Talvez o problema principal dos filmes de espião que estarão por vir chama-se Jason Bourne. Atualmente no cinema, se o mocinho sabe lutar bem, se machuca de verdade, e as lutas são rápidas e com movimentos constantes da câmera, parte do público já o relaciona ao “herói” vivido por Matt Damon. Mas aí basta observarmos as tendências que surgem a cada ano. “A Identidade Bourne”, por exemplo, só foi o estopim. Tudo aquilo que veio “pós-Bourne” é considerado como uma cópia.
Pensaremos no seguinte: o cinema tende ao realismo. Isso é fato. “Batman – O Cavaleiro das Trevas” está aí para mostrar isso. E se estamos falando em um filme de ação, é obvio que irão procurar da forma mais eficaz por onde torná-lo realista. O estilo de câmera utilizado foi o artifício escolhido para tal. Então vamos parar de pensar em James Bond como uma cópia de Jason Bourne. Pronto, já andamos metade do caminho. Agora iremos realmente para os adjetivos do filme.
Funcionando como seqüência ao anterior, “Quantum of Solace” começa exatamente onde terminou “Cassino Royale” e mostra a dor de Bond (Daniel Craig) por ter sido traído por Vésper (Eva Green), e ele pretende descobrir toda a história que envolveu os dois. Então ele captura o Mr. White – como foi mostrado no primeiro filme – e, interrogando-o, descobre que a organização que chantageou Vésper é muito maior que se imaginava. Porém, Bond, acima de tudo, procura vingança pessoal e se coloca de frente à Dominic Greene (Mathieu Amalric), que comanda a deslumbrante Camille (Olga Kurylenko), que também procura vingança contra altos generais. E à medida que Bond envolve-se pessoalmente nessa trama, ele tem que se manter um passo à frente até mesmo da Cia e da MI-6.
Primeiro destaquemos o roteiro. Paul Haggis, que já se mostrou excelente em “Crash – No Limite” e “Cassino Royale”, cede a “Quantum of Solace” boas falas e situações, além de uma história interessante. Entretanto, ele não soube amarrar toda a trama. As coisas ficam completamente soltas e tão vagas que o espectador simplesmente desiste de entendê-la e concentra-se apenas nas monstruosas cenas de ação, que, diga-se de passagem, cumprem bem seu dever.
Marc Forster, apesar de encarar bem o desafio, não foi uma das melhores escolhas. Ele opta por planos muito abertos ou por uma câmera próxima demais, dando a impressão que ele erra a mão o tempo todo. Forster não consegue fazer uma cena de ação de encher muito os olhos, e nem nos momentos dramáticos ele consegue criar o mínimo de clima. Raras as cenas – como a belíssima que se passa na ópera – conseguem soar deslumbrantes e realmente impor presença.
A edição colabora com esse jogo de “ping pong” de mau gosto com o mínimo de envolvimento com o espectador. Claro que ela sempre opta por criar um clima frenético – isso sim o filme tem de sobra -, mas quando somos apresentados às melhores cenas, a edição alterna com outras cenas o tempo todo e não obtém êxito em sua proposta. Os efeitos tentam salvá-las o tempo todo e conseguem fazê-lo até onde os cabe.
Já quem falou algum dia que Daniel Craig iria arruinar a franquia de James Bond, pode engasgar-se com a própria língua, pois o cara leva o filme todo em suas costas. Se não fosse por sua imposição em cena, o longa seria somente mais um desses filmes de ação que mal lembramos o nome. Ainda contamos com a experiência de Judi Dench nos filmes de Bond, e com as belezas estonteantes de Olga Kurylenko e Gemma Arterton, que são o colírio do filme.
Quem gostou de “Cassino Royale”, certamente irá gostar desse. Apesar de ser inferior ao antecessor, este faz valer o ingresso e garante uma diversão bacana durante seus 106 minutos de duração. O longa mostra grandes cenas de ação, explosões, carros velozes, belíssimas mulheres, uma boa história de fundo e até mesmo homenagens aos outros filmes da franquia. Além do mais, não é isso que é James Bond, mesmo?


























