Poderia fazer toda uma análise para Xuxa e seus projetos sem sucesso, mas estaria sendo repetitivo, já que não se difere muito do que eu escrevi na crítica de "Xuxa Gêmeas" em 2006. Fazendo filmes para as crianças e esquecendo de investir em qualidade, acho até ilógico uma crítica apurada de produções indignas. Mas o que então gera os investimentos em mais e mais filmes da loira? A arrecadação. Não que todas as crianças fiquem ansiosas todos os anos por um filme da Xuxa, mas porque é uma opção que os pais têm em levar os filhos ao cinema, e aí são dois bilhetes pagos. Considerando que filmes infantis demoram semanas para sair de cartaz, acaba rendendo bastante para os produtores e para a própria Xuxa..

Em “Sonho de Menina”, Xuxa interpreta Kika (não entendo as mudanças de nome, todo mundo sabe que ela é ela), uma professora de matemática que é adorada por seus alunos por ensinar a matéria de uma forma impossível de não aprender. Mesmo feliz na profissão, Kika tem o sonho de ser atriz. Para isso, acaba seguindo os conselhos da amiga Lara (Alice Borges) e pretende ir ao Rio de Janeiro para um teste. Na rodoviária, Kika acaba conhecendo a Vozinha (Dirce Migliaccio) e sua neta Juju (Raquel Bonfante), além de um grupo de alunos prestes a entrar em uma excursão. Tendo perdido a carteira com dinheiro e documentos, Kika acaba recebendo a ajuda de Vozinha para comprar sua passagem. Antes de embarcar, a protagonista tira um cochilo e… sonha! É na não-originalidade do sonho que tudo acontece, uma aventura onde Kika volta a ser criança e se mete em confusões.

Rudi Lagemann teve o pepino nas mãos de dirigir a história escrita por Flávio de Souza, que já é familiarizado com filmes infantis e comédias meia-boca, como o próprio “Xuxa Gêmeas”, “Didi e o Caçador de Tesouros” e a adaptação para o cinema de “Trair e Coçar, é Só Começar”. Lagemann se destacou ano passado ao conduzir o bem aceito “Anjos do Sol”, e logo no início da carreira já consegue se sujar. No novo filme da Rainha dos Baixinhos, não é possível perceber o mínimo de apuro técnico, deixando claro que o diretor ficou tão perdido quanto o roteirista. Lagemann até tenta entrar em processo criativo para algumas cenas, como a do começo, em que a câmera acompanha o quarto de Kika criança e termina no de Kika adulta, demonstrando passagem do tempo, mas o máximo que ele consegue é entediar nos créditos iniciais.

A história de Flávio de Souza tem mais qualidade do que o péssimo “Xuxa Gêmeas”, mas ainda assim faz questão de ressaltar a apresentadora como criança. Há sempre o momento em que Xuxa se iguala ao público, seja no modo de se vestir ou de conversar por telepatia com um ursinho chamado Bebeto. Xuxa já tem quarenta e tantos anos e o principal motivo do fracasso em suas investidas televisivas ou cinematográficas é permanecer no de sempre. Se for analisar os últimos filmes e especiais da loira, todos seguem o mesmo formato, só mudam o cenário e os atores. A história é a mesma, os momentos de redenção são os mesmos e as lições nunca mudam. Em tempos onde crianças crescem assistindo a entalados como “High School Musical” e “Rebelde”, ou até mesmo seriados onde a inocência não é permitida, é bastante raro achar que este público vai se enganar com as histórias patéticas que a Xuxa se mete a fazer. Isso pode ser comprovado com a reação das crianças nas salas de projeção. As piadas não funcionam e o elenco não tem carisma. O máximo que elas podem aprender é a soltar pum com o cotovelo, como a loira faz questão de ensinar em determinado momento do filme.

O elenco adulto é desperdiçado em uma história que nenhum personagem é aprofundado, a não ser a própria Xuxa ou sua miniatura, a simpática Letícia Botelho. Nomes como Betty Lago e Dirce Migliaccio são jogados ao léu como se fossem meras iniciantes no audiovisual. Acima de tudo, existem atores nacionais que merecem ser preservados, e não ridicularizados. De onde tiraram a idéia de que a Vozinha, papel de Migliaccio, é praticamente a mesma da Chapeuzinho Vermelho? O interesse amoroso de Kika é vivido pelo talentoso Carlos Casagrande, mas só aparece duas vezes em cena e pouco convence que eles serão felizes para sempre. Por sinal, na cena final eles se reencontram em uma manifestação e… começam a pular alegremente. Sim, eles estavam em uma manifestação social… e pulam alegremente! O comediante Serjão Loroza pouco tem o que fazer e é mais um talento fora do barco. O elenco infantil é deprimente, salvo alguns dos garotos do Clube do Bolinha. As crianças não passam de protótipos de bonzinhos e malzinhos que se entendem no final.

Outro detalhe irritante no longa é a trilha sonora. Na realidade todos os aspectos técnicos são lamentáveis, mas a trilha e a sonoplastia consegue ser vergonhosa. Além das músicas invariáveis que acompanham os heróis na história, o público ainda tem que presenciar o uso constante de BGs de ‘toin’ e coisas do tipo para “fazer graça” na história. Chega a aparentar que a equipe técnica está fazendo um daqueles quadros do programa infantil da Xuxa, sem a mínima responsabilidade de ter uma postura cinematográfica. Além disso, a direção de arte e a edição são inadequadas, estourando a tonalidade de vários quadros ou não conseguindo dar o caminho certo para a história. Os efeitos visuais são amadores, mas pelo menos a protagonista consegue ensinar uma Regra de Três no ar (em uma conta que qualquer criança de doze anos faz de cabeça).

Como declarei em “Xuxa Gêmeas” e venho adotando isso nestas cento e tantas críticas que já escrevi para o CCR, não acho que um filme, por pior que seja, mereça a nota Zero. Sempre há algo que se salve, ou até o esforço em fazer algo digno para o público alvo. Entretanto, “Xuxa Em Sonho de Menina” será aclamado com essa nota redonda. E Xuxa, se você estiver lendo, move on, baby!