Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 09 de abril de 2010

Dupla Implacável

O filme começa como o primo divertido (e levemente idiota) de "Dia de Treinamento". No entanto, o filme se rende a uma trama clichê ridícula, quase desperdiçando a boa química entre seus atores principais.

O trabalho anterior do diretor Pierre Morel, “Busca Implacável”, pegou o mercado americano (e, de certa forma, o internacional) de surpresa, com o filme de ação estrelado por Liam Neeson e produzido por Luc Besson estourando nas bilheterias. Com este “Dupla Implacável” ele repete a parceria com Besson, mas no lugar de Neeson temos John Travolta e Jonathan Rhys Meyers.

O cenário da trama, assim como em seu filme passado, é a cidade-luz Paris. A história do filme acompanha o jovem agente secreto James Reece (Rhys Meyers) que, após diversas missões de espionagem, está ansioso para sair em campo e virar um homem de ação. Trabalhando como espião na embaixada americana, na França, Reece está bem instalado na capital e acaba de ficar noivo da bela Caroline (Kasia Smutniak).

Tudo muda justamente na noite de seu noivado quando recebe sua primeira missão em campo: acompanhar o amalucado agente Charlie Wax (Travolta) em uma tarefa especial, que envolve traficantes e terroristas. Como nos filmes clássicos de parceria, o jeito metódico e certinho do novato Reece e o modo impetuoso (e eficiente) do veterano Wax agir irão se contrapor e gerar a tensão que irá entreter o público entre as cenas de ação do filme.

E sim, essa tensão funciona durante boa parte do filme, graças à química entre Travolta e Rhys Meyers. Enquanto o antigo Vincent Vega parece estar se divertindo muito ao viver uma espécie de Martin Riggs genérico do mundo da espionagem, seu companheiro mais jovem possui aquela aura de desconforto que cai como uma luva para o bom e velho parceiro certinho.

Não é preciso nem dizer que Travolta simplesmente rouba o filme, em uma interpretação extrovertida e encarnando um personagem que consegue ser engraçado enquanto se mostra perigoso. Enquanto Liam Neeson no já citado “Busca Implacável” mostrava-se um agente secreto sisudo e sério, que invocava o nosso respeito através de sua postura, Charlie Wax parece o tipo de homem que encontrou no humor a única forma de viver sua rotina violenta e solitária.

O roteiro de Adi Hasak consegue até espremer uma ótima referência à “Pulp Fiction – Tempo de Violência” e segue sem muita enrolação (leia-se, quase sem profundidade dramática), com os diálogos engraçadinhos entre Reece e Wax e o carisma de Travolta sendo os elementos que seguram o público até o próximo tiroteio.

É uma pena que o texto, até então relativamente despretensioso, simplesmente se autodestrua a partir do final do segundo ato do filme, apostando em uma reviravolta que, de tão previsível, chega a ser ridícula. A tal virada, além de apoiada em um clichê que qualquer fã do seriado “24 Horas” está cansado de ver, ainda tem seu outro alicerce em um furo de roteiro gigantesco.

Tal furo é explicitado pela contradição de Reece afirmar que fez uma checagem completa no passado de determinado personagem para, logo após, dizer que não sabe nada sobre este. Ainda há um diálogo telefônico entre Wax e seu parceiro no meio de uma cena de ação que é simplesmente inútil, considerando as circunstâncias.

Morel possui um bom olho para esse gênero, nunca apostando em montagens histéricas à lá Michael Bay. O público realmente consegue entender e mergulhar na pancadaria que, vamos e convenhamos, é a verdadeira estrela do longa. Destaco a chuva de corpos na escada e toda a sequência na periferia.

Nesse sentido, o cineasta foi feliz em repetir sua parceira com o cinematógrafo Michel Abramowicz e com o montador Frédéric Thoraval, criando uma identidade visual para suas fitas. Mas chega a ser inacreditável que o roteiro e o próprio Morel reutilizem quase todas as ambientações de “Busca Implacável”, inclusive a abordagem na zona vermelha e a troca de tiros em meio ao jantar. A originalidade mandou lembranças para os envolvidos.

Até o final de seu segundo ato, “Dupla Implacável” é um bom exemplar do gênero de ação, bem na esteira das películas anteriores comandadas por Pierre Morel. Mas a suposta “reviravolta” que marca a parte final do filme e que pode ser antecipada por qualquer um nos dez minutos iniciais da produção faz com que o espectador saia do cinema com um gosto de comida re-re-requentada na boca.

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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