Críticas   segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Polícia Federal: A Lei é Para Todos (2017): um erro não justifica o outro

Será que precisávamos de um longa sobre a Operação Lava-jato enquanto ela ainda acontece?! O filme escolhe rapidamente o seu lado.

Não há o que refutar, “Polícia Federal: A Lei é Para Todos”, apesar da negativa de seu diretor Marcelo Antunez (“Um Suburbano Sortudo”), é um filme político sim. É um longa que escolhe um lado e que utiliza todos os artifícios estéticos e narrativos para defender a sua posição. Contanto, fazer um filme político não é errado, irresponsável ou ilegal, vários longas importantes da história do cinema já fizeram isso, porém travesti-lo de longa ficcional, com alto foco em ação e não sendo claro quantos aos seus objetivos, isso pode sim ser considerado errado.

A trama fala sobre a operação lava-jato e seus desdobramentos, desde a apreensão de um caminhão repleto de drogas, à ligação dessa carga com doleiros já conhecidos da justiça e, consequentemente, à uma das maiores organizações criminosas que já foram deflagradas no mundo, com a participação de executivos de empresas de construção, estatais e políticos de praticamente todos os partidos. Um dos grandes deméritos da fita é que o foco da narrativa recai totalmente nos policiais federais integrantes da força tarefa que investiga, planeja e executa as fases da operação; no filme, são personagens baseados nos profissionais reais.

Existe um cuidado muito maior no desenvolvimento deste núcleo, afinal sabemos muito mais sobre a vida pessoal deles e de suas enormes provações para executar seus objetivos profissionais, em detrimento dos individuais. Um exemplo é o policial Julio Cesar (Bruce Gomlevsky, de “Elis”) que, além de investigar e coordenar as ações do grupo na operação, ainda precisa cuidar de sua mãe doente e também argumentar ideologicamente com seu pai, quem possui uma viés político “contrário” às suas ações na polícia. Entretanto, o núcleo dos “investigados” fica totalmente relegado e todos são retratados como meros arqui-inimigos de cartoon barato. Chega a ser hilária a construção de um grande vilão, uma espécie de “Darth Vader Tupiniquim”, com a figura controversa do ex-presidente Lula. Até as já conhecidas e inconvenientes piadas do velho político, aqui são retratadas como esporros e agressões perigosas aos arautos da lei.

Para nos levar no meandro dessa complicada empreitada e também para retratar personagens que nós conhecemos muito bem, já que estão por aí a todo momento nos noticiários brasileiros, era preciso recrutar um bom elenco que conseguisse suprir essa carga dramática e que ainda pudesse trazer uma certa autenticidade dos seus pares “reais” para a tela, e nesse quesito o filme também falha. Somente Antonio Calloni (“Faroeste Caboclo”) consegue dar alguma alguma dignidade ao seu personagem, o Ivan Romano, chefe da operação. O resto das interpretações beiram o ridículo… beiram não, porque o desempenho do grande ator Ary Fontoura (“Meu Amigo Hindu”) pode facilmente ser colocado no rol das piores retratações da história do cinema, como, mais um vez, o ex-presidente Lula. Outro que se destaca negativamente é o também já citado Bruce Gomlevsky, com uma atuação visivelmente acima do tom e, já que seu personagem é o mais desenvolvido, fica ainda mais claro o overacting sumário. Principalmente nas cenas de destempero – quase todas!

Trazendo algumas boas composições de cena e até uma bem vinda condensação da trama rocambolesca da operação real, que nos traduz com simplicidade e agilidade as vicissitudes das maracutaias empresariais e políticas do nosso país, Antunez se esforça, mas não consegue se desvencilhar dos chavões. Ele tenta, a todo momento, ostentar um suspense forçado e artificial, como na cena em que os policiais adentram à casa de um empresário, naquela hora uma grande ameaça. A cena é acompanhada de trilha aflitiva, chata e invasiva, até para acompanhar a captura de um mero telefone celular que “repousa” no banheiro.

Obstante de toda a polêmica gerada por retratar algo que ainda está ocorrendo e mesmo, relutantemente, não levando em consideração toda a carga político-partidária que o longa traz, “Polícia Federal:A Lei é Para Todos” ainda não se sustenta como filme. Não diverte, não informa e não surpreende. Agora, optando por mostrar tudo por um única orientação e não admitindo isso, os produtores e os “investidores secretos” do longa podem confundir o espectador, que consequentemente pode entender a história do filme como a verdade absoluta. E não é uma cena pós-créditos, ou um discurso pronto para entrevistas que irá mudar isso.

Rogério Montanare
@rmontanare

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Polícia Federal: A Lei é Para Todos (2017)

Polícia Federal - A Lei é Para Todos - Marcelo Antunez

Inspirado em fatos reais sobre a Operação Lava-Jato, uma série de investigações sobre a corrupção no Brasil, desde o início do processo até a condução coercitiva do ex-presidente Lula. Marcelo Serrado interpreta o juiz Sérgio Moro.

Roteiro: Thomas Stavros, Gustavo Lipsztein

Elenco: Marcelo Serrado, Ary Fontoura, Flávia Alessandra, Bruce Gomlevsky, João Baldasserini, Rainer Cadete, Roberto Birindelli, Leonardo Franco, Adélio Lima, Roney Facchini, Tadeu Aguiar, Leonardo Medeiros, Juliana Schalch, Sandra Corveloni, Samuel Toledo, Cris Flores, Iaçanã Martins, Genésio de Barros, Laura Proença, Beth Zalcman

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