Críticas   segunda-feira, 27 de novembro de 2017

1922 (2017): Um agradável terror psicológico

O que mais se destaca no filme é a forma sutil, mas sem enrolação, que o roteiro utiliza para nos prender. Um terror que ganha força a cada cena e nos coloca dentro da mente de um personagem cada vez mais perturbado.

Adaptações de obras do Stephen King nem sempre são fáceis. O estilo normalmente prolixo das obras obrigam os roteiristas a fazerem escolhas que por vezes não funcionam muito bem no cinema. Existem diversas obras, porém, principalmente contos, que possuem uma narrativa direta. Dessa forma o roteiro pode se concentrar em quase todos os detalhes e acaba indo bem como adaptação. É o que acontece com “1922”.

A sinopse é bem simples, até. Trata-se de uma adaptação do conto de mesmo nome, presente na coletânea “Escuridão Total Sem Estrelas” e apresenta a história de um fazendeiro que decide assassinar a mulher para impedir que ela venda as terras que herdou do pai. Com o tempo, o peso do crime começa a atormentá-lo com visões da falecida esposa.

Um dos principais méritos aqui é conseguir ir direto ao ponto sem ser apressado. A história é narrada pelo protagonista, o fazendeiro Wilfred James (Thomas Jane, “Homens de Coragem”), e a primeira narração já nos deixa claro as circunstâncias do casamento dele com Arlette James (Molly Parker, “Pequenos Delitos”) e já nos entrega a motivação do crime. Mesmo que possa parecer um pouco forçado logo no início, conforme vamos conhecendo Wilfred passamos a entender sua decisão.

Aliás, o foco do filme não está nem no crime em si, mas nas suas consequências como o próprio protagonista comenta logo no início. Todo o sofrimento que o acompanha a partir do assassinato da mulher é o foco da história, principalmente a forma como o seu filho, Henry James (Dylan Schmid, da série “Shut Eye”), foi afetado. Nesse sentido, o diretor Zak Hilditch (“As Horas Finais”) consegue ser consistente. A forma como vamos vendo a progressiva transformação de Wilfred, de um homem forte e decidido para alguém que sente o peso do crime, é consistente e natural.

Tudo no filme segue a mesma lógica gradual. Os ratos que surgem para assombrar Wilfred ou a casa que vai sendo destruída aos poucos, tudo reforça a transformação destrutiva do protagonista. Pequenos elementos que não apenas o assombram, mas o acompanham em sua própria desgraça.

Há um pequeno excesso, ainda durante o primeiro ato, nas narrações em off do protagonista. Um artifício para ganhar tempo de tela – e que será muito bem aproveitado adiante – mas que não prejudica, no geral, o desenvolvimento do roteiro. Nos momentos em que Wilfred é assombrado pelo crime cometido, não há um narrador para nos dizer o que ele sente, o ator demonstra isso com muita eficiência. A cena do porão é particularmente perturbadora nesse sentido. Utilizando um argumento plantado momentos antes, o roteiro é extremamente eficiente em atingir o ápice deste terror (e aqui cabe um agradecimento ao próprio King por conseguir criar uma cena tão visualmente terrível, no melhor sentido, é claro), não por um susto fácil (coisa ausente no filme), mas por uma situação de delírio e extremo pavor.

Se o terror está nos detalhes, a mise-en-scène do filme consegue ser ao mesmo tempo discreta e extremamente funcional. Seja no vestido que está sempre ali, mas só chama a atenção no momento certo (quase como um fantasma aguardando o clímax para nos assombrar), seja no cenário da fazenda como um todo, discretamente desconfortável, como se houvesse a necessidade de haver mais uma pessoa naquele local, dona de cadeiras vazias e roupas deixadas ao acaso.

Sem dúvida, “1922” é um presente para o fãs de Stephen King, da mesma forma como é para quem gosta de um filme de terror que não se obriga a cair em convenções. Uma história sobre o pior que há numa pessoa e a forma como suas atitudes podem te afetar. Um filme ágil, perturbador e nada óbvio.

Robinson Samulak Alves
@rsamulakalves

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1922 (2017)

1922 - Zak Hilditch

Um fazendeiro confessa o assassinato da esposa. No entanto, esse é só o começo desta trama macabra inspirada em um livro de Stephen King.

Roteiro: Zak Hilditch

Elenco: Thomas Jane, Neal McDonough, Molly Parker, Dylan Schmid, Kaitlyn Bernard, Brian d'Arcy James, Bob Frazer, Patrick Keating, Graeme Duffy, Bruce Blain, Spencer Brown, Danielle Klaudt, Mark Acheson, Michael Bean, Bart Anderson, Tanya Champoux, Roan Curtis, Eric Keenleyside, Peter New, Anna Louise Sargeant

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  • Adem Tabosa

    Adoro as críticas do rapadura mas infelizmente essa foi muito infeliz esse filme é uma bomba, chato, lento e sonolento e muito óbvio. No máximo um já estaria de bom tamanho.

  • Madconstructor

    Também achei esse filme terrivelmente chato, nota 4.

  • Cido Marques

    Esse filme é um porre em nada lembra a grandiosidade de Stephen King, a Netflix anda fazendo filmes cada vez piores, estou pensando até em cancelar minha assinatura se não melhorar a qualidade.

  • Ernando Castro

    Eu gostei bastante. O que comprometeu minha experiência foi ter visto o trailer. Quem não viu o trailer, não veja!