Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 14 de março de 2008

Ponto de Vista

“Ponto de Vista” apresenta uma idéia interessante e criativa além de um ótimo elenco. Porém, as situações exageradas e repetições ficam cansativas e perdem a graça, tornando-o apenas mais um filme para assustar as pessoas e lembrar-nos da absurda situação atual do mundo em que vivemos.

Aparentemente, os americanos voltaram a achar divertido fazer filmes sobre ataques terroristas. Ano passado já tivemos alguns como “Leões e Cordeiros” e “O Suspeito”. O primeiro do tipo esse ano é “Ponto de Vista”, que claramente se aproveita da tensão gerada pelo 11 de setembro e pelos ataques de 2004 em Madri para tentar envolver o público, mas evitando apresentar questões políticas como os outros.

Estamos na Plaza Mayor, na cidade de Salamanca, na Espanha, esperando a chegada do presidente Ashton (William Hurt), dos Estados Unidos, para um encontro de líderes na luta contra o terrorismo. Seus seguranças, Kent Taylor (Matthew Fox) e Thomas Barnes (Dennis Quaid), estão atentos procurando qualquer atitude suspeita na multidão que enche a praça. Barnes se encontra excepcionalmente nervoso e vulnerável, já que esta é sua primeira missão desde que foi baleado para salvar a vida do presidente há menos de um ano. Dentro de uma van nas proximidades da praça está Rex Brooks (Sigourney Weaver), uma chefe durona liderando sua equipe jornalística de uma emissora de TV americana. A história começa sendo mostrada pelo ponto de vista dela.

Após um discurso do prefeito da cidade, o presidente Ashton sobe ao palanque para fazer seu próprio discurso quando, de repente, leva dois tiros que vieram da direção de um edifício que, supostamente, estava vazio. Após mais alguns sustos e explosões, Barnes entra na van da emissora para tentar achar alguma pista nas fitas que acabaram de ser gravadas, até que ele vê alguma coisa (que nós não vemos), faz uma cara ‘Oh my God!’ e sai correndo sem ninguém entender nada. Então, quando estamos super envolvidos e loucos para descobrir o que ele viu e para onde está indo… STOP, REWIND, PLAY! E sim, o filme volta 23 minutos atrás para o mesmo ponto de onde começou, mas, dessa vez, pelo ponto de vista de Barnes. E assim sucessivamente.

A cada ponto de vista, vemos novas pistas sobre quem é o possível assassino. Após Barnes, vemos a história a partir de Enrique (Eduardo Noriega), um policial espanhol, e Howard Lewis (Forest Whitaker), um simpático turista americano que está passando por uma crise no casamento e decidiu ir à Espanha para gravar tudo e levar um vídeo divertido para seus filhos, culminando nos pontos de vista do próprio presidente e dos bandidos.

Os mesmos 23 minutos vistos seis vezes, em seqüência. Quando a fita começa a voltar pela quarta vez fica difícil não rir. A semelhança entre as seis seqüências? Todas terminam com alguém descobrindo alguma coisa (novamente a cara “Oh my God!”) e nos deixando na expectativa. O problema é que na terceira vez que eles fazem isso você já perdeu o interesse e quer mais é que o presidente morra mesmo e que os bandidos explodam tudo para o filme terminar logo, mesmo que seja por falta de elenco.

Não é que “Ponto de Vista” seja ruim. A idéia é muito boa, mesmo que não seja 100% original, já que o conceito é muito próximo ao de “Rashômon” (clássico japonês da década de 50 que conta a história de um assassinato pelo ponto de vista do assassino, do homem que foi assassinado – através de uma médium – e da mulher dele). As cenas de ação são muito bem feitas, em especial uma perseguição de carros que acontece em Salamanca (ou melhor, na Cidade do México, já que, obviamente, não foi possível fechar um ponto turístico tão movimentado como a Plaza Mayor por três meses para que o filme fosse rodado lá e a produção teve que construir uma réplica da praça, em menor escala, em outro local).

O elenco também merece créditos. Dennis Quaid (“O Dia Depois de Amanhã”) é o que mais se destaca, não só por combinar com esse tipo de papel, mas também por ser a única personagem com características e um passado mais aprofundado, permitindo que ele trabalhe com isso e crie uma pessoa mais ‘real’. Sigourney Weaver (“Confidencial”) também está ótima, mas desaparece do filme muito cedo. Uma pena.

Forest Whitaker (“O Último Rei da Escócia”) é outro desperdício. Vencedor do Oscar de Melhor Ator no ano passado, não é novidade que Whitaker é um excelente ator, porém a personagem dele é tão rasa e mal trabalhada que se torna impossível para qualquer grande ator ter um bom desempenho e conseguir torná-la crível. Matthew Fox, que ficou conhecido por viver Jack Shephard na popular série “Lost”, parece estar, desculpem o trocadilho, um pouco perdido. Ele se esforça, mas não convence. William Hurt (“Instinto Secreto”) ajuda a reforçar o poder do elenco trazendo uma ‘aura’ para o filme que só um grande ator poderia trazer.

“Ponto de Vista” tem um conceito interessante e, apesar de ter trechos bem cansativos, consegue prender a atenção no começo e, depois, novamente no final quando vemos o desfecho da história. O problema é que ele se torna muito forçado, com situações que jamais aconteceriam se eles não estivessem em uma produção Hollywoodiana, além de deixar muitas idéias soltas no ar, perguntas não respondidas e motivações indefinidas.

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