Críticas   segunda-feira, 28 de Março de 2005

Sob o Domínio do Mal

O filme tem atuações fantásticas e mostra como um presidente pode ser fabricado quando se tem um grande poder ($$) nas costas. Este filme faz você raciocinar não só o lado político, mas sim tudo que está a sua volta.

Um filme que tem Denzel Washington como protagonista merece uma atenção especial. Sou fã incondicionado dele e o acho praticamente acima da média. Recebeu o merecido Oscar de Melhor Ator por "Dia de Treinamento" (filmaço), Melhor Ator Coadjuvante por "Tempo de Glória" e já ganhou vários prêmios e indicações (sim, é importantíssimo ser indicado). Boa parte de seus filmes eu me identifiquei, seja por ele ser totalmente versátil nos seus papéis, como por emocionar ("Um Ato de Coragem”) sem fazer firula. Este americano de New York superou muitos problemas durante a carreira e um deles foi o preconceito racional. Hoje em dia ele é considerado um dos melhores atores de Hollywood.

Num ano em que estamos abarrotados de refilmagens, "Sob Domínio do Mal" poderia ser mais um a passar despercebido. O fato é que a refilmagem de filme homônimo de 1962 é que no papel principal tínhamos o excelente e saudoso Frank Sinatra. Isto já é uma grande diferença que muitos poderiam estranhar ou ignorar pela substituição por Denzel. O ponto chave do filme é você não se preocupar com as diferenças das versões (até porque eu não era nem projeto de vida em 1962) e sim com as semelhanças das versões (quem teve a oportunidade de assistir ao clássico, deve ter gostado).

Raymond Shaw (Liev Schreiber, frio e calculista) é um militar americano que, ao retornar da Guerra do Golfo, recebe as mais altas homenagens pelos seus atos de heroísmo. Mas em seu pelotão há incerteza de como tais atos de bravura foram cometidos e quando Bennett Marco (Denzel Washington, num excelente momento), seu oficial comandante e outro soldado começam a ter freqüentes pesadelos relacionados com a Guerra do Golfo, eles chegam à conclusão de que todo o pelotão foi submetido à uma lavagem cerebral e que o "herói" era na verdade um soldado, que tinha sido programado como assassino sem sentimento de culpa ou lembrança do seu crime (dois soldados mortos do seu batalhão na verdade tinham sido mortos pelo "herói", quando a ordem de matar foi dada a ele), tendo se tornado apenas uma peça controlada pelos inimigos.

Marco se questiona se os dois soldados que morreram no fogo cruzado não tiveram destinos bem mais terríveis que o oficialmente registrado, e se Shaw pode não ser o herói tão glorioso que todos pensam que é. Quando Raymond Shaw está prestes a se tornar o provável candidato à vice-presidência dos Estados Unidos – candidatura essa sob o controle de sua polêmica mãe, a senadora Eleanor Prentis Shaw (Meryl Streep)-, Marco é forçado a agir conforme manda a sua crescente suspeita. Com oficiais militares questionando a sua sanidade e a segurança se estreitando em volta de Shaw, Marco corre contra o tempo e mergulha o mais fundo que pode na mais inimaginável e chocante das verdades, antes que a Casa Branca tenha novos ocupantes.

Há algumas diferenças entre as versões, porém, não afeta em nada o clima criado em 1962, só enaltece mais ainda a história, principalmente porque quando o filme foi lançado nos EUA, estava na época das eleições presidenciais (no qual tivemos a lamentável vitória de Bush). A principal diferença é que no original Raymond Shaw (interpretado por Laurence Harvey) quando retornou da Guerra da Coréia (sim, no original era Coréia), ele foi trabalhar como jornalista e quando estava sob controle de uma orientação fascista, ele começou a cometer uma série de assassinatos. Porém ele não tem nenhum sentimento de culpa ou lembrança dos crimes. No caso do filme atual, ele é comandado por uma organização que teoricamente já trabalhou com os outros presidentes americanos (ressalta o fato de que todos eram controlados, uma crítica a mídia e as empresas que financiam as candidaturas).

Há alguns detalhes que podem ser observados se compararmos os dois filmes, mas não vale a pena comentar para não misturar as coisas, porque estamos tratando de dois filmes com a mesma idéia, mas com roteiros diferentes. O diretor Jonathan Demme foi muito feliz com o filme. Conseguiu colocar toda a idéia do clássico e inserir termos polêmicos e políticos sem comprometer a trama. O filme não se prende na política, o que o torna um ótimo entretenimento. Fiquei fascinado com a forma inteligente que o diretor mostrou os fatos e o decorrer da campanha a presidência de Shaw, sem ser pretensioso ou arrogante, mas com uma crítica feroz embutida para com o governo americano atual.

Vale lembrar de Meryl Streep, que faz a mãe de Shaw, dá um show de interpretação e faz bem o estilo de mãe manipuladora e ambiciosa. Para se preparar para o papel, Streep assistiu a vários talk shows políticos. Para evitar influências na composição da personagem, a atriz apenas assistiu a versão original de "Sob o Domínio do Mal" após a conclusão das filmagens. Ela disse que se inspirou em Margareth Thatcher para compor a sua personagem. "Usei até brincos, colares e tailleurs parecidos com os dela", disse. Thatcher firmou-se no imaginário popular como figura implacável e manipuladora.

O filme funciona como um ótimo entretenimento e faz com que você pense e se divirta ao mesmo tempo. Em algumas cenas da lavagem cerebral você pode lembrar de cenas religiosas que acontecem aqui no Brasil e mais uma vez ter a certeza que se não acabar, vamos acabar destruindo uns aos outros. Tenho quase certeza de que pelo menos um dos artistas desse filme será indicado há algum Oscar. Aposta em quem? Streep? Denzel? Hum …

Jurandir Filho
@jurandirfilho

Compartilhe

Saiba mais sobre

()

-

Roteiro:

Elenco:

Compartilhe