O longa "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro", de 1968, um dos maiores sucessos do cineasta baiano Glauber Rocha, foi restaurado. O filme, "exilado" pelo cineasta junto com outros negativos originais, por medo da repressão do regime militar, foi mandado para um laboratório francês. Porém, o cineasta não previa que o abrigo para os rolos pegaria fogo.

Além de que juntar o que havia sobrado das obras parecer impossível, a restauração do longa, que contou com o apoio financeiro da Petrobras, passou por muitas dificuldades. Paloma Rocha, filha mais velha de Glauber e responsável pelo projeto de restauração das obras de seu pai, conta que a única cópia existente em negativo estava na Alemanha e ainda era dublada em francês, com legendas também em francês nas partes com música.

O áudio veio de uma cópia em preto e branco cubana. "Esse foi um trabalho de sílaba por sílaba. Contamos, inclusive, com o apoio da Internet. No filme, Odete Lara canta 'Carinhoso', mas estava faltando o 'M' do verso 'Meu coração..'. Conseguimos esse 'M' em uma cópia pirata encontrada na Internet", afirmou Paloma para o jornal O Povo. Ela conta ainda que o resultado ainda precisa de melhoras, pois apresenta falhas de sincronia e falta de quadros.

A nova cópia que foi recuperada em Londres por João Sócrates (que já recuperou o clássico do cinema italiano "Noite de Cabíria" de Fedrerico Fellini), também contou com a "tecnologia do Homem-Aranha". Essa qualidade era até então inexistente no Brasil, com resolução de quatro mil linhas de pixels, possibilitando mais nitidez na imagem.

"Isso nos permitiu recuperar a cor original. O Affonso Beato, diretor de fotografia, chamava o filme de tropicolor, porque ele se inseria dentro de uma perspectiva tropicalista de saturar as cores primárias, o que é fundamental para o conceito original. Então, não se restaura só a matéria, mas também o conceito", explica Joel Pizzini, co-produtor do projeto e marido de Paloma.

"O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro", cuja restauração pertence ao projeto liderado pela organização Tempo Glauber, faz parte do Cinema Novo e reúne uma série de marcos. Foi o primeiro filme do cineasta a ser colorido, ter som direto e foi o único a ser lançado na Europa. Além disso, foi por esse longa que Glauber Rocha recebeu o prêmio de melhor diretor no festival de Cannes.

O filme, que será reapresentado pela primeira vez na sexta, 14 de março, em Salvador, dia em que Glauber completaria 69 anos, deve chegar aos cinemas no fim de abril com direito a três copias em película e distribuição digital.

Confira algumas fotos do filme: