Avaliação: 2

Há um antigo ditado que diz que a felicidade de piada velha é que vive nascendo gente nova. Pois bem, nem mesmo a melhor das piadas antigas faz alguém rir quando mal contada. "Um Hotel Bom Pra Cachorro" faz um apanhado dos "melhores momentos" de alguns filmes infantis clássicos como "Os Goonies" e "Esqueceram de Mim", coloca vários clichês adolescentes e muitos cães bonitinhos para fazer uma salada mista em um filme-bomba.

A história do filme acompanha dois órfãos, Andy (Emma Roberts) e Bruce (Jake T. Austin), que aplicam pequenos golpes para alimentar seu cachorro Sexta-Feira. Vivendo com seus tutores Lois (Lisa Kudrow) e Carl (Kevin Dillon) – dois pseudo-roqueiros que não poderiam ligar menos para eles -, os únicos alentos dos jovens vêm na forma do cãozinho e do assistente social Bernie (Don Cheadle), sempre dedicado a livrar os garotos de encrenca e que há três anos tenta arrumar um bom lugar para eles.

Após Sexta-Feira quase virar sabão ao ser pego pela carrocinha, os dois tentam arrumar um lugar para ele e acabam encontrando, quase que por mágica, um hotel abandonado, habitado por dois outros cachorros. Decididos a alimentá-los e cuidar deles, os protagonistas contam com a ajuda de Dave (Johnny Simmons) e Heather (Kyla Pratt), dois jovens que trabalham em uma pet shop, e de Mark (Troy Gentile), um garoto que, bem, estava por perto, acha dejetos caninos legais e fica porque achou as meninas "maneiras". Enfim, o grupo começa a resgatar cães perdidos dos "terríveis" homens da carrocinha e acaba tendo uma verdadeira alcatéia nas mãos.

No meio da trama, obviamente que Andy e Dave vão se apaixonar, ela vai esconder algo dele e, misteriosamente, ganhar um vestido para uma festa. Bruce, que tomou umas aulas de engenharia com o Kevin de "Esqueceram de Mim", irá construir várias bugigangas para alimentar e entreter os amigos caninos, sempre alimentados por ração Pedigree, já que a companhia gentilmente cedeu sua marca para o filme por dinheiro em um merchandising que faria Daniel Filho se encher de orgulho.

Ah, enquanto isso, os dois irmãos brigarão com seus insuportáveis tutores, Bernie tentará ajudar as crianças e Mark fará de tudo para chamar a atenção de Heather. Sim, são muitos clichês mesmo. Porém, se a história tivesse um pingo de sentido em si mesma seria ótimo. Não precisava ser realista, só precisava ser coerente com a realidade mostrada no filme.

Ora, a preocupação em sigilo do grupo de jovens parece ser tão pequena que qualquer um que chegar por lá pode se oferecer pra ajudar – vide a cena na qual Mark se junta a eles. Andy não tem nenhuma reação a isso, mesmo sabendo que, se eles forem descobertos, poderá ser separada de seu irmão. Por falar na jovem, o relacionamento dela com Dave precisava de um obstáculo, portanto o roteiro a coloca mentindo para o rapaz sobre ser órfã por nenhum motivo aparente. E o que falar sobre o roteirismo de tudo dar errado ao mesmo tempo? Murphy escreveu essa parte do roteiro por acaso?

Aliás, se alguma coisa dessa fita se salva é o ótimo trabalho dos cães-atores, principalmente o que interpreta Sexta-Feira. Todos os vários cachorros que aparecem em cena são bonitinhos e sabem se portar, ao contrário de seus companheiros humanos, que parecem mais perdidos que cegos em tiroteio.

O elenco jovem não deixa nada a dever com o cast de "Malhação”, praticamente dizendo seus diálogos ao invés de interpretá-los. Destaco negativamente dois deles: Emma Roberts é bonitinha, mas precisa escolher projetos melhores se quiser provar que tem metade do talento de sua tia Julia Roberts, enquanto Troy Genitle não faz praticamente nada o filme todo, ficando longe da personalidade energética que exibiu em “Nacho Livre” e em “Meu Nome é Drillbit Taylor”.

Já os mais experientes atores da fita não estão muito melhores. O sempre elogiado e várias vezes premiado Don Cheadle parece estar com vergonha de atuar no filme – e com razão. A cena dele dizendo que é do Serviço Social é de dar pena. Ele devia estar até com o aluguel atrasado e a luz cortada pra participar deste mico.

Já Lisa Kudrow… bem, alguém tem de lembrar a ela que "Friends" acabou já faz tempo e ela pode parar de interpretar Phoebe o tempo todo – e uma versão pseudo-roqueira e com cabelo tingido da destrambelhada personagem é algo incrivelmente irritante de se ver. Por sua vez, Kevin Dillon passa em brancas nuvens. Bom, considerando que ele no filme sempre está ao lado de Kudrow, isso não é algo necessariamente ruim.

Se em alguns momentos parecer que se trata de um filme para a TV, não se preocupe. Além do diretor Thor Freudenthal ser praticamente novato no cinema, dois dos três roteiristas envolvidos no filme são basicamente escritores de desenhos televisivos da Disney. Se o texto estivesse no nível de um seriado animado qualquer estaria ótimo, mas com cenas como a fuga da carrocinha só dá pra sentir vergonha alheia desse espetáculo deprimente.

Por falar em Freudenthal, ele pode ser um péssimo diretor de atores e não ter lá muita noção de narrativa, mas até que tem senso estético, empregando algumas técnicas visualmente interessantes, principalmente quanto aos sentidos de Sexta-Feira. Já a trilha sonora não poderia ser mais genérica nem se tentasse. Por alguns momentos, pensei que estavam usando a trilha de "Esqueceram de Mim".

Obras como "Coraline e o Mundo Secreto", "Wall-E" e, em menor escala, "Bolt", provam que fitas infantis não precisam ser idiotas para agradarem aos pequenos, que adoram histórias bem contadas e que realmente façam com que os espectadores de todas as idades mergulhem de cabeça em um universo ficcional.

"Um Hotel Bom Pra Cachorro" faz com que seu público queira mais é sair correndo da sala. O filme seria até passável, se tivesse trinta segundos de duração e se assumisse como um comercial da Pedigree. Um bom conselho para os pais seria levar os pequenos à locadora e alugar "Os Goonies" para eles ou mesmo "A Incrível Jornada", caso a gurizada deseje realmente ver um longa sobre cães. Com certeza, os infantes iriam se divertir bem mais.