Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 16 de abril de 2006

Thesis – Morte Ao Vivo

A estréia do diretor Alejandro Amenábar é arriscada porém bem trilhada e muito bem feita. O suspense que leva o nome dele na direção e no roteiro é uma história intrigante, que com um orçamento hollywoodiano poderia se tornar assustador.

A violência nos filmes é um tema que volta e meia estudiosos da comunicação retornam a pincelar entre palestras encontros e fóruns. Tudo teoria, mas quase nenhuma prática tem sido feito para diminuir ou impedir.

É preocupada com essa violência que a estudande Ángela Márquez resolve criar sua tese (ou monografia como conhecemos no Brasil) para a conclusão do curso de comunicação. Pedindo a ajuda de um professor para conseguir imagens realmente violentas ela o descobre morto no dia seguinte em uma sala de vídeo, após um ataque de asma, enquanto assistia ao vídeo. O que poderia ter de tão assustador naquela fita que foi capaz de matar uma pessoa? Sem pensar duas vezes ela pega a fita, e analisando com o colega de classe, descobre que a fita é a gravação da morte de uma garota da faculdade. A partir daí os dois começam a pesquisar quem poderia ter assassinado a garota e acabam descobrindo uma rede de filme “Snuff” (termo conhecido nos EUA como filmes em que em frente as câmeras uma pessoa é assassinada – um exemplo desses filmes aqui no Brasil é a franquia Faces da Morte) .

O filme possui algumas falhas no roteiro, como mesmo sendo anotações sobre a monografia, ela teria que ter definido um programa especifico e uma data especifica para analisar as imagens de violência e não pegar na doida qualquer imagem (elemento que na metade do filme outro personagem até comenta quando tenta derrubar a monografia dela com argumentos). Da mesma forma o filme possui um tema muito interessante que pode levantar questões seríssimas sobre a violência no cinema, mas ao invés prefere seguir o estilo terror e quando termina não há realmente uma discussão ou mesmo uma semente que seja germinada na cabeça do espectador sobre o tema.

Mas ei, é apenas um filme de suspense e como tal ele funciona muito bem, com cenas realmente enervantes como a cena em que Angela e Chema se encontram em um corredor trancados e de repente se apagam as luzes, somente para assistirmos os próximos 5 minutos através da iluminação provinda de palitos de fósforos.

Para sua primeira película, Amenábar mostra-se seguro, com planos e seqüências sem espaços para dúvidas e incertezas nas cenas. Você vê que o que é necessário para o filme está todo centrado no plano em que o diretor usa e nenhum plano é desperdiçado.

Claro que o filme (que já se encontra para alugar nas locadoras) não vai agradar a muitos, primeiro pela língua. O DVD só possui o som original em espanhol com legendas em português, e para quem não é acostumado com espanhol, pode ser que o áudio destoe um pouco ao ouvir. Outro fator é a linguagem, que mesmo muito próxima a americana há suas particularidades (vide o plano que ele faz do carro quando Angela chega à casa de Bosco, próximo ao fim do filme).

Devo admitir que estranho esse filme ainda não ter sido adaptado para uma versão Tio Sam, com tantas adaptações de terror do japonês para o americano (algumas adaptações são horríveis). Mas é um bom filme que se for transformado para uma versão americana com certeza irá atrair muita gente aos cinemas.

Leonardo Heffer
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