Avaliação: 9

Quem disse que um desenho animado por computador não pode fazer sucesso entre o público e a crítica? “Shrek” chegou com o status lá em cima depois do estrondoso sucesso nos Estados Unidos e com êxito em várias “competições” das quais ele participou. Este longa é mais capítulo da batalha e rivalidade entre a Dreamworks e a Disney pelo trono do gênero animação. Sinceramente, “Shrek” é bem melhor que muitos filmes recentes da Disney, que, por sinal, está com uma dor-de-cabeça desgraçada com seus sucessivos fracassos no cinema.

De início, você pensa que será mais um conto baseado em histórias que a Disney costuma adotar. Aparece um livro com história de conto de fadas sendo folheado. Logo mais o nosso herói, Shrek (na voz de Mike Myers), rasga uma folha do livro e usa para limpar-se depois de fazer necessidades. Shrek vive em um pântano isolado em que, de vez em quando, aparecem caçadores (o nosso Ogro adora assustá-los) querendo capturá-lo. Em outra parte da floresta algumas pessoas estão vendendo alguns personagens de contos antigos como: Pinóquio, Os Três Porquinhos, Peter Pan, Os Sete Anões, Chapeuzinho Vermelho etc. Um desses personagens é o Burro Falante (na voz de Eddie Murphy), que se recusa a falar na frente de seu comprador. Por acaso do destino, uma fada (Sininho de Peter Pan) derrama um pó mágico sobre ele e o burro acaba conseguindo voar.

Em sua fuga, ele dá de frente com Shrek. O Burro tenta logo fazer uma amizade com o tal Ogro, mas não consegue, já que Shrek é do estilo solitário. Até que o Ogro resolve voltar para sua casa e acaba tendo uma visão do ‘inferno’: todos os personagens de contos de fadas estão em seu pântano. Lord Farquaad (na voz de John Lithgow) jogou todos os arrasa-quarteirões da Disney no pântano de Shrek. Para recuperar a paz em seu lar ele terá que fazer um grande favor ao vilão: salvar a princesa Fiona, que está em um castelo abandonado, guardado por um Dragão. Isso tudo na companhia do divertidíssimo Burro Falante, que não terá papas na língua para “encher o saco” de Shrek.

Jeffrey Katzenberg, responsável pelos desenhos na Dreamworks, criou o estúdio junto com Steven Spielberg e Geffen, quando saiu brigado com Disney, onde foi justamente responsável pelo renascimento desse tipo de filme (“A Pequena Sereia”). Eventualmente saiu brigado com o chefe da Disney, Michael Eisner, que acabou sendo caricaturizado no personagem do Lord Farquand, que é um anão feio e rabugento. Existe, além desta, várias outras gozações com a Disney, desde o fato de o vilão ser muito baixinho, até o castelo com uma recepção cantada (que é logo ignorada por Shrek), caricaturas dos antigos desenhos (não completamente fiel por causa dos direitos autorais) e pela própria concepção do filme, que é basicamente um anti-conto de fadas.

Talvez o filme tenha agradado tanto porque segue um padrão inexplorado pela Disney, que sempre seguiu tradições passadas e acabou ficando ultrapassada para o atual contexto cinematográfico. “Shrek” é uma prova de que, com personagens carismáticos (mesmo sendo feios) e um enredo engraçadíssimo, consegue-se quebrar fronteiras. É tanto, que o faturamento de 482 milhões ao redor do mundo fala por si só. Um Ogro solitário, um Burro falante, Um Vilão Anão e uma Princesa que guarda um grande segredo. Elenco melhor do que qualquer novela das oito. Sem contar os coadjuvantes como um Dragão do sexo feminino e a infinidade de personagens dos contos de fadas.

Em diversas partes do filme ele nos faz refletir sobre várias coisas que o ser humano faz, como quanto ao julgamento de certas coisas pela aparência (lembra muitos os desenhos da Disney, não?). A maior lição do filme é sobre isso, no qual mostra que às vezes uma aparência feia consegue ser delicada e sensível em seu interior. Ou até um amor impossível entre Shrek e a princesa. No final das contas, a Dreamworks quis tanto criticar a Disney que acabou fazendo várias coisas que esta usa em seus filmes. Pelo menos prova que a empresa não tem um ódio tão grande para com a Dinsey, mas tem uma opinião que o estilo de contos está saturado e nada melhor do que fazer uma tiração de sarro com isso.

O filme esta disponível nas versões dublada e legendada. Preferencialmente escolha essa segunda, por causa das vozes originais. Vale a pena escutar e apreciar o desempenho vocal de atores como Mike Myers, que é bem melhor usando sua voz do que atuando, e Eddie Murphy que está em um de seus melhores momentos como o Burro Falante. Alguns conhecidos “Oh Yeah” apareceram, já que este é tipo um jargão conhecido do sem graça Austin Powers, principal personagem que Mike Myers interpretou. Por mais que seja esforçado, a voz brasileira do Shrek é de Bussunda, do Casseta e Planeta (que é semelhante ao Ogro até na aparência), que infelizmente não consegue ter o mesmo resultado de Mike Myers no original.

Outro detalhe que vale a pena comentar é a trilha sonora. Felizmente não é aquela coisa melosa ou infantil que a Disney costuma colocar em seus filmes, apesar ser muito bem vinda algumas poucas músicas do gênero. A Dreamworks adotou uma coisa mais hardcore, já que o seu filme é mais hardcore. A música “I’m a Believer”, originalmente cantada por Smash Mouth, dá um show e agita todo mundo que está assistindo ao filme. Principalmente quando vemos o Burro Falante (Eddie em estado de graça) cantando. Aliás, o Burro canta outras músicas durante o filme, o que deixa Shrek irritado. É como uma paródia com os filmes musicais da Disney. Muito bem bolada.

“Shrek” foi o grande vencedor do prêmio Annie, concedido pela Sociedade Internacional de Filmes Animados, na cidade de Glendale, EUA. O longa foi escolhido por Melhor Direção, Roteiro, Efeitos de Animação, Design, Montagem, Música e Voz Masculina (Eddie Murphy). No Festival de Cannes, ele foi à primeira animação a concorrer Palma de Ouro, depois de 27 anos (o último havia sido “O Mundo Selvagem” de 1974). Outra façanha que “Shrek” deixou marcada foi quando ganhou o Oscar de Melhor Animação, desbancando o divertidíssimo “Monstros S.A” da Disney e Pixar.

O filme custou US$ 60 milhões e teve um faturamento em pouco mais de U$ 482 milhões em todo mundo na venda de DVD, VHS e produtos ligados a “Shrek”. Em entrevista, Jeffrey Katzenberg disse que a divisão de animação da empresa esperava conseguir o tipo de arrasa-quarteirão que gera seqüências, vendas de brinquedos e outros produtos secundários. Parece que a produtora o conseguiu com “Shrek”.

Este longa faturou mais do que “O Príncipe do Egito”, “Formiguinhaz” e “A Fuga das Galinhas” (todos produzidos pela Dreamworks). Cada um desses três rendeu aproximadamente US$ 100 milhões em bilheterias nos EUA. O pessoal da Universal Studios Home Video tem motivo para comemorar, o filme, em DVD, vendeu 2,5 milhões de unidades em apenas três dias, quase metade de toda remessa inicial para distribuição prevista, gerando renda para o varejo de aproximadamente 110 milhões de dólares. Assombroso, não? Fazia tempo que não era lançado um arrasa-quarteirão que conseguisse tal êxito.