Críticas   quarta-feira, 21 de junho de 2017

Colossal (2016): o monstro é maior do que parece

Com um tema sério, abordado de forma criativa e heterogênea, o longa é uma bela analogia sobre o livre arbítrio feminino e ao bestial sentimento de culpa atribuída a ele.

“Colossal” é um filme de camadas. À primeira vista, trata-se de uma comédia dramática sobre uma garota que não consegue lidar consigo e que possui uma “cópia” monstruosamente gigante de sua persona desestruturada atacando o outro lado do mundo. Porém, adentrando em suas demãos, percebe-se que os temas do longa são sérios e convergem para um assunto muito em voga nos dias de hoje: como a mulher se vê na sociedade atual e como ela é vista (julgada).

O plot, tão simples quanto bizarro, é uma alegoria muito bem criada pelo roteirista e diretor espanhol Nacho Vigalondo (“Perseguição Virtual”) para despistar e envolver o espectador no assunto que ele realmente quer tratar; o assédio moral e físico impetrado às mulheres. Nele, nós acompanhamos a desregrada vida de Gloria (Anne Hathaway, de “Interestelar”), que é expulsa pelo noivo (Dan Stevens, da série de TV “Legion”) do apartamento onde os dois moram em Nova York, por conta de seu “caos pessoal/ocupacional” e que resolve voltar à sua cidade natal, no interior dos EUA, para tentar se “reestruturar”. Pouco tempo depois e já falhando em sua empreitada, ela se assusta ao descobrir que um monstro gigante, que ataca diariamente a capital da Coréia do Sul, aparentemente está copiando seus movimentos. Utilizando uma metáfora absurdamente insana e ao mesmo tempo brilhante, o diretor transforma as atitudes de sua protagonista, mais a carga de culpa auto-atribuída durante toda a sua vida e também todas as cobranças e violências emocionais e físicas recebidas de terceiros, em uma estranha aventura Kaiju (cultura japonesa dos monstros gigantes) com direito a efeitos especiais baratos, porém charmosos.

Para a alegoria ser levada a sério era necessário que a produção tivesse um extremo cuidado com os elementos fantasiosos e, ao mesmo tempo, era indispensável que o elenco embarcasse na loucura e apresentasse uma verdade substancial, mesmo que isso resultasse em uma singularidade característica e, neste ponto, o diretor também acerta em cheio. Para tal, ele felizmente contou com uma Anne Hathaway muito estimulada e criando um persona extremamente realista, a de uma mulher em dúvida com as próprias convicções e que ainda não percebe a força que tem. De outro lado, ele também tem o ator Jason Sudeikis (“O Maior Amor do Mundo”), bastante conhecido por suas comédias, interpretando muito bem o amigo de infância da protagonista, que ficou “para trás” quando ela foi embora e que se mostra, logo de cara, como o “príncipe encantado” que “salvará” nossa heroína de sua vida desregrada. Como dito antes, porém, este é um filme de camadas e nada realmente é o que parece ser.

Infelizmente, se por um lado temos um grande mote e ótimas atuações, por outro temos uma acentuada falta de ritmo na história e, mais grave ainda, uma boba e descartável explicação para as inimagináveis invasões monstruosas e a ligação delas à personagem de Hathaway. Mesmo que ela exista para reforçar a heroicidade da protagonista, a cena soa mais como algo forçado, colocado somente para agradar a um público maior e não deixar perguntas em aberto que, por sua vez, cairiam muito bem nas possíveis, necessárias e eternas discussões pós-filme.

Dono de final forte, que reforça – apesar da tal elucidação dispensável – o injusto papel imposto para as mulheres nos dias de hoje e toda a carga de responsabilidade e culpa atribuída à elas, com um toque de girlpower muito bem vindo, o filme “Colossal” prova que assuntos sérios e importantes, podem e devem ser abordados com toda a força no cinema. Claro, caso estes sejam tratados da maneira certa e com a boa e velha criatividade em ação, até os monstros saem ganhando.

Rogério Montanare
@rmontanare

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Colossal (2016)

Colossal - Nacho Vigalondo

Gloria (Anne Hathaway) deixa Nova York e volta para sua cidade natal após perder o emprego e o noivo. Ao acompanhar as notícias sobre o ataque de um lagarto gigante a Seul, ela descobre que está misteriosamente conectada mentalmente ao evento. Para evitar novos casos parecidos e uma eventual destruição total do planeta, Gloria precisa controlar os poderes de sua mente e entender por que sua existência aparentemente insignificante tem tamanha responsabilidade no destino do mundo.

Roteiro: Nacho Vigalondo

Elenco: Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Tim Blake Nelson, Dan Stevens, Austin Stowell, Hannah Cheramy, Agam Darshi, Rukiya Bernard, Miho Suzuki, Sarah Surh, Nathan Ellison, Andrew Tait, Eoin Bates, Everett Adams, Maddie Smith, Jenny Mitchell, Alyssa Dawson, James Yi

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  • angela souza

    Mente aberta para os detalhes implícitos ,e filme para pensar depois dele e pensar muito

  • Alan Bitencourt

    Esse é um filme que eu estou querendo assistir, se eu não assistir nos Cinemas eu irei assistir em DVD.

  • Nem Pergunte

    Delirou legal nessa “análise”. Deve ter fumado uns 30 kg de maconha pra escrever tanta asneira…

  • Maikson Mendes

    me lembra a musica Yoshimi Battles the Pink Robot da banda The Flaming Lips, que faz a exata mesma alegoria.

  • marco

    “Injusto papel imposto às mulheres” “responsabilidade e culpa atribuídas à elas” será que não dá pra fazer crítica sem bobajadas esquerdistas e mimimis feministas? Que saco…