Críticas   sexta-feira, 30 de junho de 2017

Grave (Raw, 2016): grotesco sem ser gore

Ao usar do canibalismo para mostrar o quão agressiva são as mudanças que as pessoas passam durante a juventude, a diretora consegue evitar clichês tanto em narrativa dramática quanto de terror

Em tempos de filmes de terror que apelam para os jumpscare (cenas nas quais o susto é motivado por um acontecimento repentino) para tentar forçar uma reação do público, filmes que nos obrigam a confrontar o terror de frente, tendo como apoio a própria trama, devem ser valorizados. “RAW” (no Brasil chega como “Grave“), filme que ganhou fama por fazer algumas pessoas desmaiarem durante uma exibição no festival de Toronto, está nessa categoria.

A trama acompanha Justine (Garance Marillier, de “Boys on Film 9: Youth in Trouble”), uma jovem vegetariana que irá começar a estudar veterinária na mesma faculdade que seus pais estudaram e onde sua irmã mais velha estuda. Num universo que se difere por completo de seu próprio mundo, introspectivo, Justine começa a se descobrir, porém nem todas as descobertas são fáceis, ou confortáveis.

O filme tem a direção e roteiro da novata Julia Ducournau. Em seu primeiro longa, Ducournau consegue transmitir toda a sensação de autodescoberta pela qual a maioria de nós passa na faculdade. A quebra entre a infância/juventude e a vida universitária e a forma como nos tornamos adultos é, para muitos, um rito. É o momento em que iremos definir o que seremos para o resto de nossas vidas e quando mostramos ao mundo quem nós realmente somos. Nesse contexto, o canibalismo é uma metáfora que ilustra o quão terrível podem ser nossas descobertas.

A expectativa dos primeiros dias de aula, o trote, os grupos da faculdade, o filme inteiro nos é apresentado em camadas de realidade que cena após cena vão se encaixando e formando o cenário complexo pelo qual Justine está passando. Sua irmã, Alexia (Ella Rumpf, de “Tiger Girl”), faz uma interessante ponte entre cada uma das descobertas que a protagonista vive, ao mesmo tempo é a ela que cabe a função, mesmo que involuntária, de despertar quem Justine realmente é.

Para uma diretora inexperiente, “RAW” é conduzido com maestria. Ducournau consegue intercalar belas panorâmicas com planos fechados, quase claustrofóbicos. A intimidade da protagonista é sentida, o que pode causar desconforto em alguns momentos. E, apesar do canibalismo, são em momentos do dia-a-dia que o público pode sentir o incômodo. Com exceção de duas ou três cenas (uma bem explorada, é preciso ressaltar), o filme não se utiliza do gore para chocar. A realidade vivida pela protagonista já é dura o suficiente para isso. O canibalismo é apenas uma liberdade poética.

Para não cair no grotesco pelo grotesco, Ducournau conseguiu amarrar muito bem o roteiro. Nada no filme está ali de graça, o que justifica até a mais pesada das cenas. O descobrimento de algo novo, principalmente quando se é jovem, pode ser extremamente prazeroso por quem vive a descoberta, mas pode parecer terrível para quem observa. Saber quais são nossos limites não é fácil, ainda mais quando se falta vivência. Mais um ponto para a diretora, que soube carregar tudo isso de forma equilibrada.

RAW” consegue entregar uma proposta interessante sem ser cafona ou cult. Apresenta uma construção criativa e tensa. A cada cena, a diretora não se apressa em mostrar o que está acontecendo. Cada detalhe é bem digerido por quem assiste, ao mesmo tempo que nada é entregue de forma gratuita. Mesmo não sendo um filme suave, é uma temática interessante, onde a novidade está na forma como a narrativa é construída e apresentada.

Robinson Samulak Alves
@rsamulakalves

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Grave (Raw, 2016)

Grave - Julia Ducournau

Justine (Garance Marillier) é uma jovem tímida e vegetariana, caloura na mesma faculdade de veterinária em que estuda sua irmã, Alexia (Ella Rumpf). Durante o trote, a menina é forçada a comer carne animal pela primeira vez e a ação provoca mudanças extremas em sua vida.

Roteiro: Julia Ducournau

Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella, Laurent Lucas, Joana Preiss, Bouli Lanners, Jean-Louis Sbille, Marion Vernoux, Thomas Mustin, Marouan Iddoub, Helena Coppejans, Denis Mpunga, Pierre Nisse, Alice D'Hauwe, Bérangère McNeese, Sophie Breyer, Virgil Leclaire, Benjamin Boutboul, Anna Solomin, Morgan Politi

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  • helena

    ótimo filme, as atuações nota10

  • Alef Carlôto

    Eu não queria colocar aqui o mesmo texto do Iradex, pra não ficar muito copy/ paste. Mas pra mim o que ele mais sofre é com atuação e estrutura, eu particularmente não me importei ou me senti fisgado por nenhum personagem, ele me deixou aquela sensação de decepção com o “que poderia ser”. Uma premissa extremamente forte e interessante com pontos de virada que são excepcionais, que movem a trama, mas o recheio é monótono, câmera burocrática, diálogos fraaaaacos. Você espera mais desenvolvimento e o elenco não ajuda. Há muitos filmes Franco/ Europeus que com premissas bem menos fortes e que te deixam muito mais chocados, estarrecidos e envolvidos (vide “Incêndios” de Villeneuve), faltou background, sei lá, parece que os atores não tiveram preparação ou só souberam do roteiro cena a cena, um peso enorme e uma carga emocional ali pra desenvolver e aquela apatia. Espero que faça sucesso suficiente pra ser refilmado, com um elenco de mais força.