Críticas

Clock sábado, 05 de abril, 2008 - às 13h46

Magnólia

"A ciência botânica tem um interesse especial pelas magnólias, que se acredita serem extremamente primitivas em relação a todas as outras flores..." - Trecho extraído do site Wikepédia.

Maurício Saldanha cinemacomrapadura.com.br
por Maurício Saldanha
05/04/2008 - 13:46

Para quem não conhece, Paul Thomas Anderson (ou P. T. Anderson) iniciou no circuito cinematográfico mundial com "Hard Eight", em 1996, trama que se desenrolava quase toda em um cassino em Las Vegas. O filme conquistou-me pelo jeito de contar de Anderson. Em seu primeiro filme, o diretor não criou um longa-metragem novo, se comparado a tramas ocorridas em Las Vegas e seus cassinos, mas havia algo de estranho no projeto. Algo incomum, que aqui tento colocar em uma palavra: Primitivo.

Posso arriscar dizendo que Anderson é um cineasta que prima pelo primata. Por nós todos, humanos, ainda que primatas, e vice-versa. Isso pode ser melhor entendido, em seu segundo trabalho, "Boogie Nights", de 1997. Muito mais do que apenas um longa sobre o início da indústria pornográfica americana. O filme possibilitou-me enxergar P. T. Anderson como um fascinante cineasta autoral.

Teria alguma explicação para Mark Wahlberg (ex-garoto propaganda da marca Calvin Kline) transformar-se em ator em "Boogie Nights"? Justamente a explicação encontrei no elo primitivo que envolve a todos nós, e que Anderson tão bem consegue enxergar.

O sexo está em "Boogie Nights", como em nenhum outro filme. Não é explícito no ato em si, nas cenas interpretadas por Wahlberg ou Julianne Moore. O sexo em "Boogie Nights" está na manifestação primata dos nossos atos. Seja no rapaz querendo reconhecimento de seus pais, em uma mãe, que usa das drogas para atenuar a falta da filha, ou na menina-patins, praticando muito sexo oral, demonstram todos uma carência de localização no mundo.

Enfim, observemos Magnólia. A flor dita extremamente primitiva em relação a todas as outras. Assistindo ao filme no cinema, contei 12 pessoas que saíram da sala escura. Talvez por isso. Pela escuridão, somada ao argumento primitivo de Anderson. "Magnólia" não é entretenimento de massa, não é produto, resultando em uma experiência tão intensa, que mesmo só a claridade de uma luz artificial de fora da sala para fazer esquecer o que lá dentro sentia. "Magnólia" incomoda, fala através de uma projeção imediata, um espelhamento. Percebemos que todos somos um. Aliás, "projeção" é outra palavra chave na filmografia de Anderson.

Desde aquilo que nós, primatas, criamos como palavras e seus sentenciados significados, até o fantástico (e suas reticências nunca explicadas) criado pelo homem, tentando ir além do primata, Anderson criou um novo testamento. Ainda bem, já que o velho não mais é tão citado, e o que conhecemos por novo, serve para pregação. "Magnólia" não prega, perfura.

Somos apresentados a um narrador, que bem pode ser o Criador de tudo. A voz que sempre fomos alertados de conversar, para sermos atendidos. O Criador – narrador apresenta histórias sobre "coincidências" (em aspas mesmo), pois, quando dito, o Criador – narrador tem em seu tom, timbre fatigado e incrédulo. Ao fim da última "coincidência", ele, assim como todos nós, não acredita: ao tentar suicídio, filho morre assassinado pela sua própria mãe.

Antes dos créditos com o nome da primitiva flor estampada na tela, o narrador – Criador lembra-nos: "… Estas estranhas histórias acontecem ao tempo todo". O narrador-Criador parece ausentar-se da tela e sentar-se ao nossa lado na sala escura, durante 3 horas de uma experiência singular.

O que encanta em "Magnólia" não é apenas a sublime técnica fílmica de Anderson, nem os takes, todos pintados como quadros ultra-realistas, muito menos o clipe inserido, com o elenco inteiro cantando "Wise Up", tampouco a soberba atuação de Tom Cruise interpretanto um homem revoltado com o sexo oposto, para crucificar a ausência da mãe (ou para justificar a crucificação do pai), mas o que realmente faz toda a diferença são as subliminariedades desta obra.

Repare nos números oito e dois, a todo o momento. Repare no complemento a este número, revelado no programa "What Do Kids Know?", no qual uma pessoa na platéia levanta um cartaz escrito "Exodus 8.2".

Exodus 8.1 e 8.2 – Trecho retirado da Bíblia:

8.1 – "Depois disse o Senhor a Moisés: Vai a Faraó e dize-lhe: Assim diz o Senhor: Deixa ir o meu povo, para que me sirva."

8.2 – "E se recusares deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos."

E a chuva de sapos ocorre justamente após o filho (Tom Cruise), depois de horas de desabafo culpando ao seu pai (Jason Robards), enfermo na cama, decide por implorar que ele não morra.

Penso que nesta hora o Criador – narrador, evoca, sentado ao nosso lado, toda sua força. E se antes ele questionava, concordava e duvidava, junto ao povo, agora ele entendeu, que a única coincidência da vida é a morte. O nosso primitivo fim chama-se acaso.

Logo, com a chuva de sapos, fica claro a intenção do narrador de alertar para não sermos tolos, preocupando-nos com nossas relações apenas por temer perder nosso povo (repare em todos os personagens e suas ansiedades ante a situações terminais), acreditando que existe, junto da morte, o eterno legado chamado culpa.

Tudo em "Magnólia" é subliminar, mas a maravilha é que a tudo podemos enxergar. Todos os anjos, os ditos demônios, os pais, as mães, os primatas, as mensagens, como a frase que encontramos no quadro na casa de Claudia e que logo é dita pelo menino gênio na biblioteca: "Isto realmente aconteceu".

Aconteceu. Como uma experiência que precisamos mesmo falar em alto e bom som, para acreditarmos. Questão de fé. E o narrador-Criador então possue em sua voz um tranqüilo tom, e a trilha instrumental que acompanha suas palavras parece acompanhar um novo profundo respirar. E no fim, nunca "The End" entende-se tudo, mesmo que não tenhamos êxito em expressarmo-nos em uma conversa informal na saída do cinema.

Tento aqui o meu resultado feliz, apostando no personagem Jim, o policial, como o mais ingênuo Salvador de todas as relações primitivas. Acredito que antes da lei e normas sociais, ele seja a personificação da proteção que sempre pretendemos, porém preterimos, por acreditarmos em coincidências. Gosto de imaginar que Jim Kurring, em "Magnólia", é o guardião de uma primitiva flor, chamada nós.

Somos rotulados de outros nomes, como putas, drogadas, homossexuais, abusadores, e recebemos por isso uma peste sobre nossas cabeças, mas sabemos que, ao fim do dia, o difícil mesmo de caminhar pela calçada é saber o que podemos perdoar para, enfim, sobreviver e este mundo que insiste em ser habitado por homens que (acham) sabem que sabem (Homo-Sapiens).

As últimas críticas do autor

    • Pablo

      Gostei da sua crítica. E o filme parece ser um monte de touros que passam por você, pois é atingido várias e várias vezes com as histórias e situações dos personagens. Cruise, Moore, Robards, Hoffman, Reilly, o menino Blackman e especialmente William H. Macy estão absolutamente fantásticos. 10 PRA ESSE FILME!

    • Felipe Batista

      10 pra esse filme? Sinceramente, não sei como vocês conseguem gostar. Não sou uma pessoa obtusa; entendo bem a visão artística, o cinema autoral de Anderson, e a mensagem que Magnólia nos passa. Mas o filme é chato! Incrivelmente chato nas suas absurdamente longas e torturantes três horas de duração! Podemos levar inúmeros socos no estômago confrontando a realidade enquanto assistimos a um filme bom e interessante, de três, quatro ou cinco horas, pois arte é sinônimo de bom gosto, e bom gosto também pode chocar. Para fugir do entretenimento de massa não há necessidade de correr até o extremo oposto. 0.5 é uma boa nota para Magnólia.

    • Alysson Diniz

      Essa crítica do Mau é muito boa, principalmente pra pessoas que (como eu) ainda nao tinham visto o filme e o viram recentemente. O lance do versículo da bíblia tinha me passado despercebido e é bastante interessante.

      Esta questão da nota, vai da experiência pessoal que Magnólia conseguiu causar no expectador. Nesta questão, eu estou com o Pablo e com o Maurício, Nota 10.

      • EVANDRO BARROS

        Mesmo tendo sido feito em 1999, eu assisti este filme apenas em 2013…uma única palavra define: Sensacional!! A complexidade dos personagens(principalmente Tom Cruise) e o evento final da chuva de sapos! Respeito opiniões adversas…mas nota 10!

    • Alexandre de Paula

      Resolvi assistir a esse filme depois de ouvir o programa “We Have To Go Back 1999″…e fico triste por ter me arrependido tanto.

      Uma coisa que eu aprendi na faculdade, mais precisamente nas aulas de Sociologia, é que o transmissor é o culpado na maioria das vezes em que o público não entende a mensagem. Não culpo as 12 pessoas que saíram da sala (citadas pelo Mau), pois de fato o filme é chato! Não tem outra palavra pra descrever.

      Usou de forma gratuita e desnecessária as 3 horas pra transmitir uma mensagem que poderia ser mais condensada e objetiva. Me desculpem, mas não consigo aplaudir uma mensagem que vai ser recebida somente por uma grupo MUITO seleto de pessoas, que vão ignorar totalmente qualquer bom senso e clareza, somente em favor da “arte”.

      E a próxima vez que alguém usar o termo galhofa pra um filme, indicarei prontamente Magnólia, pois se o filme precisa utilizar uma chuva de sapo (não de forma simbólica) para transmitir sua mensagem ou causar algum tipo de impacto especial, realmente vemos que a construção de sua história falhou. Certamente há outros caminhos pra isso.

      “De que adianta eu transmitir uma poderosa mensagem que pode mudar vidas, se eu proclamá-la em Aramaico?”

      Abraços

    • Rodrigo Reis

      Nota: 15 estrelas.

      Melhor filme da minha vida! Não tem o que discutir. Intenso, intrigante, original(muito!), emocionante, arrebatador, além de atuações magníficas. A maior atuação da carreira de Cruise! Ao contrário do que dizem, nunca vi um filme passar por 3 horas tão rápidas. Quando você acha que o filme não vai mais te abraçar, te botar no colo, fazer você chorar e fazer pensar sobre si mesmo e a culpa, o pecado, o medo, as incertezas, Deus enfim.. sobre tudo, praticamente o resultado da sua vida mastigadinho, ele vêm com uma cena linda em “Wise Up”. Uma redenção! Depois vêm aquela chuva super original e esclarecedora do argumento e finalmente a cena final simples, linda e que faz realmente você se sentir como aqueles 2 personagens: cansado, magoado, mas ainda esperançoso. E você não se sente assim porque quis se emocionar, ou porque é um ser humano emotivo, mas porque o filme te faz relembrar quem você é, o que você é e pode ser. E quem nós somos diante de tanta culpa e de tantas dúvidas sobre o que realmente está acontecendo á nossa volta?

      Soma-se isso tudo ao fato dos easter eggs que o PTA coloca no filme todo, que faz você revirar o filme de ponta a cabeça e revê-lo mais umas trocentas vezes e ainda descobrir na décima primeira vez que ainda tinha coisas incríveis ali que você não sabia. Ao contrário do que o amigo disse embaixo, na verdade é muito lamentável que filmes que não são pra massa não sejam como Magnólia. Se alguém não consegue se emocionar com Magnólia, sinceramente volte para a massa, porque lá é que é lugar para a superficialidade que o Magnólia de PTA abomina e abandona completamente em 3 horas de filme.

      Magnólia é muito mais que cinema, é uma história para ser repetida sobre como se faz arte, sobre como se destrincha a alma em cenas e sons. É uma aula de cinema, e de muitas outras coisas.