A noite da sexta-feira, 11, foi encerrada com a exibição de "Vete de mí", produção espanhola dirigida por Victor García Léon. A ficção mostra a relação de um pai que precisa cuidar do filho de trinta anos quando este sai da casa da mãe. Entre resistências e tentativas frustradas de demonstrações de amor, o longa destaca-se pela simplicidade e graciosidade.
Santiago (Juan Diego) beira os sessenta anos e é um ator secundário de teatro. Levando a vida com conformismo de um "velho" que se vira como pode, ele mora com a namorada Ana, cerca de vinte anos mais nova. Durante o sexo atrapalhado do casal, o filho Guillermo (Juan Diego Botto) chega com a mala pronta para ficar "uns dias". Não gostando muito da idéia, Santiago faz de tudo para se livrar das obrigações de pai.
O que mais chama atenção na história de Santiago e Guillermo, além do espelhamento das personalidades, é a forma como o roteiro aborda várias características dos personagem de forma avulsa, porém eficaz. Santiago é visto como um ator frustrado que só se reconhece nessa condição depois que percebe que perdeu parte de sua vida tentando ter uma vida normal, sem ambições. Guillermo traz para o pai e para a madrasta a juventude deles que não voltam.
Santiago e Guillermo precisam aprender a lidar com as disparidades e conseguir encontrar um lugar para suas vidas perdidas. Em um desfecho paralelo à idéia de que "tudo termina em pizza", a experiência do longa se restringe a discussões ideológicas de pais e filhos que são comuns a todas as famílias. Sem muito apelo estético, o filme de Victor García Léon agrada por ser palpável e deliciosamente divertido.
Os Juans Diegos
Juan Diego e Juan Diego Botto são os destaques de "Vete de mí". O primeiro dá vida a Santiago, o patriarca chato que não quer responsabilidade familiar. No fim das contas, essa ausência como pai acaba sendo substituída pelo real problema do personagem: um constante conformista de sua vida sem grandes espectativas.
É interessantíssimo o contraste dos personagens. É como se eles se completassem dentro dos conflitos e fora deles. A química atrapalhada deles está desde o início do filme e vai sendo revelada até o desfecho do longa. Juan Diego foge de caricaturas, até mesmo quando alia aos porres alcóolicos para reclamar da vida.
O Guillermo de Juan Diego Botto é sinônimo de juventude. Com 30 anos ditos no filme, ele parece ter menos e aproveita a vida como um adolescente. Talvez esteja nisso o mais curioso do personagem, que reflete ao pai uma vitalidade que, aparentemente, é invejada. Ao passo disso, Guillermo admira o pai por ter tido um futuro profissional, por ter uma casa e uma companheira.
A dupla é reforçada pela incrível naturalidade de Cristina Plazas como Ana e pela participação pequena e pouco justificada de Rosa Maria Sardà, como a mãe Julia. Ainda é cedo para falar em premiação do Cine Ceará, mas não seria demais arriscar que Juan Diego leve o troféu de Melhor Ator.




