Avaliação: 7

Hora de uma verdade pura: adoro os filmes da antiga “Sessão da Tarde”. Não dessa que passa hoje antes de “Malhação”, mas daquela que exibia fitas violentas e/ou politicamente incorretas sem cortes, lá no começo dos anos 1990. Um dos clássicos dessa época é o divertidíssimo “Os Aventureiros do Bairro Proibido”, longa dirigido pelo cineasta cult John Carpenter, em mais uma de suas colaborações com o astro de ação Kurt Russell.

O filme mistura ação e fantasia na São Francisco dos anos oitenta. A história mostra Jack Burton (Russell), um caminhoneiro americano que, de passagem na cidade, acaba se envolvendo em uma trama bizarra em pleno bairro chinês. A noiva de seu amigo Wang (Dennis Dun) é sequestrada por uma gangue. Quando a dupla tenta resgatá-la, descobrem que estão se metendo com forças além de sua imaginação, comandadas pelo maligno feiticeiro fantasmagórico Lo Pan (James Hong), que quer, obviamente, dominar o mundo.

A situação se torna pessoal para Jack quando seu adorado caminhão é tomado pelos vilões. Com a ajuda de uma trupe que inclui a intrometida advogada Grace Law (Kim Cattrall) e Egg Shen (Victor Wong), um velho guia turístico que sabe bem mais sobre magia do que parece, Jack e Wang vão enfrentar guerreiros com poderes elétricos, bandidos comuns e muitos outros desafios, antes de salvarem suas peles, derrubarem os vilões e salvarem as mocinhas (e ao caminhão).

O caráter kitsch do filme se revela desde o título original do filme, “Um Problemão na Pequena China”. O diretor John Carpenter não conhecido por acrescentar profundidade ou grandes dramas aos seus filmes, mas sim por imprimir o máximo de diversão que pode em produções com o seu selo de “qualidade”. Algumas sequências parecem um pouco estranhas, como os capangas do vilão realizando proezas de artes marciais frente às mocinhas hipnotizadas, mas tais cenas evidenciam que o cineasta prioriza o entretenimento do público e não as normas cinematográficas mais tradicionais.

Seu método de filmagem pode ser pouco ortodoxo, principalmente em cenas de ação mais movimentadas, com o clímax do filme sendo um exemplo claro disso, e os efeitos especiais de seus longas não são lá um primor – mesmo para a época -, mas Carpenter conseguiu transformar o bizarríssimo roteiro de Gary Goldman e David Z. Weinstein em 99 minutos de pura diversão.

Além disso, a direção de arte da fita conta com cenários e objetos de cena altamente esquisitos, com alguns deles bastante mal feitos, ajudam o público a esquecer das falhas dos efeitos especiais, das criaturas e das maquiagens toscamente feitas. Ou seja, o ambiente é tão tosco, que acaba se tornando parte da diversão. Os figurinos se destacam positivamente, sendo bastante elaborados e casando bem com a atmosfera exagerada da produção e até motivo de chacota por parte do protagonista em determinada cena.

O ótimo trabalho do elenco, que transforma aquelas figuras altamente caricaturais criados pelo script em personagens extremamente carismáticos, é um dos elementos que faz o filme funcionar até hoje. O grande astro do cast certamente é Kurt Russell, fantástico como Jack Burton. Além de ser um ator de ação de primeira, graças às suas habilidades físicas (na época em seu auge), ele ainda revela na fita um talento cômico nato.

Russell transformou Burton em um ícone dos anos 1980, graças a seu jeito canastrão, extremamente confiante e arrogante, típico de heróis americanos daquele período. Soltando frases de efeito como se fosse uma metralhadora, o jeitão altamente relaxado trazido pelo musculoso intérprete imortalizou diversas falas de Jack, tais como “Sabe o que Jack Burton diz em uma situação como essa? ‘Qual é a parada?'” ou “Se a gente não voltar em três horas… chame o presidente!”, sem contar a clássica cena com envolvendo a arma e o teto. Além disso, a personalidade de machão cético do herói contrastam com a atmosfera pseudo-mística da fita, dando um ar extremamente irônico ao personagem.

Fazendo par romântico com Kurt Russell está Kim Cattrall, muito antes de calçar os sapatos caros de Samantha em “Sex and the City”. Exibindo um ar de confiança e sensualidade, a atriz faz de sua Grace Law o contraponto feminino perfeito para Jack Burton, sem contar que a química entre ela e Russell é ótima, mostrando que os dois estão realmente se divertindo durante as suas cenas, algo fundamental para o público embarcar no típico romance “entre tapas e beijos”.

Seguindo a tradição dos filmes que tem chineses como vilões caricatos, James Hong exagera na caracterização de seu Lo Pan, algo mais do que adequado para um filme assumidamente trash como este. O veteraníssimo ator, ainda hoje na ativa, criou um antagonista totalmente maligno. Ora, do mesmo modo que os heróis de ação da época eram machões alfas, os inimigos destes tinham de ser totalmente malvados, em um maniqueísmo raro de ser visto hoje em dia, algo que Hong transmitiu muito bem.

Dennis Dun, em seu segundo papel no cinema, tem pouco a fazer no filme como Wang, tendo em vista que o papel do seu personagem é basicamente apresentar o bizarro universo chinês a Jack Burton, sendo o típico parceiro do herói. Por sua vez, o papel do mentor dos dois heróis, Egg Shen, é feito pelo já falecido Victor Wong, que encarna bem o papel do excêntrico sábio. Wong tem uma ótima cena com James Hong, em um confronto entre os místicos personagens dos dois.

“Os Aventureiros do Bairro Proibido” não entra em nenhum top 100 ou mesmo 1000 de grandes filmes. Seu roteiro é raso feito um pires e cheio de clichês, a produção possui diversas falhas técnicas, efeitos especiais toscos e a pior música-tema já composta na história do cinema. Mas ainda é um dos longas mais divertidos já feitos, contando ainda com uma das melhores cenas de morte de vilão de todos os tempos! Recomendado.