Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Aladdin (1992): um clássico inimitável [CLÁSSICO]

Fruto de eras passadas, animação da Disney é uma obra essencialmente única.

Uma obra sempre é concebida dentro de um contexto espaço-temporal específico. Mesmo que não dependa de vieses culturais contemporâneos para ser compreendida, seus realizadores trabalham com místicas, interpretações e a partir de pontos de vista de seu tempo. Assim, “Aladdin” é um excelente fruto de seu tempo e local, mesmo que sua história se passe em terras e épocas longínquas, tornando mais difícil compreender – ou repetir – seus êxitos tanto tempo depois de seu lançamento.

O longa conta a história do rapaz-título (dublado no original por Scott Weinger, o Steve da série “Três é Demais”), um jovem pobre que vive nas ruas de Agrabah com seu macaco e depende de pequenos furtos para sobreviver. Manipulado pelo feiticeiro Jafar (Jonathan Freeman), Aladdin acaba encontrando uma lâmpada mágica, a qual liberta um Gênio (Robin Williams, da franquia “Uma Noite no Museu”) disposto a realizar (quase) todos os seus desejos.

As limitações impostas pelo Gênio a Aladdin estabelecem as próprias diretrizes temáticas do filme: o rapaz poderia pedir qualquer coisa, exceto matar alguém, fazer com que uma pessoa se apaixone ou trazer um morto de volta à vida. Estas regras norteiam o filme: a impossibilidade de matar pessoas ajuda a abalizar quaisquer dúvidas que Aladdin possa ter em relação a dar cabo de Jafar quando este lhe dá motivo (até porque esta ainda é uma película infantil).

A impossibilidade de fazer com que Jasmine (Linda Larkin) se apaixone por ele guia o filme pelos descaminhos de Aladdin para conquistar o amor da princesa. Nesta busca, “Aladdin” encontra sua principal mensagem: sua identidade é mais importante e não pode ser afirmada por suas riquezas. Se para o ex-ladrão agora é fácil “ter”, o “ser” vai demandar que o herói se lance em sua jornada.

A terceira regra aponta para mais uma forte qualidade do filme. Ao propor um protagonista que rouba para não passar fome com seu macaquinho, a Disney deu um passo de crueza e pés-no-chão para seu filme fantasioso. Impedir que mortos ressuscitem reafirma isso: aqui, os riscos são reais.

Isto gera uma expectativa permanente no público sobre o que se dará a seguir – perspectiva a qual é ilustrada com a belíssima paleta de cores desérticas escolhidas para o filme. Entre areias pastéis e céus muito azuis, a intensidade das cores de “Aladdin” se torna um espetáculo à parte principalmente nos momentos que o Gênio entra em suas demonstrações de poder. Nelas, Robin Williams se desdobra e brilha em genialidade, em especial na sua primeira aparição musical.

Das canções, “Um Mundo Ideal”/”A Whole New World” se impõe como inesquecível, destacando-se dentre as demais que, embora componham bem a atmosfera, empalidecem dentre outras músicas-troféu da Casa do Rato.
Todos estes elementos foram combinados em um pano de fundo cultural fantasioso, num período difícil de identificar. A aparência por vezes cartunesca da animação faz com que isto vire em favor do público em vez de afastá-lo: o absurdo é mais aceitável quando se admite desta forma. Largamente aceito na renascença das animações da década de 1990, este aspecto estético do longa é essencial para que ele funcione com seus públicos.

A ideia de um mundo árabe místico e desconhecido é desvelada ao longo de 90 minutos e o público ocidental, afastado deste contexto, dispõe-se a receber as novidades que a animação tem a dar, de forma que o filme se torna o equivalente a uma viagem de tapete voador de uma hora e meia. É por isso que, sendo uma obra fruto de um distanciamento regional e cronológico em seu lançamento em 1992, “Aladdin” ainda permanece como um dos grandes pináculos das animações, inimitável e singular por definição.

Erik Avilez
@eriksemc_

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