O primeiro filme realizado pela dupla Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom apareceu sem muito alarde no Brasil em 2006 e dividiu opiniões. Abordando o básico de filmes de terror oriental, “Espíritos – A Morte Está ao seu Lado” (“Shutter”) contava a história de Tun e Jane, dois jovens namorados e adoradores da fotografia que, após atropelarem uma misteriosa moça em alta estrada, fogem do local do acidente e começam a ter suas vidas assombradas. O grande acerto do primeiro filme foi a capacidade de argumentar até mesmo nas situações mais caricatas e piegas. A grande reviravolta que mostra todos os porquês do filme chega para consagrar o bom trabalho no roteiro dos realizadores.
Em “Espíritos 2 – Você Nunca Está Sozinho” (“Alone”), os cineastas voltam bem mais maduros e consertando os erros mais recorrentes do primeiro filme. Desta vez, vê-se até uma liberdade maior em trabalhar com a câmera na mão e investir em ângulos que dão um toque de charme à produção. Na história, Pim mora na Coréia com seu namorado quando recebe um telefonema avisando que sua mãe, residente em Bangkok, está internada após um derrame. Voltando à terra natal, a moça começa a ser atormentada por diversos sentimentos, inclusive alguns que remetem ao seu passado familiar e à sensação de que está constantemente sendo seguida por alguém. O argumento fotográfico do primeiro filme se transforma agora em uma história cuja premissa se baseia na idéia de gêmeas siamesas, outra abordagem acertada e com um desenvolvimento que não é tão original, mas rende momentos frenéticos de suspense, terror e um drama psicológico que nunca havia sido tão bem trabalhado em filmes anteriores do gênero.
É fato que terror oriental tem o seu quê de previsibilidade. Sempre com algum personagem assustador para atormentar a vida dos protagonistas, a idéia do mundo sobrenatural em si não é muito tentadora. Porém, a dupla Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom conseguiu construir uma trama que, por mais que caia em alguns clichês, consegue conduzi-los de forma a chegar em um dos melhores ápices das produções contemporâneas orientais. Desta vez preocupando-se bem mais com o estilo de filmagem, a película recebeu um tratamento escuro que varia em tons azuis e verdes que fecham bem a fotografia, ajudada pela cenografia e por uma direção de arte mais competente do que a do primeiro. Além do processo estético bem empregado, os diretores conseguiram movimentar a câmera de forma que pudesse analisar bem não só as situações que os personagens vivem, mas também o que talvez eles estejam sentindo. Ao final na projeção, tudo entra em harmonia e algumas coisas que poderiam ter parecido mais estranhas ou erradas, acabam sendo justificadas. E o melhor: não é esfregada na cara do espectador para que isso seja compreendido.
Os diretores se aproximam dos objetos e sabem conduzi-los de forma adequada. Nota-se que não é um filme só de atores, como o primeiro pode, em termos, ser fincado, mas é um filme que tem um quê de misticismo bem mais convincente, se é que pode ser chamado assim, do que qualquer outro do gênero. Não que seja completamente aceitável que um espírito deformado venha atormentar a vida dos terrestres (crenças à parte), mas a forma com que ela é justificada acaba sendo perfeitamente bem colocada. Além disso, os realizadores criam situações que variam do lugar comum, como a da banheira, mas também pregam peças no espectador, como a debaixo da cama, quando você espera aquele sustão, e acaba tendo uma surpresa bem melhor. Aliás, os sustos não são tão exagerados quanto no primeiro filme e isso se justifica principalmente por ter trabalhado o lado psicológico e mental dos protagonistas, deixando o suspense e o terror como válvula de escape. Quando estes aparecem, sim, conseguem aterrorizar e criar um clima de tensão fora do comum. O destaque vai para a cena do ventilador, uma das mais arrepiantes dos últimos tempos.
Os atores Masha Wattanapanich e Vittaya Wasukraipaisan sustentam o filme em suas diferentes nuances. A escolha do elenco também continua sendo um dos pontos fortes do trabalho dos diretores. Wattanapanich sem dúvidas é o destaque com sua personagem Pim e, consequentemente, a gêmea Ploy. A moça não só dá o teor certo para cada momento de Pim, como consegue segurar o filme nas costas quando o clímax vem a tona e uma seqüência final fantástica acontece. O galã Wasukraipaisan também não faz feio, mas por talvez não ter tanto destaque quanto a protagonista feminina na primeira parte da projeção, acabe agradando somente durante a última fração da trama. Como se não bastasse, um aspecto técnico que é bem vindo junto às atuações é o da trilha sonora. No filme anterior, a trilha fez um trabalho quase medíocre, aparecendo mais para gerar sustos ou ficando em terceiro plano. Desta vez, a trilha adere às perspectivas dos personagens de forma impressionante, estando bem mais ativa, bem como os efeitos visuais e a direção de arte, que também melhoraram consideravelmente. Talvez tenha sido por tanta dedicação aos mínimos detalhes, juntamente com o bom argumento da história, que a crítica tailandesa tenha aplaudido de pé o filme.
Os méritos são claros e sem dúvidas “Espíritos 2” se junta à escassa lista de boas surpresas que chegaram ao cinema este ano. Não somente um filme de terror, mas um filme que retrata aspectos psicológicos interessantes, o longa agrada pelo visual e pelo discernimento do ridículo em filmes de terror/suspense na tentativa de criar algo admirável, conseguindo com glória. Talvez seja um filme obrigatório não somente aos admiradores do gênero, mas também aqueles que gostam de análises profundas comportamentais e um pouquinho de misticismo.
A partir daqui terão fatos revelados sobre o final do filme. Para quem não assistiu e nem quer saber, sugiro que volte para ficha técnica e leia outras opiniões listadas. A história de Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom é tão fechada que algumas peças vão sendo soltas durante a projeção e, mais tarde, conferimos que são enganações que a protagonista criou para conseguir atingir seu objetivo. Além das diferentes versões da morte da irmã gêmea que, na verdade, foi Pim, observe o momento em que Wee enxerga pela primeira vez a assombração da gêmea. Ele está subindo as escadas e se depara com a projeção das duas irmãs de costas. Na ocasião, o espírito estava ocupando o lado que, quando eram siamesas, era da própria Pim, ou seja, os roteiristas tiveram a preocupação também em intrigar os mais atentos aos detalhes. ("Mas a Pim não estava viva? Eles erraram!") Não erraram! Mais tarde, descobriríamos toda a verdade. Outro ponto interessante do roteiro é que o espírito de Pim não necessariamente está lá para causar o mal que é proposto no começo. Isso é comprovado na cena final, quando Ploy fica presa dentro de um armário, com a casa pegando fogo, e Pim aparece e simplesmente a abraça, fato que aconteceu bastante durante a infância das duas. Então por que a irmã assombrava os vivos? Pelo simples fato de que a irmã viva quebrara a promessa de que as duas estariam sempre juntas, além de levantar o lado místico de que os gêmeos têm ligações fortes não só de conduta, mas também de sobrevivência. Um paralelo a isso que o roteiro trabalha é em relação ao cachorro Lucky que, após morrer, faz com que “Pim” compre um cachorro idêntico, porém que é rejeitado por Wee. Em determinado momento, ela trabalha a idéia de que o amor poderia ser posto em objetos aparentemente semelhantes, o que era o objetivo dela desde o começo. Além disso, durante a cena em que Ploy causa a fatalidade de Pim, é clara a não-intenção da garota, que estava movida apenas pela raiva. Por isso ela vivia com o sentimento de culpa que a fazia delirar em diversos momentos de sua vida. Ah, destaque à cena em que Ploy rola junto à irmã morta no chão do hospital. Simplesmente fantástica. Por fim, note quando "Pim" vai conversar com o psiquiatra e este a mostra a figura de uma borboleta. A borboleta também é um dos símbolos trabalhados na teoria do caos, que pudemos conferir mais de perto em "Efeito Borboleta" e, se investigarmos, também pode ser associada em alguns momentos à história de "Espíritos 2". Enfim, um filme justificável do começo ao fim e que merece atenção aos detalhes.


























