Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 20 de abril de 2005

Réquiem Para Um Sonho

“Réquiem para um Sonho” se propõe ser um retrato da nossa sociedade doente e sádica, que cada vez mais é marcada pelo individualismo. Degradações de valores, cenas de sexo, consumo de drogas e sonhos embalados por réquiens é o que vemos no filme. E porque não, na vida.

De tempos em tempos, em espaços esporádicos, surgem obras que marcam o cinema, que traduzem sentimentos e fazem com que você encare fatos cotidianos com outros olhos. Uma dessas obras é o genial “Réquiem para um Sonho”. É absolutamente incrível como esse filme causa impacto e faz com que você reveja seus conceitos sobre drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, palpáveis ou abstratas, visíveis ou psicológicas.

Você pode me perguntar ‘Mas Pedro, existem tantos filmes que expressam muito bem o universo de um viciado. O que este tem demais? E eu lhe respondo: ‘Este é O filme sobre drogas e as conseqüências que elas acarretam em nossas vidas’.

Todos os personagens são, acima de tudo, sonhadores. Sara Goldfarb (Ellen Burstyn) é uma viúva aposentada que passa o dia todo assistindo TV. Tudo vai indo bem até que ela recebe um telefonema: do outro lado da linha uma pessoa se identifica como funcionária do seu programa de TV predileto, o "Tappy Tibbons Show". Sara é então avisada que irá, em breve, participar do programa. Então a viúva coloca um objetivo em sua mente: irá emagrecer para entrar num vestido que usou na formatura de Harry (Jared Leto), seu filho e que agradava tanto seu falecido marido.

Concomitantemente Harry tenta juntar dinheiro para vencer na vida, juntamente com sua namorada Marion (Jennifer Connelly), que sonha em ter uma grife própria e seu amigo Tyrone (Marlon Wayans, sim, o mesmo de “Todo Mundo em Pânico”). Sonhos a parte, o meio que eles escolheram para realizá-los é extremamente arriscado: eles resolvem vender heroína.

Com uma história dessas o diretor Darren Aronofsky (o mesmo do cultuado “Pi”) criou um filme poderoso, forte, direto e essencial para qualquer jovem que se aventure a viver neste mundo cão.

Nos EUA o filme não foi entendido. Em vez dos gringos torná-lo obrigatório em qualquer campanha antidrogas, eles o taxaram com a classificação NC-17 (destinado para filmes que só ficam abaixo dos pornôs, no quesito ‘destruidor de valores morais e com cenas de sexo’).

Modéstia parte, digamos que já sou meio que ‘vacinado’ quanto a filmes de drogas. Sempre fui um rato fuçador acerca deste assunto. Mas tenho que admitir que nunca um filme me causou tanto impacto, seja pela montagem frenética, seja pela tendência crescente ao caos ou pelas interpretações viscerais.

E, como todo bom entendido acerca do tratamento que as artes dão sobre as ‘vítimas’ deste assunto, fui assistindo ao filme sabendo que nada ia terminar bem. Mas nunca, em hipótese alguma, poderia imaginar o nível de insanidade e de choque que ele outorga para nós.

Dos personagens e, conseqüentemente, das atuações, só tenho elogios a fazer. Ellen Busrtyn é a minha preferida, a mais cativante e a mais chocante. Ao vermos o fim de sua história é impossível não se sensibilizar e se perguntar ‘Como foi que essa mulher conseguiu chegar a este ponto?’. Ela é a perfeita projeção da morte e da degradação humana, corporal e psicológica. Já Jared Leto não fica atrás, conhecemos um Harry altamente sonhador, que quer mostrar para sua mãe o quão ele pode ser bom e fazê-la feliz. Novamente sua caracterização no término do filme é de deixar qualquer um, desde os mais insensíveis aos que choram até com inauguração de supermercado, com um nó na garganta. Os outros dois do quarteto principal também não deixam a desejar. Jennifer Connelly e Marlon Wayans elevam ao supra-sumo da perfeição e da contra-propaganda na arte sobre drogas.

Um dos grandes erros da história, com certeza, foi cometido com a premiação do Oscar de Melhor Atriz para a “apenas correta” Julia Roberts, ao invés dele ter sido entregue a Ellen Burstyn. Mais uma vez o Oscar se mostrou altamente político e influenciável pelos egos inflados que habitam por aquelas bandas.

Quanto à trilha, edição e direção de arte, o filme é, redundantemente, fenomenal. A música que permeia os 102 minutos da película é de uma sensibilidade impar. Transpassa sentimentos e sensações que, sem a execução da mesma, dificilmente seria captado com tanta poeticidade. Nervosa em dado momento e sublime em outros, ela deixa de ser apenas um ‘efeito estilístico’ para se tornar um personagem que faz diferença dentro do longa.

A obra de Aronofsky vive no submundo, no inferno que é a vida de um viciado. A calma e a tranqüilidade de um dia fatídico vai se degradando a cada frame. Os sonhos vão sendo desconstruídos, e quando nos damos conta, tudo já foi por água abaixo. Não adianta mais reclamar. Não adianta mais chorar. A morte, o desespero e a solidão já se apoderaram de nós. Triste, muito triste. Mas também, muito verdadeiro e pungente. Esqueça tudo que você já viu sobre a vida fazer sentido, ser justa e que no fim sempre termina bem.

“Réquiem para um Sonho” se propõe ser um retrato da nossa sociedade doente e sádica, que cada vez mais é marcada pelo individualismo. Degradações de valores, cenas de sexo, consumo de drogas e sonhos embalados por réquiens é o que vemos no filme. E porque não, na vida. Pessimismos à parte, assista a esse filme e fique maravilhado com o que o cinema pode proporcionar a você, seja homem ou mulher, viciado ou não, criança ou adulto. E, assim como “Dançando no Escuro”, “Dogville” e “Moulin Rouge – O Amor em Vermelho”, este filme fará você ter uma opinião formada com a subida dos créditos. Seja ela contra ou a favor. E, acredite, você vai tê-la.

Cinema com Rapadura Team
@rapadura

Compartilhe

Saiba mais sobre