No novo filme de J.J. Abrams, “Super 8″ (2011), as ações que servem como base para os acontecimentos da trama estão vinculadas à presença de uma câmera no quadro, ao ato de filmar e produções dos anos 70. No caso, feitas em uma câmera Super 8 – daí o nome do filme. Essas referências diretas do cinema ao próprio cinema não são novidades. Pode-se dizer que uma das coisas que o cinema sempre soube fazer muito bem foi falar de si mesmo.
Mote para o trabalho de muitos cineastas, a metalinguagem está presente em produções ficcionais e documentais. E a variedade de elementos de linguagem do cinema faz com que essa metalinguagem aconteça com bastante frequência. Desde o aparecimento de sets de filmagem na cena até a reprodução de trechos de outros filmes. Não raro, vemos cenas que fazem alusão aos sapatinhos vermelhos de Dorothy em “O Mágico de Oz” (1939), ou às canções de “A Noviça Rebelde” (1965), tem ainda aqueles que trazem para dentro da narrativa trechos como o da despedida de “Casablanca” (1942). Há ainda as incontáveis referências à cena de “E.T. – O Extraterreste” (1982) em que a bicicleta cruza a lua em contra-luz.
Podemos começar falando que desde seus primeiros exercícios, o cinema já se mostrava nas telas, já falava de suas características e singularidades. Já em 1903, em um filme intitulado a “Lanterna Mágica”, Georges Méliès já brincava com um filme dentro de um filme, além da referência aos shows de laterna mágica que aconteciam nos primeiros tempos do cinema. Na cena, dois palhaços montam uma caixa capaz de projetar imagens e materializar personagens.
Há algumas formas de classificar o aparecimento da metalinguagem no cinema. Podemos citar seu aparecimento como um exercício de exposição de elementos do fazer fílmico, o que proporciona reflexões e discussões sobre o filme que se vê, sobre o filme que se acha que vê e sobre o próprio cinema. É o caso da cena clássica de passagem do cinema mudo para o cinema sonoro em “Cantando na Chuva” (1952). Na cena, a atriz não consegue cantar no microfone e a equipe de filmagem tenta contornar o problema.
Pode ainda vir como uma referência ao enredo de uma obra anterior, seja a reprodução quase literal de um trecho, seja uma referência em palavras, um elemento cênico idêntico. Exemplo disso é que, mesmo quem nunca assistiu ao “Encouraçado Potemkin” (1925), de Sergei Eisenstein, conhece a tão famosa cena das escadarias de Odessa. Talvez não com esse nome, mas sabe exatamente ao que me refiro. Vários filmes já reproduziram a cena parcial ou quase integralmente. A mais famosa dessas referências é a que Brian De Palma faz em “Os Intocáveis” (1987).
Há ainda filmes que fizeram sucesso graças a essa autorreferenciação cinematográfica. Para citar um exemplo recente, temos a franquia “Todo Mundo em Pânico” (2000), que se lançou fazendo paródia ao filme “Pânico” (1996) e outros filmes de supense teen que fizeram sucesso nos anos 90. Se olharmos os quatro filmes da franquia, observaremos a reunião de trechos de diversos filmes, desde os de terror, como “O Exorcista” (1973), filmes como “O Sexto Sentido” (1999), até produções de super herois, como as referências a “Superman Returns” (2006).
Os filmes aqui citados são apenas uma pequena mostra das variadas formas que o cinema usa para falar de si, para pensar as características da imagem e suas referenciações. Ao longo desses quase 116 anos de cinema, filmes fizeram referências a outros filmes, a estilos de cineastas, a personagens específicas. Se você lembrar de algum, coloca nos comentários.



























11 Comentários
Eu particularmente adoro quando a metalinguagem é utilizada, seja ela no cinema ou em qualquer outra arte. É como falar de uma língua utilizando a mesma. Vi que você citou “Pânico” e lembrei dele mesmo antes de ler a matéria, uma série em que filmes de terror falam das “regras” que ajudaram na própria construção do gênero. Muito legal!
Para mim o melhor é “O Grande Truque” do Nolan.
Exageros a parte eu gostei do filme ‘A Trilha’ que também usa a metalinguagem nos cinemas.
um filme recente que fez uma referencia interessante foi “rango” ao mostrar Raoul Duke e Dr. Gonzo de medo e delirio em las vegas. ambos protagonizados por johnny depp
Muito legal o texto, Georgia! A auto-referência é tema constante no cinema, e há filmes que tem o foco nisso.
Entre os meus preferidos está ‘Otto e mezzo’, de Federico Fellini. Não bastasse a referência ao fazer cinema em si, o mestre traçou paralelos com a própria carreira de realizador e até com a vida dele. Obra-prima entre obras-primas.
E, como não há limites para a metalinguagem, recentemente foi lançado o musical ‘Nine’, que não só faz referência aos filmes de Fellini como faz especialmente a 8 1/2!
=)
O Jogador do Robert Altman deveria ter sido citado. Grande filme e mais metalnsguistico impossível.
Assim q vi o título da matéria, me lembrei de Abraços Partidos do Almodovar. Um filme sensacional em q a história gira em torno da produção de um filme.
Vocês citaram a porcaria do Todo Mundo em Pânico e não falaram de Pânico(Scream)?? Esse foi um dos principais filmes dos anos 90. Nem deveriam ter falado desse outro aí que diz ser uma paródia engraçada. Eca!
temos tembem panico 4. que metaforicamente fala de si mesmo no próprio filme,auto intitulado” Stab”(facada)
O melhor filme desse tipo é concerteza 8 1/2 de Fellini.
Com certeza 8 1/2 do Fellini eh o maior exemplo. Jah começa pelo título.