"Persepolis" (Persepolis, 2007) é quase um filme infantil. A diretora Marjane Satrapi adaptou a graphic novel de sua própria autoria para as telas de cinema. O filme, que concorreu à Palma de Ouro no último Festival de Cannes, prova, em exibição na Mostra de São Paulo, porque foi tão cotado para vencer o festival.
É uma história autobiográfica. A iraniana Marjane tinha apenas 10 anos quando assistiu de perto à revolução comandada pelo aiatolá Khomeini. Seus parentes foram arbitrariamente presos, executados, enquanto a pequena Marji se tornava comunista, gritava "abaixo o Xá!" e falava em Che Guevara.
Porém, o espírito espevitado de Marji fez com que ela voasse para longe do Irã. Contestando policiais, professores, e quem mais dissesse absurdos a ela, Marji foi mandada a Viena. Mas lá, ela vivia como uma aborígine. As pessoas a viam como um ser exótico. Tanto é que os amigos dela eram as figuras marginalizadas do liceu. Marji sempre se sentiu estrangeira. A solução não era voltar para casa, porque quando voltou, ela se sentia estrangeira também. A vida de Marji sempre foi tumultuada. Enquanto criança, ela vivia como adulta. Quando pôde ter uma vida mais compatível com a própria idade, ela se sentia culpada por estar num lugar seguro.
"Persepolis" é uma animação cujas vozes principais são dubladas por Chiara Mastroianni (Marjane) e a mãe – na vida real e nas telas – Catherine Deneuve. O tom lúdico é inerente ao filme. A pequena Marji queria ser profeta e, em vários momentos, aparece dialogando com Deus. São cenas inocentes, mas de uma beleza só. O filme é de uma leveza notável. Especialmente porque se passa numa guerra e, depois, em anos difíceis de Marji na Europa, tentando se adaptar. Ela descobre o amor, o ciúme, as desilusões, e é dramática, mas sem perder um tom cômico.
Quando volta ao Irã, uma amiga pergunta: "Você já dormiu com um homem?", ao que ela responde: "Já". A amiga continua: "É bom?". E Marji termina: "Depende do homem". Talvez seja por esse tom que o filme se torne tão perturbador. Em um Irã no qual a garota tem que ouvir Iron Maiden escondido, onde é repreendida por mostrar a franja, onde não podia andar maquiada, nem andar de mãos dadas com o namorado, conseguir manter o bom humor é quase impossível.


























