivindicar a independência das regiões da Espanha e da França que fazem parte do País Basco. As ações do ETA impactaram a comunidade basca profundamente, e elas só chegaram ao fim em 2018, quando a organização publicou um vídeo pedindo desculpa para as mais de 800 famílias afetadas. Baseada nesses eventos e no romance homônimo de Fernando Aramburu, “Pátria” é a primeira série espanhola produzida pela HBO, que estreia neste domingo (27).

A série mergulha na vida de duas mulheres e suas respectivas famílias, contando suas histórias pela ótica de três décadas diferentes. Bittori (Elena Irueta) é uma viúva cujo marido, Txato (José Ramón Soroiz), é assassinado na porta de sua casa por estar devendo dinheiro para a organização. A angústia de ter a morte de seu marido associada ao grupo e não a um nome faz com que, anos depois, ela retorne para seu vilarejo em busca de respostas. Em contrapartida, Miren (Ane Gabarain) é mãe de um dos integrantes do ETA  e espera que um dia seu filho seja liberto da prisão. As duas, que um dia foram melhores amigas, se afastam após as tragédias que aconteceram em suas famílias e que as fizeram ter pontos de vista totalmente diferentes sobre a situação vivida pelo País Basco.

Essa oposição de pensamentos das duas protagonistas já é indicada por suas diferentes reações ao assistirem o pronunciamento do ETA pedindo perdão para suas vítimas. Enquanto Bittori se questiona, raivosa e entristecida pelas vidas perdidas que nunca poderão voltar, se a mãe do jovem fazendo o pronunciamento seria capaz de reconhecer sua voz, Miren se mostra revoltada pelo fato da organização ter parado com suas operações antes de alcançar seu objetivo e pergunta se sua filha consegue reconhecer aquela voz, mas, diferente de Bittori, ela faz esse questionamento com orgulho de saber que a resposta é “sim”. É interessante ver lados diferentes de uma mesma história sendo contados pela ótica de vítimas que passaram por tragédias tão parecidas, mas ao mesmo tempo tão distantes. Mostrar esses lados distintos faz com que essa não seja uma narrativa de vilões e heróis, mas sim de pessoas comuns, que mesmo com ideais tão diferentes, compartilham uma mesma dor.

Tratar essa história com a delicadeza de não transformá-la em uma narrativa de certos e errados traz uma seriedade necessária quando assuntos como esse estão sendo expostos, equilibrando os exageros melodramáticos que costumam acompanhar as produções espanholas (exageros que não são ruins, mas que trazem um tom novelesco que poderia prejudicar uma obra como esta) e que estão presente aqui. Assim, as atuações e os diálogos, mesmo que contenham pitadas desse exagero, são contundentes e valorosos, e é difícil não sentir empatia por cada um daqueles personagens.

Porém, por mais que seja desenvolvida de forma cirúrgica, a forte carga dramática, quando apresentada nos longos episódios de quase uma hora, pode se tornar, pelo menos em seus primeiros episódios, cansativa e enfadonha, o que pode causar desinteresse por parte do público, deixando a série de lado antes de seu episódio final. Mas, mesmo que cansativa, “Pátria” consegue conquistar a audiência com boas atuações, diálogos bem escritos e uma trama equilibrada e bem construída, provando que vale a pena continuar acompanhando os próximos episódios.

Saiba Mais: , , , ,

Ana B. Barros
@rapadura

Compartilhe


Notícias Relacionadas