Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 11 de abril de 2009

Presságio

O que aconteceria amanhã se uma pessoa comum fosse capaz de prever o fim do mundo hoje? O diretor Alex Proyas e o astro Nicolas Cage questionam a situação e instigam no público a confusão entre a coincidência na crença religiosa e a fé na ciência.

Alex Proyas aposta e acerta no tema de “Presságio”. Desde o início do longa-metragem é visível que o enredo principal vai se desdobrar em torno de uma grande catástrofe. O diferencial deste para outros filmes do gênero é que o caos e o desespero não são os fatores chave para o entendimento da trama. O foco é o desastre, porém este é apenas o estopim para algo muito maior. Proyas trabalha muito bem o andamento do filme. Embora o roteiro, que também tem participação sua, não contribua para a linearidade da história e até seja o principal motivo de confusão na mente do público, Proyas canaliza nos magníficos efeitos visuais e na presencial trilha sonora para ditar o ritmo da narrativa. Outro ponto positivo é a atuação de Nicolas Cage, que já há algum tempo é bastante criticado pelos fracos trabalhos, mostra o ator veterano e experiente que é. Nos momentos de ação sua presença divide a cena com os efeitos especiais. E nos períodos dramáticos, a interlocução, ora com o cenário e ora com os personagens coadjuvantes é fantástica.

Na trama, Cage é o professor de física John Koestler, pai do menino Caleb (Chandler Canterbury). Bastante inseguro pela morte de sua esposa e responsável pela tutela do garoto, Koestler quase sempre se enrola na questão da paternidade. Não se lembra dos compromissos do filho, não tem conversas de forma clara com ele e o trata como se não entendesse aquilo que ocorre em sua volta. O drama familiar é o ponto de partida para Proyas inserir de forma singela temas como predestinação e coincidência. Um dos pontos altos do filme. Mesmo que vezes os diálogos pareçam forçados e recheados de clichê, sempre tem algo a refletir adiante.

O mistério se desenvolve no momento em que na escola de Caleb desenterram uma cápsula do tempo e os garotos recebem as correspondências que alunos deixaram há 50 anos. Ao invés de inocentes ilustrações, Caleb ganha uma folha de papel preenchida com números aleatórios. Perplexo com as anotações, Koestler, movido por uma curiosidade inexplicada, desvenda o significado dos números. Eles trazem catástrofes de grande escala ocorridas no mundo todo pelos últimos 50 anos, inclusive o acidente que vitimou sua esposa. Intrigado e obsessivo pela descoberta, o professor vai atrás da aluna que previu os acidentes. Ele encontra sua filha, Diana Wayland (Rose Byrne), que explica que sua mãe já havia falecido e junto de Koetler parte para desvendar a última previsão que aponta o fim do mundo.

Nesse meio tempo, muitos conceitos são discutidos com o público, como a incerteza se realmente estamos vivendo por um propósito maior ou estamos aqui por um mero acidente biológico; se a vida em outros planetas existe ou o ser humano é o único no universo; se estamos amarrados a um destino arquitetado por um ser superior. Porém, a maior das questões é o embate entre fé/crença com ciência. É fácil notar essa dicotomia em todos os personagens. O físico Koestler, por exemplo, em muitos momentos deixa a ciência de lado e mostra uma crença no desconhecido digna de vergonha a qualquer cientista. A carência pela perda da esposa e a procura pelo conforto no amor do filho transformam drasticamente sua personalidade.

Nicolas Cage administra de forma magnífica as nuanças do protagonista. Sua interpretação é notável. O quadro de coadjuvantes realmente são coadjuvantes. Desde o primeiro diálogo, Proyas deixa claro que Cage é o ponto fixo da história. Ele é o narrador participativo, que pelos seus olhos transmite as emoções dos personagens e conta a história sempre a partir de seu ponto de vista. Suas crenças mudam no decorrer da trama e o modo como seu personagem foi construído justifica as mudanças.

Os efeitos visuais e sonoros tem um capítulo a parte. Como em qualquer filme catástrofe, o público tem que ser convencido do que aquilo vê é verdade. E isto é comprovado nas cenas de ação e tensão. A queda do avião e o descarrilamento do metrô impressionam pelo imenso número de detalhes e veracidade. O trato com as imagens é de impressionar. A sensação de que aquilo realmente aconteceu é notada na hora. Se mesmo assim a imagem não convencer, a trilha sonora elimina as dúvidas. Marco Beltrami reveza entre as composições clássicas e serenas nos momentos de introspecção e aumenta os acordes quando é necessário assustar e surpreender.

Um ponto negativo do longa e que realmente deixa a desejar são os buracos em algumas explicações ou cenas sem sentido. Questões são levantadas e ficam em aberto. Algumas com certeza foram com a função de criar a dúvida e questionamentos no público, mas outras apenas confundem. A família de Koetler, por exemplo, é pouco utilizada e por isso se torna desnecessária para a trama. Elementos presentes, como as pedras negras, o aparelho auditivo de Caleb, seu coelho, a profeta e mesmo os próprios números perdem o sentido e não são norteados pelo roteiro. As dúvidas deixadas por Proyas podem provocar horas de discussão em uma mesa de bar, no entanto os furos no enredo também não ficam por menos. Temas tradicionais da filmografia de Proyas. “O Corvo”, “Cidade das Sombras” e “Eu, Robô” apresentam essa mesma pegada semiológica e simbólica dos fatos.

A constante religião/ciência está bem batida no cinema, mas aqui ela é introduzida pelo gênero catástrofe, que faz com outros caminhos e pontos sejam abordados. Como o bom samaritano, Proyas coloca sua visão de “mundo” de uma maneira a agradar gregos e troianos. Para os mais céticos, esta é uma ótima oportunidade de ampliar ou modificar sua opinião sobre a realidade que vivemos e se o conceito de vida é permeado por um objetivo, ou falta dele, e apenas aquilo que vemos diante dos olhos é o mesmo que acreditamos. Para os mais críveis e crentes, o filme coloca a interessante questão de poder superior.

Independente de dogmas religiosos, a busca pela explicação e sentido da vida é posto em cheque. Aquilo que acreditamos é apenas conforto e necessidade de objetivo ou estamos perdendo nosso tempo, pois sempre acreditamos na orientação superior que nunca existiu? A pergunta “Os Deuses eram Astronautas?” surge naturalmente na mente de quem assiste.

Pablo Cordeiro
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