Avaliação: 8

Muitos filmes passam despercebidos pela mídia e, conseqüentemente, pelas pessoas que não buscam aquilo que não indicaram a elas. Junte isso ao fato de um filme tratar sobre um tema incomum que pode gerar repudia por parte do expectador que não aceitar a “mentira” a que está sendo submetido. Filmes como “Efeito Borboleta” e "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, para abordarem um assunto difícil tiveram de usar um desenrolar inimaginável e pouco aceitável. “Camisa de Força” segue essa mesma linha.

Na trama, somos apresentados a Jack Starks (Adrien Brody) como protagonista. Ele é um soldado americano que, depois de baleado na primeira guerra contra o Iraque, é liberado da função de combatente. Porém encontra-se logo em seguida com um futuro ruim o qual o leva para um hospício – nela começamos e entrar no clima que o filme vai nos propor até o fim. Nessa clínica, outros personagens vêm à tona, como Jackie (Keira Knightley, de Rei Arthur), a fria Dra. Lorenson (Jennifer Jason Leigh, de Aniversário de Casament), o taxativo Dr. Becker (Kris Kristofferson, da trilogia Blade), além de outros personagens secundários. Como cobaia do Dr. Becker, Starks é submetido a um tratamento inovador e sofrível. O Doutor coloca seus pacientes em uma gaveta de necrotério, atados a uma camisa de força, onde acabam envoltos a lembranças ruins ou boas. Entretanto, surpreendentemente, Starks consegue transformar esse tratamento desagradável em seu alento.

O que prende a pessoa a esse tipo de filme é a forma como ele é conduzido, quando ele revela seus segredos e o fato de não ser previsível. Nesses casos o diretor John Maybury conseguiu sucessor pleno nos dois últimos. No primeiro teve altos e baixos, mas que não chegaram a prejudicar a projeção como um todo. Em alguns dados momentos, antes das coisas serem desenroladas por revelações e flashbacks, é normal a angustia e vontade de parar de assisti-lo. Quando você começa a se envolver com o filme, vê o quão intrigante ele é e começa a pensar junto com as ações do protagonista.

Adrien Brody, o ganhador do Oscar de melhor ator por sua atuação em O Pianista, está verdadeiramente impecável. Não consegui ver outro ator – apesar de não me identificar com seu meio metro de nariz – em seu papel. Ele passa o feeling que o filme se propõe a transmitir. É uma angustia intrigante que, envolto a pensamentos e coisas ainda não explicadas, o expectador anda lado a lado com o protagonista. Pensando na mesma batida e surpreendendo-se da forma como deve ser para um filme prender a atenção.

Como coadjuvante Keira Knightley, faz sua parte. Nos momentos iniciais seu personagem é explicado com o alcoolismo e o vício de fumar. Nessa parte, ela não se mostra muito bem, mas quando as apresentações são deixadas de lado, vemos a boa atuação da moça que fica melhor ainda, tal como a de Adrien, devido as ótimas tomadas de câmera. A garotinha que a interpreta quando jovem também está bem. Mesmo jovem, a atriz tem um carisma que se torna fator chave para gostarmos e entendermos melhor o apego de Jack Starks por ela. Em algumas cenas, fiquei comovido pela forma como ele olha para a menina. Realmente mostrando tudo que é sentido por ela, sem mesmo precisar de uma palavra ou de uma cena a mais.

O atual 007, Daniel Craig, também participa do elenco e, diga-se de passagem, também de forma boa. Mesmo estando pouco tempo em cena com o personagem Mackenzie, desempenha função vital no entendimento da trama. Completando o cast que cabe ser analisado, está Jennifer Jason Leigh e Kris Kristofferson. A primeira não agrada em uma cena, na qual deveria transmitir a sensação de estar falando uma grande mentira e é salva pelos gestos que faz com uma caneta, mas, facialmente, de forma alguma apresenta o que de fato deveria. O segundo interpreta normalmente o Dr. Becker; bem trivial.

Além do posicionamento das câmeras, o que ajuda o expectador a verdadeiramente entrar no filme é a trilha sonora. Discreta, só é percebida se você procurar bem. Mas ela está lá e está te pondo em um mundo difícil de aceitar e fazendo você sentir a angustia do protagonista ou, em poucos momentos, sua alegria. Os pequeníssimos detalhes também não podem passar em branco a nossos olhos, pois eles fazem a diferença quando o tempo em que o personagem Starks é mudado. Datas e alguns diálogos aparentemente inúteis são essenciais para um melhor pensamento a respeito do roteiro.

Por falar nisso, o roteiro aborda um subtema bastante batido pela filosofia e psicologia. É o famoso problema mente-corpo. Por isso é uma ótima indicação que os professores acadêmicos podem fazer quando estiverem dialogando com sua sala de aula a respeito desse assunto.

Com um clima bem fechado e revelando sua proposta aos poucos, “Camisa de Força”, segue uma linha que precisa usar do inimaginável para mostrar seu tema de forma compreensível. É um filme difícil de se fazer e que desagradará aqueles que buscam ação, suspense, terror, comédia e todos esses gêneros já batidos por Hollywood. É um filme deveras intrigante. Um verdadeiro thriller do começo ao fim. Quando você se envolve, lá pelo meio do filme, é difícil a vontade de urinar te tirar da sala.

Sinta-se a vontade para não ler esse próximo parágrafo, pois ele contém informações comprometedoras a respeito das surpresas do filme.

Infelizmente, na tentativa de deixar o filme mais comercializável e aceitável por parte dos que gostam de finais alegres, erraram em seu final. Apesar de todo o clima sombrio e pensante, fizeram um desfecho bem do tipo “simplesmente aceite”. Quando, no caso, poderia ter sido mais dramático – e inadmissível para aqueles que são contra os finais infelizes.