Cinegrafista Janusz Kaminski faz alerta para colegas que “perdem o controle sobre o que filmam”
"De uma certa forma, não é bem fazer um filme, para mim", disse cinegrafista de Steven Spielberg.
Com o amplo uso de computação gráfica para alterar as imagens gravadas inicialmente para um filme, fica cada vez mais difícil para os cinegrafistas entregarem trabalhos, de fato, marcantes por si só. Sobre isso, um dos ícones da profissão, Janusz Kaminski, que vem trabalhando com o lendário Steven Spielberg há quase três décadas – sendo a colaboração mais recente entre ambos em “Jogador Número 1” -, expressou bastante preocupação nesta segunda-feira (09) em evento no Sindicato Internacional dos Cinegrafistas (via The Hollywood Reporter):
“Há cozinheiros demais dentro de uma única cozinha. Até agora, temos tido bons resultados, o que acontece se você tiver um bom chef no comando, como Steven (Spielberg). Mas, a partir do momento em que o diretor não está mais envolvido, o cinegrafista perde o controle sobre a imagem. (…) A imagem fica tão manipulada, començando no próprio set com os técnicos em imagem digital. É uma coisa que não tem limites.”
Vencedor de dois Oscars de Melhor Fotografia, Kaminski insistiu que o trabalho em sua área consiste em contar histórias a partir da relação entre luz e sombra, mas que, com as constantes intervenções digitais, as imagens concebidas nem sempre sobrevivem da forma como deveriam. Esta é uma preocupação recorrente entre seus colegas. Quando filmes eram rodados em película, quem manejava as lentes controlava o visual das imagens, mas na era digital, elas podem facilmente ser alteradas na etapa de pós-produção – cores podem ser manipuladas e ficar mais claras, escuras ou totalmente alteradas -, de forma que nem sempre reflita a intenção criativa original do cinegrafista.
Sobre seu último trabalho,”Jogador Número 1“, Kaminsky afirmou se tratar de “um filme incrível” e do qual se orgulha muito, mas também admitiu que sua “contribuição foi cerca de apenas 40%“. Como diretor de fotografia, ele trabalhou nas cenas que se passam no “mundo real”, enquanto as cenas ocorridas no OASIS, povoado por avatares dos personagens, foi totalmente computadorizado através de captura de movimentos:
“De certa forma, não é bem fazer um filme, para mim. Faço filmes com luzes de verdade, sets… Atuei como consultor para a ILM (Industrial Light and Magic, empresa especializada em efeitos visuais) para as partes digitais do filme.”
Por fim, ele afirmou que o grande desafio para o futuro de sua profissão é um de ordem criativa:
“Cinegrafia é a arte de luzes e sombras, metáforas visuais e nuances. Isso está desaparecendo. Vai evoluir e retornar. Mas agora não há diretores de fotografia suficientes se utilizando dessa arte para se expressarem.”
Janusz Kaminski é um dos principais expoentes da cinegrafia em longas-metragens, tendo sido indicado ao Oscar da categoria por seis vezes e vencendo em duas ocasiões, por “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan“. Seu próximo trabalho será novamente uma colaboração com Steven Spielberg, em “The Kidnapping of Edgardo Mortara” (“O Sequestro de Edgardo Mortara“, em tradução livre), ainda sem data de estreia definida.
Saiba Mais: Janusz Kaminski

>