Críticas   quarta-feira, 07 de Fevereiro de 2018

Lady Bird – A Hora de Voar (2017): um aprazível conto feminino de passagem à vida adulta

Sem inovações ou fortes emoções, o filme de Greta Gerwig tem um roteiro sensacional e atuações ótimas, unidos a uma técnica competente, não precisando de mais para encantar.

Amadurecimento e passagem para a vida adulta: em inglês, filmes sobre esses temas são chamados “coming-of-age”, tendo como exemplo recente o maravilhoso “Boyhood: Da Infância à Juventude”. “Lady Bird – A Hora de Voar” é mais um aprazível conto desse tipo.

A protagonista do longa é Christine McPherson (Saoirse Ronan, de “Brooklin”), adolescente de personalidade forte que, terminando o ensino médio, cansada da vida em Sacramento, deseja ir para uma faculdade distante. Para atingir seu intento, Lady Bird – nome dado a ela por si mesma e pelo qual exige ser chamada – precisa tomar as providências necessárias e enfrentar sua rígida mãe, Marion (Laurie Metcalf, da série “The Big Bang Theory”). Enquanto isso, ela também vivencia o que esse período lhe reserva.

O roteiro da película é extraordinário, bastante inventivo e deveras inteligente ao partir da premissa segundo a qual “menos é mais”. Uma grande engrenagem narrativa do plot é a relação da protagonista com seus pais: de um lado, um pai afetuoso e que faz suas vontades; de outro, uma mãe cuja manifestação de carinho é cobrar muito da filha e não querer que ela se afaste da família. A identificação cinematográfica secundária para as moças provavelmente funciona impecavelmente. Lady Bird sabe que Marion a ama (e reconhece isso para o namorado), apenas tem uma genitora rígida justamente por amá-la bastante. A questão financeira ganha relevo: enquanto a filha gostaria de ter melhores condições, a mãe quer mostrar que a família está em dificuldades.

Entre amor platônico aluna-professor, mercado de trabalho, virgindade e futuro acadêmico, o texto encontra espaço para apontar o quão importante é o círculo de amizades de um adolescente. Quando Lady Bird começa a andar com Kyle (Timothée Chalamet, de “Me Chame Pelo Seu Nome”), ela muda muito, perdendo o que tem de mais potente, que é justamente a sua personalidade. Quando está com Danny (Lucas Hedges, de “Manchester à Beira-Mar”), pode ser quem realmente é; com Kyle, precisa mudar as amizades e fingir ser quem não é. Isso é reflexo dos dois garotos, que também são muito diferentes: Kyle tem mais atitude, Danny é mais ingênuo; este se dedica à atuação e é próximo à família (costuma estar acompanhado), aquele é independente e amadurecido (é mais solitário). O visual dos dois também é oposto: Danny tem cabelo mais claro e curto, Kyle tem cabelo escuro e longo; enquanto este usa roupas mais escuras e despojadas, aquele tem estilo mais formal e “certinho”.

O romance entre Danny e Lady Bird é meigo graças à palpável química entre Ronan e Hedges. Enquanto personagem, Kyle é menos desenvolvido que Danny, pois este tem um arco dramático bem delineado. O roteiro, acertadamente, não aprofunda nessa parte, pois formaria uma segunda narrativa dentro do plot. Danny aparece na medida ideal, afinal, o filme é da Lady Bird. Essa não é a primeira vez que Ronan brilha como a grande estrela de uma produção, porém, quando está em cena com Metcalf, o embate é de muita qualidade: as duas estão excelentes em seus papéis. A primeira, explosiva, é a típica adolescente revoltada e rebelde; a segunda, implosiva, atua no perfil da mãe que sabe o que é melhor para a filha. Arquétipos conhecidos, mas o enfoque feminino não costuma ser abordado.

O mérito é de Greta Gerwig (“Nights and Weekends”), roteirista e diretora da obra, cujo tato para simbolismos é fundamental no longa, a começar pelo seu nome, em sua ideia (metáfora da dama pronta – madura – para exercer a própria liberdade) e em sua exposição (as letras usadas no nome do filme evocam a religiosidade que nele está presente). Em uma escola (fervorosamente) católica, propositalmente surgem alguns paradoxos: para Gerwig, “em casa de ferreiro, o espeto é de pau”. Mesmo a cor do cabelo da protagonista é reflexo da sua personalidade ardente. Com elipses orgânicas, a narrativa se torna mais natural, pois a passagem do tempo é absorvida pelo contexto. Idolatrando a protagonista, a cineasta lhe dá uma entrada triunfal, sem deixar de lado sua humanidade, deixando Saiorse Ronan sem maquiagem, contrapondo a sua pele com a de outra atriz, bronzeada, como se ela fosse feia. A ideia é fazer de Lady Bird a representação da garota comum.

Gerwig não inovou com seu filme, uma comédia dramática sem fortes emoções, que tecnicamente é muito bom, mas ainda que distante de maravilhar. Contudo, “Lady Bird” tem um roteiro sensacional e atuações ótimas, unidos a uma técnica competente. Não precisou de mais para encantar.

Diogo Rodrigues Manassés
@diogo_rm

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Lady Bird – A Hora de Voar (2017)

Lady Bird - Greta Gerwig

Uma moça se muda para o estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e lá vive durante um ano. Amigos, amores e aventuras fazem parte de sua jornada em sua nova cidade.

Roteiro: Greta Gerwig

Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Stephen Henderson, Odeya Rush, Jordan Rodrigues, Marielle Scott, Jake McDorman, John Karna, Bayne Gibby, Laura Marano, Marietta DePrima, Daniel Zovatto, Kristen Cloke, Andy Buckley, Paul Keller

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