A trama de "Gamer" é ambientada em um futurístico jogo chamado Slayers, no qual prisioneiros condenados à morte são controlados por jogadores após uma alteração celular que conecta o jogador real com o virtual. Kable (Gerard Butler) está a quatro vitórias para alcançar sua liberdade, fruto do talento do nerd Simon (Logan Lerman), que controla as ações do protagonista. A cada batalha travada, existem chances reais de Kable sair ferido ou morrer, afinal, segundo o criador do game, Ken Castle (Michael C. Hall), eles já estão no corredor da morte mesmo. Para a sociedade, Kable é um verdadeiro herói e, à medida que se aproxima do fim da aventura, ele se vê ameaçado por um sistema corrupto e, literalmente, manipulador. Como se não bastasse, sua esposa e filha também estão em perigo e ele precisa ter foco para conseguir salvar a si e a elas.
Os parceiros de roteiro e direção Mark Neveldine e Brian Taylor, responsáveis por "Adrenalina", não querem revolucionar a história da ficção científica ou dos filmes de ação, nem mesmo se tornar um "Matrix". Isso não exclui a possibilidade de criar uma trama inteligente cujas perspectivas vão se renovando de acordo com o andamento dos fatos, jamais deixando o ritmo e o interesse pelo filme diminuir. Logo no início, os realizadores incluem uma cena de batalha que traz a familiaridade dos jogos em primeira pessoa, criando nesta sequência um visual gamer, desde o desenho de produção, aos ângulos, fotografia e direção de arte. "Gamer" não é baseado em um jogo, mas seu visual é muito mais rico do que outros tantos games que foram levados ao cinema com pouco apuro técnico. Como se não bastasse, a ótima versão de "Sweet Dreams" cantada por Marilyn Manson engrandece e promete que um bom filme está por vir.
Aos poucos, as informações sobre o sistema de controle que Kable e os outros detentos vivem são reveladas, mas sem nunca serem subestimadas. Ora, a partir do momento em que a lógica para tudo está em uma modificação celular no cérebro, podemos pressupor como o terceiro ato pode se desenrolar, visto que a questão de emoção e manipulação é sempre posta em debate. De qualquer forma, tais informações são vitais para que a trama, que é comum, não seja desinteressante. Para isso, Neveldine e Taylor se inspiram em tudo que trazem na bagagem para seus filmes, bem como uma visão do que a tecnologia pode alcançar um dia. Assim, o filme pega uma boa história e mescla com a duas mentes criativas, além de uma equipe técnica que realiza com perfeição praticamente todos os aspectos fílmicos.
O roteiro de Neveldine e Taylor se dá ao luxo, também, de investir em momentos cômicos e até constrangedores, sem esconder que foi proposital. Tais sequências acabam acrescentando ao filme um teor lúdico que é sempre bem vindo. Se a história se propõe a contar como um homem apaixonado pela família tenta sobreviver sendo parte de um sistema ambicioso, ela também traz elementos que se complementam e geram discussão, sendo a manipulação o principal, que pode ser associada à sociedade, crenças, etc., que foram e sempre serão presentes na vida das pessoas. A questão da alienação também é um ponto forte na trama, principalmente ao criar um paralelo entre o controlador de Kable e o de sua esposa, um jovem obeso. Um é viciado no jogo Slayers e o outro em Society City, uma espécie de The Sims mais sensual. Apesar da aparente situação financeira diferente deles, ambos passam horas à frente da tela e têm seus respectivos danos devido a esse excesso.
Outro ponto que deve ser discutido é até onde a tecnologia pode ter êxito, já que o próprio filme mostra que a cada minuto novas alternativas e sistemas estão sendo criados, superando uns aos outros, como em um jogo infinito e com objetivos questionáveis. No ato final, Kable também mostra que a os processos de alteração genética podem ser falhos, diminuindo a tensão da narrativa, mas não perdendo de vista seu ideal. Se existe uma falha grave no roteiro não se dá por suas vertentes utilizadas e seu estilo cool, mas por não deixar claro, por exemplo, a função do Society City e investir apenas nos objetivos do Slayers, ou de onde o protagonista Kable tem tantas habilidades de luta, até mesmo quando não está sendo controlado.
Gerard Butler se afasta do protagonista que provoca empatia imediata no público e está lá para atirar, vomitar em tanques de gasolina, pular em frente às explosões e salvar a mocinha. Butler carrega a trama e cria um contraponto interessante com o desempenho de Michael C. Hall na pele de Ken Castle, um nerd meio maluco e frio. O restante do elenco tem suas funções bem realizadas, porém nenhum deles é fortemente trabalhado pela narrativa, sendo até inútil quando Angie, personagem de Amber Valleta, tenta conseguir a guarda da filha de volta.
"Gamer" traz uma experiência nada inovadora, mas conta com uma trama charmosa e um belo visual. O longa pode não agradar a todos os tipos de público, mas ainda assim é excitante e fica registrado como um dos melhores filmes de ação e ficção científica dos últimos anos.



























1 Comentário
Parabéns, Diego!
Ótima crítica! Fazia muito tempo que não ia ao Cinema, mas neste fim de ano, apareceram muitos títulos que me chamaram atenção. O primeiro deles foi “Gamer”.
Gostei muito do filme, achei muito legais as referências aos jogos e também a filmes como Blade Runner, já que gosto muito dessa temática cyberpunk. Achei que o filme tem uma carga de informação muito grande e frenética. E traz uma grande crítica à Socidade atual.
Só discordo um pouco quanto ao filme não trazer uma experiência inovadora, apesar de não ser uma coisa inédita, da forma que fizeram ficou muito legal, adicionando referências das tecnologias que temos atualmente.
Um grande abraço!