Sabe quando a indústria cinematográfica não tem mais nada para inventar e decide pegar filmes relativamente bons e estabelecer continuações somente por fazer, se aproveitando da fama do anterior para movimentar público? Pois é, "Efeito Borboleta 2" seguiu essa linha e não passa de uma ofensa ao filme original. Uma verdadeira pérola cinematográfica que não vale um centavo do que o público paga para assisti-la.
Dois anos depois do aclamado "Efeito Borboleta", protagonizado pelo fraquinho Ashton Kutcher e embelezado por Amy Smart, a indústria hollywoodiana decidiu reforçar sua falta de criatividade e pegar o sucesso de público e de algumas críticas que este filme teve para filmar nada mais nada menos que sua seqüência. Não que a história permita uma franquia, já que o primeiro longa não deixa margens a continuações, e sim, a meros remakes onde mudam somente personagens e situações, tendo a premissa basicamente igual. Em "Efeito Borboleta 2", é hora de Nick Larson (Eric Lively) controlar o tempo e suas mudanças caóticas do passado que alteram completamente o futuro. Nick é um jovem bem sucedido que tem o trabalho e a namorada que todos gostariam de ter. Em um belo dia, enquanto comemorava o aniversário de sua namorada Julie (Erica Durance) com mais dois amigos, são vítimas de um acidente terrível que causa a morte dos três companheiros. Traumatizado e inconformado, ele descobre que consegue voltar no tempo e mudá-lo, mas sofrendo as conseqüências de tais mudanças, que remeterão no seu futuro. A partir daí, o rapaz tenta a todo custo recuperar o amor de sua vida e, ao mesmo tempo, manter-se em uma boa posição na empresa onde trabalha.
Interessante, não? Não! Daí você se pergunta: ok, mas tem algo a ver com o filme anterior? A resposta mais uma vez é não. A premissa desta infeliz seqüência não mantém o nível da anterior e se mostra imatura e superficial. Talvez esse tenha sido o motivo pelo qual toda a equipe técnica da primeira versão tenha abandonado o projeto, já que viram o risco que correria ao assinar tal película. O roteiro de Michael Weiss é o ponto mais deficiente de toda a projeção. Primeiro porque não consegue seduzir o espectador em momento algum, nem montar uma trama com jogos mirabolantes e momentos interessantes. Segundo porque sua linguagem cinematográfica é tão rala que não conseguiu construir o mínimo diálogo digno de um filme hollywoodiano, sem causar espantos e conseguindo ficar em um nível baixíssimo durante os minutos de projeção. É impressionante como dá a sensação de que o projeto de "Efeito 2" foi decidido assim: "peguem o primeiro, inventem algo parecido, mas mudem os personagens pelo menos, usando mais um tema adulto e clichê, coloquem bastante sexo e atores bonitos e usem esse dinheiro, e nem precisa se preocupar com qualidade não, sabemos que o público vai se interessar, já que conseguimos roubar o nome de 'Efeito Borboleta', então só o nome basta para nós". É a única coisa que consigo imaginar, já que o filme não tem compromisso nenhum em manter a qualidade do anterior. Os americanos tanto sabiam disso que enviaram o longa direto para as locadoras, mas como bons brasileiros que não desistem nunca, jogaram nas salas de projeção de todo o país para ser mais um caça-níquel, como se não bastasse todas as porcarias que temos em cartaz.
O enredo parte de uma premissa fraca e não consegue estimular no público uma ânsia pelos fatos e seu desenrolar como aconteceu no filme anterior. "Efeito Borboleta 1" dispôs de todo um aparato competente para chamar a atenção das pessoas, principalmente para efeitos de montagem e direção, sendo um filme sensível, mas ao mesmo tempo perturbador, já que não sabemos quando todas aquelas viagens ao passado na tentativa de mudar o futuro irão acabar. Mesmo não sendo um bom ator, Ashton Kutcher conseguiu dar uma densidade psicológica e dramática ao seu personagem, facilitado pelo roteiro que tem seus furos, mas não deixa de construir uma boa narração. Em "Efeito Borboleta 2", não temos nada disso. Tentei enxugar aspectos bons na história, mas não consegui. E olhe que nem sou tão fanático pelo primeiro, apesar de considerar uma boa opção nas locadoras, daí fico imaginando aquelas pessoas que o consideram o filme de suas vidas e vão ao cinema ver sua 'continuação', ludibriados que presenciarão coisa semelhante, mas acabam se deparando com uma tentativa frustrada de manter a linha do primeiro. E claro que não conseguem. O roteiro de Weiss, que não possui nenhum filme interessante em seu histórico, desvincula totalmente as idéias mais interessantes que poderiam ser reaproveitadas. Nesta "obra", ele resume a seqüência em apenas fazer com que o protagonista volte ao passado assim que ele vê que seu presente não está agradando. É como se fosse: "nossa, minha vida piorou agora. Ok, vou olhar uma fotografia, voltar a tal momento da minha vida e mudar tudo! Que se dane como eu estarei no futuro, o importante é arriscar e mudar minha atual situação.". Isso fez com que o protagonista tomasse um ar de Deus, como se tivesse tudo nas mãos e pudesse controlar, esnobemente, tudo ao seu redor. Não que isso não aconteça em "Efeito 1", mas neste é trabalhado mais o conflito psicológico, coisa que foi substituída pelo erótico nesta seqüência. Sim, o erótico. Quase pornô, para falar a verdade. Acho que quando o roteirista teve acessos não-criativos durante a escrita do enredo, ele pensou: "agora eu ponho uma cena de sexo… não que tenha alguma coisa a ver, mas chama sempre a atenção.". E como chama, principalmente porque você começa a se perguntar o que aquilo tem a ver com o andamento do filme. Sem falar que os focos principais tentam até adquirir um ar mais maduro, mas não passam de provas do despreparo da equipe técnica. Tais focos vão se desenvolvendo, mas parecem não engatar nunca. Junto a isso, ainda temos erros temporais, uso do timing errado nas cenas e ainda flashbacks que não cumprem seu papel, apenas servindo como redundância inútil, já que eles são usados com poucos minutos de trama, se referindo ao começo do filme. É como ver o início da história duas vezes seguidas.
O diretor John Leonetti não consegue nada mais do que qualquer pessoa com uma câmera consegue fazer. Na realidade, ele conseguiu a proeza de deixar o filme superficial e sem uma cronologia apurada, como Eric Bress e J. Mackye Grubber conseguiram. Além de não saber fazer as cenas renderem bons planos, os efeitos visuais são completamente amadores, e sua direção mostra o quanto precisa aprender. Claro, é apenas seu segundo trabalho… e espero que último, até aprender algo que possa ser bem-aproveitado em alguma outra película. Sem falar nos erros seqüenciais, que se revelam meros causadores de dor àqueles mais atentos. É impressionante a pouca preocupação com os detalhes, cometendo muitas gafes imperdoáveis, refletidas até na montagem das cenas. Como se não bastasse tudo isso, ainda não tem o mínimo feeling ao lidar com o elenco, cujos atores parecem meros robôs em standby, esperando um click para funcionarem. Eric Lively e Erica Durance, o casal deste filme, são postos em situações extremamente artificiais e nem o possível talento que eles têm embutido se sobressaiu ao script. Durance até se esforça para fazer de Julie um personagem carismático, mas não consegue. Carisma este que foi a principal chave para o sucesso de "Efeito 1". Além de Kutcher ser um bom nome no mercado cinematográfico, o resto do elenco, principalmente o infantil, chamou mais a atenção. Já em "Efeito 2", temos atores desconhecidos que parecem ter sido escolhidos da lista de figurantes. Ah, e Leonetti também não consegue criar uma trilha sonora que entre em harmonia, servindo apenas como plano de fundo para as ações e sendo ignorada pelo público. Definitivamente amador.
Uma ofensa para o primeiro longa e não consigo aceitar como podem construir uma continuação tão descartável onde nada se aproveita. Praticamente tomando um caráter desesperador de cumprir uma essência já vista anteriormente, acaba impondo seus atos e caindo em todos os clichês possíveis, não apresentando naturalidade nenhuma e inclusive apelando para fatos preparados que forçam a quem assiste aceitar que aquilo ali realmente aconteceu, quando, na verdade, poderia ter sido retirado. E como se não bastasse, o final tenta sensibilizar o espectador, mas o que não sabiam é que, apelando para tal desfecho, conseguiram ridicularizar mais do que criar um sentimentalismo entre os personagens. Daí vocês devem pensar: "então se nada no filme funciona, por que tu ainda dá nota 1 na cotação?". Resposta fácil: fiquei penalizado com tudo o que escrevi, e quero mostrar que nem odiei tanto, então, uma estrelinha é a forma mais significativa que tenho de demonstrar solidariedade.
