Críticas   segunda-feira, 28 de Março de 2005

A Paixão de Cristo

Todo dia Cristo é crucificado novamente, pois a cada dia centenas de salas exibem as cenas de nossa conturbada história para nos jogar na cara aquilo que fazemos.

O cinema ainda é, em pleno século XXI, a mais chocante das artes para o ser humano. Só ele é capaz de recriar a realidade de forma tão fiel e forte, fazendo o espectador não só acreditar na história, como também vivenciá-la. Sentir as imagens na pele é o que faz, de um jeito ou de outro, o filme “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson, lançado este ano.

Recontar os passos das últimas doze horas de vida de Cristo é um tema nada confortável, mesmo sentado em uma poltrona aconchegante com pipoca e refrigerante. O ato de lembrar e, principalmente, de ver uma história tão sofrida é algo que os homens tentam evitar. Esse assunto nos deixa mal. Não Cristo, mas a espécie ‘Homem’. O homem que chicoteia, o que xinga, o que enfia-lhe uma lança, nos causa um sentimento de vergonha. Vergonha esta que, em vários momentos, fica maior do que o orgulho e a admiração que devíamos ter, em maior nível, pelo protagonista da história. É claro que o excesso de sangue e violência incomoda a todos, e esse é o maior objetivo dessa produção.

O filme talvez não seja o que todos esperavam, mas nem Jesus agradou a todos, quem dirá uma película de Hollywood. Pode até não satisfazer a muitos, mas já rendeu a terceira maior bilheteria do ano apenas com a primeira semana de exibição nos Estados Unidos. Gibson deve estar feliz com todo o lucro. Mas ele merece, pelo simples fato de nos fazer lembrar e refletir, sobre algo que é muito mais importante do que um repórter do New York Times: é a polêmica em volta da nossa própria história.

Marx já dizia que “o homem sem a consciência de sua história se tornará alienado ao mundo”. Por isso que o cinema existe, para incomodar, refletir, debater e nos dar consciência para deixar a “qualidade” de atônitos que os seres humanos insistem tanto em permanecer. Está é a função da arte, não nos deixar dormir acordados.

Obviamente que o confronto entre arte e religião se tornaram mais quentes entre nós. Até onde a arte pode ir? Até onde a religião pode ir? A resposta é uma só: a todos os lugares. Falta em nós a percepção necessária para compreender que o todo é maior que a soma de suas partes. Os extremistas de um lado dizem que “tudo que divide é coisa do demônio, e por isso ‘A Paixão de Cristo’ não presta”. Os extremistas da outra ponta dizem “a arte é para chocar, o dramaticidade é o mais importante”. Isto não é o pior. Os judeus dizem que “Gibson ignorou a história de nosso povo em seu filme”. Mas esses antagonismos se encontram.

Independentemente de religião, a arte “bota as manguinhas de fora” e mostra que aquilo que o homem Cristo sofreu abala os pensamentos de todos, até do mais insensível ser. Sofreu, e sofre. Sofre a cada bala perdida, a cada lixo jogado no chão, a cada piada de mau gosto, a cada sorriso falso, a cada briga, a cada tiro na Terra Santa. A questão é que ainda não paramos de massacrar e enfiar, a cada dia de nossas vidas, os cravos em suas mãos.

Todo dia Cristo é crucificado novamente, pois a cada dia centenas de salas exibem as cenas de nossa conturbada história para nos jogar na cara aquilo que fazemos. É o cinema, a “Caverna de Platão”, que nos faz olhar para trás após o acender das luzes e do escrito de “FIM” na tela. É para isso que ele existe.

Vinicius Augusto
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