O ator e diretor britânico Kenneth Branagh, fã de teatro, já adaptou algumas peças de Shakespeare às telas de cinema. Em "Um Jogo de Vida e Morte" (Sleuth, 2007), ele traz a peça homônima do prêmio Nobel de Literatura Harold Pinter. O filme é absolutamente teatral, ambientado totalmente na casa do escritor de romances policiais Andrew Wyke. Ele recebe a visita de Milo Tindle, o amante de Maggie, a esposa do romancista. Todo o filme é calcado na guerra travada entre os personagens. Por isso, a presença de Michael Cane é essencial. Ele, que no filme original, de 1972, havia feito Milo, agora dá vida a Wyke. Enquanto isso, Jude Law interpreta Mile Tindle.
Apesar de transitarem por vários ambientes da psicodélica mansão de Wyke, o que realmente importa são os diálogos. Tindle aparece na casa para pedir que Wyke dê o divórcio a Maggie. Wyke, contudo, não está disposto a ceder e, com o orgulho ferido, envolve Tindle numa trama de jogos psicológicos. Os diálogos pensados por Pinter sustentam a tensão da trama, do início ao fim. Ambos são sarcásticos, com alguns toques de sadismo.
Wyke trata a situação como se estivesse planejando um romance. Ele é minucioso e calculista. Mas subestima Tindle, que consegue, digamos assim, empatar o jogo. Nunca se sabe quando eles estão realmente falando sério ou quando estão apenas querendo deixar o oponente acuado. A disputa vai muito além de Maggie, pois um clima homoerótico se torna evidente em alguns momentos. É um embate extremamente charmoso.
Outra pessoa que mudou de lado é a canadense Sarah Polley (foto), a atriz de "Minha Vida Sem Mim". Na Mostra, Polley apresenta, em competição, "Longe Dela" (Away from her, 2006). Ela também adaptou o conto que originou o roteiro. Trata-se de uma história de um casal cuja vida conjugal se vê totalmente abalada devido ao mal de Alzheimer que a mulher, Fiona, desenvolve. Grant, o marido, tem de aprender a lidar com a situação, já que ele não pode esquecer os 45 anos que passou ao lado da esposa, enquanto que ela, dia a dia, tem a memória desmantelada pela doença. O filme retrata o início da doença, enquanto Fiona tem condições de decidir se internar numa clínica especializada.
Lá ela conhece Aubrey, um paciente em estágio mais avançado da doença, a quem ela se afeiçoa imensamente. Grant, agora quase um estranho, a princípio sofre muito, mas começa a lidar com a situação, de modo a fazer de tudo para garantir o conforto e a felicidade de Fiona. Então ele procura consolo em Marian, esposa de Aubrey. É um triste relato não só documental em relação ao próprio mal de Alzheimer, mas de como as relações se modificam devido à perda da memória de Fiona. Grant se pergunta como ficam as próprias lembranças de tudo o que eles viveram se, agora, só ele consegue recordar.


























