Avaliação: 7

Na trama, conhecemos Osbourne Cox (John Malkovich), um agente da CIA que é demitido por não passar mais confiança para seus superiores. Ao seu lado, a esposa Katie (Tilda Swinton) esconde um caso extraconjugal com Harry (George Clooney), que também é casado, mas nunca perde tempo em procurar por um rabo de saia para ter aventuras amorosas. Quando Cox começa a escrever suas memórias e as grava em um CD, o objeto vai parar no chão de uma academia e nas mãos de Linda (Frances McDormand) e Chad (Brad Pitt), dois estranhos que procuram se dar bem com o material. A vida de todos eles serve como base para a contação de uma história que tira sarro dos filmes de investigação e traz uma trama quase louca que quase chega a enfadar, porém sempre oferece mais ao espectador.

A primeira observação é que os Coen têm um estilo próprio ao elaborar seus argumentos. O trabalho anterior dos cineastas, "Onde os Fracos Não Têm Vez", venceu prêmios em todo o mundo, sendo desde sempre o favorito ao Oscar. Enquanto muitos questionam esse favoritismo até hoje, outros declaram amor à inteligência dos irmãos, sempre irreverentes. Em "Queime Depois de Ler", mais toques particulares são inseridos na trama, trazendo à tona inúmeras discussões que devem servir como leitura por cada espectador. Enquanto alguns sairão sem saber muito bem o que aconteceu ali, outros já encontrarão relações a serem estabelecidas, metalinguagem e qualquer coisa que seja. Aqui, você assiste ao filme e, ao terminar, as sensações podem ser diversas, e particularmente isso é curioso, fazendo com que o longa seja um bom exemplar a ser conferido de forma despretensiosa.

"Queime Depois de Ler" é, acima de tudo, um filme de personagens e atores. Apesar de uma história coerente e instigante, a reunião de grandes estrelas em uma obra onde todos têm um nível ótimo de paranóia, quase ao estilo almodovariano de construir suas mulheres histéricas, é o principal mote para criarmos identificação com o que está sendo visto. George Clooney faz um tipão desagradável, usa roupas bregas, trai a esposa e ainda cai em ciladas esquisitas. John Malkovich empresta sua experiência para viver um personagem decadente e quase louco, bem como Brad Pitt encarna um estilo de instrutor de academia beirando ao metrossexualismo, com um cabelo ridículo e trejeitos exagerados.

Tilda Swinton talvez seja a esposa infiel mais crível que eu já pude ver no cinema. Sempre vestida no estilo executivo, sua personagem tenta viver seus problemas longe do mundo, confiando apenas no amante, que é o menos confiável dali. Frances McDormand está sempre insatisfeita com a aparência e busca fazer cirurgias plásticas para ficar mais bonita, mas nem assim dispensa passar horas na internet procurando um parceiro para satisfazer sua luxúria. Ainda temos o dono da academia apaixonado e brega, além do zelador que só sabe falar a mesma frase.

Em um filme com personagens tão estranhos, o mais interessante é observar o quanto eles, de alguma forma, são solitários e procuram consolo em alguém ou alguma coisa para impulsionarem suas vidas. Entre eles, há uma trama básica de filmes de espionagem que mexe até com a embaixada russa nos Estados Unidos é instalada. A partir daí, o que começamos a perceber é como enganos e desencontros podem auxiliar as pessoas a chegarem a pontos extremos de suas vidas, e errar da forma mais banal possível.

O que poderia ser apenas um dramalhão hollywoodiano ganha, felizmente, a adesão de muito humor negro, e a forma como os Coen realizam suas inserções estéticas é outro ponto positivo, desde a trilha sonora genérica, algumas vezes em momentos errados, aos planos misteriosos que criam suspense no público. Como diretores, eles deixam seus atores a vontade para atingir qualquer clichê e serem ridículos quando quiserem. Ali não há regras, muito menos a intenção de cativar o espectador. "Queime Depois de Ler" é quase um carpe diem: aproveite aquilo e só.

Bem aceito ou não pelos espectadores, "Queime Depois de Ler" é inegavelmente uma comédia agradável, por mais que, às vezes, abuse da paciência do público com algumas brincadeiras irritantes. De qualquer forma, o longa é bem vindo em uma época do ano em que ainda há deficiência de boas histórias nos cinemas e que o grande destaque do momento seja o fantástico "REC". De vez em quando é sempre bom brincar, suar e depois tomar um banho. Quem sabe ler um livro e depois queimá-lo. Tão simples quanto esse texto. Agora você, leitor, vai sair desta página, queimar tudo que eu disse e pronto. Entendeu?