Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 07 de fevereiro de 2018

Eu, Tonya (2018): a imperfeição e a beleza da empatia sarcástica

Cinebiografias podem tanto usar o protagonista como elemento para a construção história, como serem uma bengala para destacar uma atuação. Enquanto o segundo caso se vale da pobreza narrativa, filmes que não tratam o biografado como deuses intocáveis e perfeitos assumem o risco de entregar um trabalho que vai além de uma indicação ao Oscar de melhor atuação.

Tão importante quanto o roteiro, a relação entre o público e o filme é dependente da forma como a história é contada. O comum são os diretores que se prendem demais ao texto e realizam trabalhos pouco memoráveis. Mais infeliz, é quando a obra é construída em função de um protagonista, tendo todo o restante como algo superficial. Afinal, um bom filme é a soma de personagens com suas motivações, que resultam numa trama convincente. A beleza que conduz “Eu, Tonya” está justamente em não colocar sua protagonista num pedestal, mas em tratá-la como um elemento narrativo.

O filme narra a vida da patinadora Tonya Harding (Margot Robbie de “Esquadrão Suicida”), de sua infância com a mãe dura, passando pelas competições internacionais, até chegar no incidente que a expulsou do esporte, envolvendo a patinadora rival Nancy Kerrigan (Caitlin Carver de “Regras Não Se Aplicam”).

O diretor Craig Gillespie (“Horas Decisivas”) é preciso ao contar a história de Tonya. Logo no começo, uma série de depoimentos com as personagens são exibidos, conferindo o estilo semidocumental da obra. Mas, fugindo do óbvio, as falas são narradas pelos próprios atores, o que permite ao filme a liberdade de não romantizar, nem demonizar os envolvidos. E por não se preocupar com a imperfeição da protagonista, Gillespie conta a história com tons de empatia sarcástica. A cada decisão moralmente questionável de Tonya, Margot Robbie surge em depoimento para comentar (sempre com ironia na voz) que aquilo não foi sua culpa. Mas o roteiro também se preocupa em não oferecer desculpas gratuitas. Se há certa malícia na fala, o drama da patinadora é alimentado cena à cena e ambos os elementos se complementam na medida certa.

Há ainda uma dedicação eficiente do diretor e4m não se agarrar demais à Tonya. Ela ocupa um papel importante numa história muito maior. Assim, o filme consegue abordar o abuso e a agressão domiciliar, o rigor excessivo em competições esportivas e o fetiche doentio da mídia pelo sensacionalismo barato, sem perder o foco na trama principal. Nada é gratuito e o que é mostrado serve para desenvolver a história e/ou as personagens. Ao mesmo tempo, há um diálogo com temas contemporâneos, sem a preocupação de defender esta ou aquela bandeira.

Ainda cabe observar como não há pena na forma como a protagonista é retratada. Ela é, naturalmente, resultado do meio em que vive. Da mãe rigorosa e agressiva – vivida magistralmente por Allison Janney (“A Garota no Trem”) -, do esporte ao qual se dedicou, do casamento precoce e violento e da sua classe social. Mas antes de começar a enxergá-la como vítima, o filme pontua momentos de arrogância e agressividade, colocando-a num patamar intermediário entre compaixão e desprezo. Ela tanto pode ser vista como uma consequência da violência que a criou, como alguém que se permite levar para o pior lado que uma competição pode chegar.

E tudo isso se torna ainda mais eficiente por conta da montagem milimetricamente elaborada. A rival, Nancy Kerrigan, por exemplo, tem uma participação pontual, porém sem pressa. Ela surge nos momentos que lhe cabem, mas sua construção é caprichosa – e, mesmo sendo tendenciosa, uma vez que é Tonya quem faz o último comentário sobre a adversária, é peculiar ao mostrar que mesmo uma pessoa que cresceu em condições melhores, pode ser moldada de forma agressiva pelo rigor da competição – e sarcástica. Há, também, uma beleza plástica nas cenas de patinação, que possuem cortes suaves para intercalar as cenas de acrobacia (sempre de longe com planos abertos ou com planos fechados mostrando os pés da patinadora) com as cenas em que a própria atriz está patinando. O resultado é artisticamente bonito, mas com um propósito narrativo.

O filme ainda possui uma trilha sonora que se comunica diretamente com o contexto, como na cena do primeiro beijo de Tonya e Jeff Gillooly (Sebastian Stan de “Logan Lucky: Roubo em Família”), quando “Romeo and Juliet”, da banda britânica Dire Straits, começa a tocar, indicando que a fama dela irá afetar o relacionamento dos dois. Ao mesmo tempo, a música compõe a construção de Tonya nos ringues de patinação, destacando-a das demais patinadoras (assim como suas roupas).

“Eu, Tonya” é um filme que se propõe a contar uma história trágica, mas sem se deixar levar pelo drama. É um trabalho cujo resultado é a soma de uma direção consciente, um roteiro sarcástico e atuações memoráveis (com destaque especial a Robbie e Janney). No final, não há mocinhos ou vilões. São camadas de conflitos e traumas que criam personagens tão reais, que fica fácil acreditar na existência deles. É a força real da humanidade que muitas vezes falta ao cinema.

Robinson Samulak Alves
@rsamulakalves

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