Avaliação: 9

Primeiramente é possível definir a saga com uma gritante divisão de duas quadrilogias, que basicamente são um termômetro para o êxito dos seus produtos. Enquanto Chris Columbus lá nos dois primeiros filmes inseriu um mundo mágico, cheio de aventura, diversão, magia e monstros, ele, apesar de iniciar algo de grandes proporções e de algumas qualidades, restringiu seus filmes para um público definido por sua faixa etária.

Depois a série caiu nas mãos de Alfonso Cuarón, que começou uma “revolução”, ainda que desnivelada, na série. Talvez o filme seja tão importante por justamente dar o pontapé inicial para os atuais rumos. Daí o diretor Mike Newell conseguiu, no filme sucessor, conciliar um clima mais maduro com o espírito da série proposto por Columbus lá no início. Entretanto, nos minutos finais do longa “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, Newell mostrou finalmente o grandioso vilão da série, vivido maravilhosamente por Ralph Fiennes. A partir desse exato momento, houve uma ruptura nos parâmetros da série. Desde então, o mundo de Harry Potter parece cada vez mais atraente.

Na segunda quadrilogia da série, iniciada e dada procedência pelas competentíssimas mãos de David Yates, o universo do famoso bruxo tomou bravos rumos. Com uma fotografia absurdamente sombria, um clima tenso e um filme um tanto sensorial, Yates conquistou moral suficiente para conduzir todo o resto da série, para a felicidade de todos ou quase todos. Yates quis mostrar o peso que a palavra “Bruxo” efetivamente tem, brincando com o imaginário social ao desconstruir o ambiente um tanto romântico da série e nos conduzindo a um patamar muito mais sombrio.

Neste sexto filme, a história dá procedimento ao acompanhar Harry Potter a mais um ano na escola de Hogwarts. Após começar exatamente no término do quinto ano da história, vemos a crescente dúvida da possível volta do grande vilão Lord Voldemort, até que finalmente os Comensais da Morte começam a dar visíveis sinais de sua existência e atacam não somente o mundo dos bruxos como o mundo dos trouxas (em uma incrível sequência de abertura), e começam a causar o pânico e o caos em ambos os contextos.

Visando a segurança de todos, Dumbledore começa a usar de artifícios para proteger a escola e seus alunos, estando à procura de tudo que pode estar ligado ao Lorde das Trevas. Isso o leva a recrutar o bruxo e professor Horácio Slughorn para fazer parte do corpo docente da escola, visando, entretanto, que Harry possa descobrir valiosas informações que ele pode deter sobre Voldemort. Paralelo a isso, Draco Malfoy, personagem um tanto quanto ignorado nos últimos filmes da série, volta com fundamental importância, uma vez que compactuou com os planos de Voldemort e está disposto a ajudá-lo.

Daniel Radcliffe, peça fundamental para o parcial insucesso da série, tem sua inexpressividade falta de carisma devidamente balanceados e supridos, graças a efetiva direção de atores de Yates. Emma Watson, o grande trunfo do trio principal, tem suas qualidades inalteradas e ainda é quem rouba as cenas na qual está inclusa. Rupert Grint reprisa novamente um Ron Weasley bobão, mas demonstra talento. Helena Bonham Carter encarnando a perversa Bellatrix Lastrange, grande figura surgida no quinto filme, ainda detém toda a atenção dos espectadores quando está em tela e o maior pecado do filme foi não utilizá-la excessivamente.

Bonham Carter, guardadas as devidas proporções, é com o Coringa de "Batman – O Cavaleiro das Trevas": o coadjuvante que tem cenas contadas no filme, mas que uma única gargalhada que ela der já é o motivo de avivar a atenção dos espectadores. Por sinal, o grande clímax do filme é justamente a cena em que Belatriz sai por Hogwarts espalhando o terror e a destruição, cena essa que precisava ser mais estendida. Já Ralph Fiennes não participa de uma cena sequer, o que é um tanto decepcionante. Tom Felton, que encarna o jovem Malfoy, retorna após o seu quase esquecimento, mas não tem talento de sobra. Ele não compromete as cenas que faz, porém não consegue dar a elas o ápice emocional necessário.

Falando em ápice, está aí o grande defeito do filme. O longa sofre de uma constante eminência de um clímax, que não chega quase nunca. Devido a sua longa duração e desse ritmo levemente inconstante e com clímax retardado, o grande momento do filme não tem a força que deveria. Se não fosse mais uma vez pela competência de Bonham Carter, pela direção e pela magnífica fotografia, seria bastante decepcionante. No longa anterior, quando Yates optou por um áudio que não apresentava a voz dos atores e valorizava uma trilha sonora melancólica e singela, teve um pouco mais de impacto que aqui.

O roteiro trabalhado por Steve Kloves é de grande competência. Ao mesmo tempo que ele trabalha com questões do universo de J.K. Rowling, o drama, o romance e o humor conseguem ser atrelados ao texto, e tudo com uma harmonia eficiente. David Yates, que tem grande apuro técnico, dá vida ao texto de Kloves de maneira tão formidável, que o mundo de Harry torna-se cada vez mais crível. O diretor tem enquadramentos interessantes, além de conseguir criar sequências fortes e de grande impacto, contando com uma equipe técnica competentíssima.

A fotografia do longa, aspecto que poderia render inúmeras observações, está ainda mais bela aqui. Ela é a grande responsável por criar um clima interessante, sempre sombria, tendendo para o azul e para o cinza – assim como no outro longa -, mas explorando indescritivelmente as paisagens do filme e das locações, que nunca pareceram tão belas. Esse novo filme de Harry tem uma das coisas que eu mais gosto em filmes grandes: ostentar sua própria grandeza. Ela sabe o valor e a proporção que tem, e demonstra isso.

Em outro momento, tinha observado que a franquia de Harry Potter nunca conseguiu emplacar com uma grande trilha sonora. Era exatamente um dos pontos que vinha faltando nos quatro primeiros longas. Do quinto filme para cá, a trilha sonora foi ganhando destaque, e aqui consegue ser realmente algo digno de comentários positivos. Além da canção-tema que se tornou famosíssima por sonorizar as sempre interessantes aberturas dos filmes da série, a trilha vem com um toque mais forte, mais pesado e que consegue descrever devidamente as emoções das cenas.

Os filmes de Harry Potter vem deixando de ser feitos para fãs e passando a agradar também espectadores adversos. Contudo, a franquia veio evoluindo juntamente com seu público e apresenta produtos sempre aprimorados com relação ao antecessor. Mas apesar de tudo, a franquia ainda não alcançou até aqui seu ápice. Entretanto, se permanecer nessa constante evolução, a série em breve conseguirá construir sua obra prima; possibilidade que se fez real ao passar do tempo, diante de toda a equipe envolvida na produção. Esses sim, os verdadeiros mágicos.