Na sala de montagem, quando estava editando “Kill Bill”, Quentin Tarantino se deu conta de que sua saga de vingança, originalmente planejada como um épico de longa duração, apresentava duas partes com elementos bem distintos: uma homenageando as lutas orientais e outra cultivando o saudosismo dos antigos filmes de faroeste. O que ele decidiu? Transformar sua história em dois filmes que, apesar de acompanharem a mesma trama, acabaram se mostrando obras de narrativa e estética absolutamente díspares. O nome de Tarantino já havia se tornado uma lenda tão consistente no cinema que nem o poderoso produtor Harvey Weinstein conseguiu reverter o lançamento de “Kill Bill” em duas sessões.

Mas nem todos são Quentin Tarantino. Em Hollywood, casos assim são exceção, não a regra. Nos anos 1970 e 1980, muitos cineastas iniciantes, hoje renomados, sofreram na mão de produtores superinfluentes na capital do cinema. Sustentando opiniões divergentes em relação à estratégia de lançamento dos produtores, esses cineastas foram obrigados a entregar ao público versões distantes de seus propósitos pessoais. Com a consagração, veio também a oportunidade de remexer nos materiais de arquivo e trazer à tona versões mais próximas daquilo que planejavam fazer enquanto filmavam.

Talvez o exemplo mais famoso de “versão do diretor” (ou director’s cut, a alcunha hollywoodiana) seja “Blade Runner – O Caçador de Andróides“. A adaptação da obra de Philip K. Dick se tornou um clássico algum tempo após o discreto lançamento nos cinemas. Os elementos apocalípticos e os diálogos poéticos transformaram o longa em cult – aquele tipo de ícone cultural tão cultivado que chega a adquirir ares de crença religiosa. Mas foi em 1992, dez anos depois do lançamento nos cinemas norte-americanas, que “Blade Runner” consolidou seu status de um dos grandes filmes de ficção científica da história.

Blade Runner – O Caçador de Andróides

O cineasta Ridley Scott aproveitou a repercussão do filme e sua consagração em Hollywood para trazer à tona uma director’s cut que eliminava diversos pontos contrários à visão do criador diante de sua própria obra. Quando lançado no circuito comercial, no início dos anos 1980, “Blade Runner” teve inserida, a contragosto de Scott, uma narração em off na qual o personagem de Harrison Ford explicava a história (de modo a deixar a trama mais compreensiva para o público), além de um final feliz que fugiu totalmente dos propósitos iniciais do diretor.

A versão lançada nos anos 1990 eliminou a narração, modificou o desfecho da história e, a partir da adição de passagens sutis em alguns momentos da trama, criou um dos questionamentos mais polêmicos entre os nerds viciados em ficção científica: Rick Deckard, o detetive interpretado por Ford, era ou não um replicante? Em 2007, Scott lançou uma versão final do diretor que manteve a dúvida, com alguns retoques nos efeitos especiais e cenas estendidas.

Outras versões do diretor mereceram relançamento na tela grande. “Apocalypse Now“, o clássico de guerra de Francis Ford Coppola de 1979, voltou aos cinemas em 2001 com 49 minutos a mais e o codinome de “Apocalypse Now Redux“. A nova versão serviu para reforçar todo o mistério em torno da obra, cujas filmagens foram marcadas por um ataque cardíaco do ator Martin Sheen e algumas ameaças de suicídio do próprio diretor.

Apocalypse Now

O saldo positivo do relançamento do filme nos cinemas não se repetiu em outros casos mais polêmicos. Em 1997, quando relançou a trilogia clássica de “Star Wars”, com o intuito de abrir caminho para a nova saga que iria se iniciar dois anos depois, George Lucas foi acusado pelos fãs de ignorar a originalidade da saga intergaláctica ao refazer efeitos especiais, alterar digitalmente sequências inteiras e inserir novas passagens. Também criou polêmica ao modificar uma famosa passagem no bar: o falastrão Han Solo (Harrison Ford), que se tornou herói de uma geração de crianças, adolescentes e adultos, não era mais o cara que atirou primeiro no caçador de recompensas Greedo após uma discussão.

Esse ataque de bom-mocismo também acometeu Steven Spielberg. Em 2002, quando o cineasta comemorou os 20 anos do clássico “E.T. – O Extraterrestre” com uma versão especial nos cinemas, os fãs constataram que, inexplicavelmente, as armas dos agentes do FBI que participaram da captura ao alienígena foram substituídas digitalmente por walkie-talkies. Contudo, para além dos retoques artísticos ou intervenções sem grandes consequências para o conjunto do filme, algumas director’s cut praticamente redefiniram obras que antes eram apenas emaranhados de cenas aparentemente desconexas e vazias.

Talvez o caso mais impressionante seja o que fizeram com “Demolidor – O Homem Sem Medo“, de Mark Steven Johnson. Em 2003, nos primórdios da febre dos filmes baseados em quadrinhos, a versão lançada nos cinemas do herói cego criado por Stan Lee decepcionou os fãs pela falta de uma trama que justificasse o longa. O que se viu foi uma sequência de heróis fantasiados lutando, sem uma história que sustentasse as imagens. A explicação veio com o lançamento da director’s cut em DVD: a tal trama ausente nos cinemas tinha ficado na sala de edição. A nova versão praticamente anula a pálida aventura conferida na tela grande.

Demolidor – O Homem Sem Medo

Polêmicas ou não, as director’s cut são uma boa oportunidade de encarar um filme como planejado originalmente por seu principal condutor. A despeito de intrigas inseridas levianamente, como as de “Star Wars” ou “E.T.“, algumas versões do diretor conseguem dar outro sentido àquilo que não soou tão bem quando lançado pela primeira vez. Além disso, é uma forma de aproveitar as maravilhas da tecnologia e o espaço quase ilimitado de armazenamento das novas mídias. Afinal, nem todo mundo é dono de seus próprios passos em Hollywood. Quentin Tarantino é exceção, não a regra.