Não é segredo para ninguém que eu odeio “Crepúsculo”. Sou fã de histórias de vampiros, por isso senti que alguém tinha enfiado uma estaca no meu peito a cada subversão do mito dos sugadores de sangue que aparecia naquele abacaxi cinematográfico. Pela semelhança de tema entre os dois filmes, já comecei a assistir a este “Deixa Ela Entrar” com os dois pés atrás.
Ao contrário da rotina adotada pela já citada bomba e pela ótima série “True Blood”, aqui temos um menino de 12 anos se apaixonando por uma vampira que também tem a mesma idade, mas há bem mais tempo do que ele imagina. A fita é baseada no livro homônimo de John Ajvide Lindqvist (publicado originalmente em 2004, aliás), com o próprio escritor assinando o roteiro da produção.
A história é centrada em Oskar (Kåre Hedebrant), um solitário e tímido garoto que é atormentado por seus colegas de classe. Certa noite, ele vê um homem e uma garota se mudando para o apartamento ao lado. A menina, de nome Eli (Lina Leandersson), é tão reclusa quanto ele e, em meio a curtos diálogos travados no frio playground do condomínio, nasce uma amizade entre os dois, uma relação que mudará seus destinos para sempre. Enquanto isso, estranhas mortes passam a ocorrer na localidade onde eles vivem, colocando um morador local no encalço dos responsáveis.
Desde seu início, “Deixa Ela Entrar” já mostra que, apesar de ter elementos mais açucarados em seu roteiro, estes nunca irão sobrepujar o plot geral, mais voltado para o suspense. Cenas de violência não são raras, sempre com sangue abundante e uma violência em nível considerável. Os ataques que ocorrem são brutais e não esperem o típico “politicamente correto” dos longas hollywoodianos.
Interessante notar que, logo após sugar o sangue ser consumido, o protocolo vampiresco da trama dita que o pescoço da vítima deve ser quebrado para evitar o surgimento de mais um ser imortal. Não se trata o vampirismo com glamour, mas como uma doença. No filme, se mostra que a existência como um desses seres imortais é extremamente dolorida e solitária, uma verdadeira maldição.
Não esperem vampiros brilhando feito purpurina sob a luz do sol, com as fraquezas dessas criaturas lendárias sendo tratadas de um modo extremamente respeitoso. A ambientação da história em uma cidade sueca branca e gélida é bem aproveitada pela belíssima direção de fotografia, dando um toque desolador à fita, que chega a lembrar o ótimo visual de “30 Dias de Noite” por algumas vezes. Em ambientes externos, há uma sensação de insignificância em relação ao todo. Já entre quatro paredes, a claustrofobia impera.
O diretor Tomas Alfredson possui um olho afiado para tomadas esteticamente belas. Cenas como a queda de um corpo, o ataque sob a ponte ou o efeito de uma “entrada forçada” são plasticamente lindas e extremamente relevantes do ponto de vista narrativo, sendo para mostrar algum contraste entre os personagens ou expressar o sentimento destes de uma maneira mais visual.
Se adequando às suas restrições orçamentárias, vemos uma predileção por parte dele por efeitos práticos e pelo trabalho de maquiagem, ambos bastante efetivos e funcionando lindamente em conjunto com a cinematografia. Também trabalhando como montador do filme, Alfredson equilibra as cenas de desenvolvimento de personagens com as mais “gore”, alcançando um ritmo perfeito para a película.
Mas o que torna “Deixa Ela Entrar” único é a dinâmica entre seus protagonistas. O oprimido Oskar sonha com vingança contra aqueles que tornam seu dia-a-dia um inferno, mas sua moral impede o contra-ataque. Eli está acostumada a fazer o que for necessário para sobreviver. A ternura dele e o instinto agressivo dela acabam interagindo, fazendo-os assimilar novos comportamentos, exatamente como acontece com adolescentes comuns, cujas interações com outros jovens os moldam.
A despeito de estarem inseridos em um universo “fantástico”, os personagens agem como se fossem reais, não meras caricaturas de jovens como o público está acostumado a ver. Enquanto Oskar tem seu problema com “bullies”, Eli tem de enfrentar sua fome e ambos tem de lidar com esse sentimento chamado amor que floresce nos dois, que começam a perceber que se complementam.
Não fossem as fortes interpretações de Kåre Hedebrant e Lina Leandersson, muito disso se perderia. Hedebrant lida habilmente com o isolamento e a humilhação passados diariamente por Oskar, expressando o contínuo desespero do garoto desde o primeiro momento em que o vemos. Já Leandersson possui uma tarefa extremamente complicada, pois tem de transmitir ao público algo extremamente irreal, que é o desespero causado por sua incontrolável sede de sangue, algo salientado por uma belíssima cena entre os dois protagonistas.
Os jovens atores possuem uma química incrível, que torna até possível relevar o único grande problema do roteiro, que é a batida cena na qual Eli diz que não pode ser amiga de Oskar. Tal diálogo, que também existe em “Crepúsculo”, é um problema já que o filme se desenvolve justamente com a amizade dos dois que sabemos que vai acontecer. Mas, em meio a tantos acertos, este escorrego acaba sendo um mero detalhe.
Trabalhando a alegoria da adolescência com bem mais sensibilidade e preparo do que a franquia criada por Stephenie Meyer, “Deixa Ela Entrar” dá o seu recado sem esquecer de respeitar os dogmas dos bons filmes de vampiro. Esta pequena grande história merece ser conhecida pelo público antes de se tornar mera “inspiração” para uma obra de terceira (como se já não o fosse).



























22 Comentários
Esse filme é sensacional!
Vi ele em 2008 e desde lá aconselho todos meus amigos à assistirem.
Também sou do clube que odeia vampiros que brilham!!AHahaha…
Ótima crítica, faltou apenas falar da cena da piscina no final que para mim é a melhor do filme e uma das melhores cenas que eu já assiti.
Filme ótimo com um final surpreendente!
Excelente crítica Siqueira, vi esse filme por insistência da minha namorada e não poderia ter me surpreendido mais. Um filme de fato, muito bom e com acerta com precisão. Pelo menos pra mim, já é um clássico. Não se parece com nada que vemos hoje…
Confesso que não conhecia esta produção parece ser bom o filme Deixe Ela Entrar, mas não me lembro de ver anunciar nem nada.
De qualquer forma a review do file esta sensacional.
Eu demorei muito tempo pra ver esse filme, o melhor filme de vampiros que eu ja vi!
Realmente,nunca tinha nem ouvido falar nesse filme!
Infelizmente é o que acontece com alguns filmes “menos mainstream”,que acabam por passar despercebidos,quando na verdade,merecem o destaque de um filme “ultra – mainstream”
Assistirei o mais rápido possível!
Sem sombra de duvida um dos melhores filmes que já assisti. Maravilhoso em cada detalhe, desde a atuacão até os efeitos sonoros. Sensacional!!! Inclusive já tratei de comprar o livro.
Depois dessa critica…axo q tirou minha duvida…terei q assistir a esse filme..
tbm odeio akele negocio chato q chamam de filme: Crepusculo……..
masssssss…
excelente!!!Concordo totalmente… crepusculo acabou com tudo que Bram Stoker resgatou da sombria cultura vampiresca. E o pior é o publico se conformar e continuar dando corda para esse tipo de agua com açucar…
O filme Garota Infernal eu acho, é uam droga também, acho que esse ai é o que vai salvar esse estilo. Muitos estão falando muito bem do mesmo…
Filme quase irretocável. Um dos melhores de vampiro que já vi.
Só mudaria uma coisinha. Ou melhor, duas.
Na cena que a mulher é atacada por gatos, eles usaram CG’s bem ruins e por muito tempo, como se estivessem deslumbrados com a própria capacidade de fazê-los. Ficaria melhor apenas uns dois gatos, o resto era sugestão.
O segundo defeitinho é vaidade minha. Ia ser um tremendo clichê, mas na hora que o grandalhão ia enfiar a cabeça do Oskar na piscina, ele DEVERIA ter dito: “Eli, pode entrar”.
O filme acabava ali AUIHEHAE
Botava a cena do trem depois do nome do diretor, e pronto, a obra-prima tava completa!
uahuhuhauhua `Eli Pode Entrar` foi otimo. Na minha opinião o filme é intocável. O grande problema é que deixa um insáciavel gosto de quero mais.
Este sim é um dos melhores filmes ‘vampirescos’ que já vi.E excelente crítica, Siqueira.
Ainda não vi o filme, mas gostei da crítica do Siqueira. Com certeza deve fazer justiça á ideia do relacionamento de dois jovens, um humano e outro vampiro.
nossa parabens pela sua critica,como fiquei fã desse filme estou lendo varias criticasem outros blogs e posso falar que a sua até agora é a melhor ! voce tocou em um assunto interessante,o respeito do diretor com os classicos,ja que ele coloca toda a mitologia vanpiresca no filme.o grande problema de crepusculo e lua nova é que na vontade de fazer um produto original e novo eles acabam tratando os vampiros quase como os xmens,pessoas lindas com poderes,fica dificil quem assisti esses filmes não querer virar um vampiro tamben.ja em deixe ela entrar a vampira é uma pessoa doente,que sofre de verdade,mas nem assim o filme soa datado ou antigo,pelo contrario,é até mais revolucionario que crepusculo e lua nova !
Otima critica ! Esse filme é fantastico , lembro-me de quando criança onde assistia Estrevista com o Vampiro , Dracula de Bram Stoker e tal , são filmes de vampiros excelentes mesmos e eu fico muito decepcionado com essa palhaçada de hoje em dia dessa saga crepusculo , uma coisa tão comercial que so uma pessoa sem senso de nada poderia gostar disso , a escritora conseguiu acabar com a lenda dos vampiros e devido a isso essa geração nunca poderá desfrutar dos filmes bons de verdade !
Este filme é um soco no estomago, pra quem achava que era mais um CREPÚSCULO da vida, e espero que a refilmagem faça jus ao original sueco, pois os pontos à favor : tem a atriz mirim do filme KICK ASS, o diretor-protegido do JJ. ABRANS e a produção da companhia do ator e diretor MEL GIBSON, precisa dizer mais.
Até que enfim um filme sobre vampiros que vale a pena assistir. Excelente filme, perfeito! Eu não sei como ainda conseguem citar Crepúsculo por aqui. Aquilo é o maior lixo cinematográfico!!!
Melhor filme de vampiro que ja vi.
Você citou a cena mais clichê “eu nao posso ser seu amigo” mas o engraçado que essa cena passa extremamente batida num filme tão bem feito quanto esse.
Não esperem filme de ação, o ritmo é bem lento, o diretor manda muito bem nas cenas que você citou.
Impossivel não comparar com “Crepusculo” mas a historia consegue se assemelhar e ser totalmente oposta ao mesmo tempo, talvez pela boa construção do roteiro.
Na franquia conhecida a garota se apaixona em 2 tempos pelo cara e ja descobre de uma hora pra outra q ele é vampiro, em “Deixa ela entrar” não tudo isso demora a acontecer e o roteiro te explica muito bem a construção desse lindo relacionamento.
A atuação dos mirins dispensa comentarios, fenomenal.
Como os caros amigos já disseram, muito bom o filme e excelente crítica.
Só ñ gostei muito dos compartivos exagerados com a saga crepúsculo. Quem conhece vampiro sabe que aquela baboseira teen nao deveria ser comparada com nenhum filme vampiresco ‘de verdade’
No mais, perfeito! Otima escrita, citou pontos relevantes e tenho certeza que quem ainda ñ assistiu com certeza ficará curioso e irá concordar com cada palavra do seu texto
abraço!
UNICA critica, do siqueira SO FAR que eu concordo( apesar de saber por que concordei) mas apenas dois comentarios
o unico erro que ele comentou que o filme tem, não chega a ser um erro, pois esta no livro, pareceu apressado no filme, mas no livro se encaixa melhor
segundo ponto, nao diminuido o filme, que é excelente, porem preferi o remake americano, não por ter um orçamento melhor como muitos pensam, mas por contas de detalhes na DIREÇÃO de ambos, não gostei de certa cenas do diretor sueco, ele utilaza na minha concepção, cenas demoradas com no maximo duas cameras, diminuindo o dinanmismo do filme
gostaria de saber se o filme deixa ela entrar o original foi ou vai ser lançado em dvd,porque desde que foi lançado fiquei super curioso pra ver e ñ consegui encontrar! obrigado!