Críticas   sexta-feira, 31 de março de 2017

A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell (2017): competência sem revolução

A maior crítica que pode ser feita a esta versão live-action da franquia original pelo mangá de Masamune Shirow é o fato dela não ser tão revolucionária quanto suas predecessoras, embora seja um filme extremamente competente.

O mangá “Ghost in the Shell” foi criada em 89 pelo mangaká Masamune Shirow. A franquia viralizou graças ao clássico longa animado de Mamoru Oshii lançado em 1995 (com uma continuação em 2004), uma série em anime que durou duas temporadas e uma minissérie mais recente, intitulada “Arise”. Ou seja, é um universo que já foi mostrado em diferentes mídias e por diversos autores, tendo ainda influenciado todas as obras com temática cyberpunk desde seu lançamento, vide “Matrix” (Irmãs Wachoski, 1999).

Quando Rupert Sanders (de “Branca de Neve e o Caçador”) foi anunciado como diretor desta versão live-action, com Scarlett Johansson (“Lucy”) no papel da Major, as reações de ultraje por parte de alguns fãs por whitewashing foram tão pesadas que nem mesmo as declarações de apoio por parte do próprio Masamune Shirow foram suficientes para apaziguar a situação. Afortunadamente, esta versão hollywoodiana deste clássico japonês é extremamente respeitosa para com suas predecessoras, deixando a polêmica em segundo plano.

Na trama, em um futuro onde aprimoramentos cibernéticos nos seres humanos são corriqueiros, conhecemos a Major, uma jovem cujo cérebro fora implantado em um corpo artificial pela Corporação Hanka após um ataque terrorista. Agora líder de campo da Seção 9, equipe responsável por lidar com ameaças tecnológicas, a Major e seu grupo acabam tendo de lidar com Kuze (Michael Pitt, de “Boardwalk Empire”), criminoso que parece ter uma vendetta pessoal contra a Hanka, obrigando a Major a refletir sobre sua própria existência como uma ferramenta da empresa durante a caçada.

O roteiro de William Wheeler (de “Rainha de Katwe”) e Jamie Moss (“Os Reis da Rua”) aproveita elementos de praticamente todas as encarnações anteriores de “GitS”, mas os questionamentos mais filosóficos, certamente os grandes diferenciais da versão de 1995 e de sua continuação, foram um tanto minorados aqui, certamente visando uma audiência mais mainstream ocidental.

As próprias referências do longa são mais ocidentalizadas, com as obras literárias “Neuromancer” (William Gibson, 1984) e “Frankenstein” (Mary Shelley, 1818) sendo as mais reconhecíveis. Isso também se reflete na trilha sonora de Clint Mansell, que se aproxima mais do trabalho de Vangelis em “Blade Runner” (Ridley Scott, 1982) do que daquele feito por Kenji Kawai no anime de 1995 (a clássica “Making of a Cyborg” surge apenas nos créditos finais da produção, embora a cena onde a música tocou no anime original seja reproduzida fielmente aqui).

Os conflitos de identidade e realidade foram simplificados e centralizados na Major, tornando-a o ponto central do plot. Apesar da Major ter o nome de Mira Killian, sua versão Motoko Kusanagi está bastante viva na performance de Scarlett Johansson, surgindo de formas deveras inteligentes dentro da narrativa. Palmas para o cuidado da atriz com os detalhes físicos de sua personagem, dotada aqui de uma movimentação pesada e artificial, mostrando alguém que parece estranhar a própria pele sintética. No entanto, o aspecto sexual, justamente uma das formas que a Major tinha de explorar sua humanidade, é quase expurgado desta versão.

No entanto, permanece lá o carinho platônico entre a Major e seu parceiro, o gentil grandalhão Batou (Pilou Asbæk, de “Game of Thrones”), uma das poucas relações interpessoais mais íntimas da protagonista, importante para dar a Johansson alguém com quem ela possa se abrir. Ressalte-se ainda um vulnerável momento entre Johansson e a veterana atriz japonesa Kaori Momoi (“Memórias de uma Gueixa”), encaixado de maneira meio trôpega na narrativa, mas salvo pelo bom trabalho de interpretação das duas.

Michael Pitt cria um antagonista que funciona como o espelho da Major. Kuze é uma figura inacabada, um cérebro humano inserido em um protótipo imperfeito. As formas como Pitt interage com o ambiente respeita as limitações físicas de seu personagem, em uma composição vocal e física bem interessante.

Entretanto, a rivalidade entre Kuze e a Hanko acaba caindo em diversos clichês, especialmente por conta da companhia ser representada por um personagem tão exagerado como Cutter (Peter Ferdinando, de “No Topo do Poder”), um executivo que estaria em casa na OCP do “Robocop” de 1987. Mais afortunada foi Juliette Binoche (“Godzilla”) na criação da sua Dra. Ouelet, cientista que é a figura materna da Major, com Binoche e Johansson tendo oportunidade de desenvolver uma relação mais complexa entre suas personagens.

Outro destaque do elenco é o lendário ator e diretor Takeshi Kitano (“Brother”) como o estóico chefe Aramaki da Seção 9. Falando apenas em japonês, Kitano estabelece facilmente sua autoridade perante os demais atores apenas com sua forte presença em tela, roubando a cena sem esforço toda vez que surge em cena.

Visualmente, o filme é irrepreensível. Houve todo um cuidado por parte de Rupert Sanders em criar um mundo que abrangesse o detalhismo típico da obra de Masamune Shirow, mas que, ao mesmo tempo, dotasse está versão de uma identidade própria.

A paleta de cores é mais clara, mas há uma característica de pesadelo claustrofóbica naquele universo a medida que a história se aprofunda nele, especialmente nas cenas que mostram áreas menos favorecidas. O espartano alojamento da Major mostra o vazio de sua personalidade e contrasta com um apartamento dotado de maior calor humano que a personagem visita em dado momento ou com a opulência dos escritórios da Hanka.

Cenas como a luta na água e o embate com o Spider-bot são clássicas para os fãs e revisitadas aqui de um modo diferente, com Sanders se saindo muito bem na criação de setpieces interessantes, mesmo que longe de serem memoráveis. De fato, esse é maior defeito do filme: ele não é tão icônico como a animação de 1995 e certamente não terá o mesmo impacto na cultura pop que aquele longa, mas não deixa de ser uma produção competente e que honra a franquia da qual faz parte.

Thiago Siqueira
@thiagosiqueiraf

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A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell (2017)

Ghost in the Shell - Rupert Sanders

Major (Scarlett Johansson), é uma agente especial, uma ciborgue única, que lidera a força-tarefa de elite Seção 9. Dedicada a deter os mais perigosos criminosos e extremistas, a Seção 9 enfrenta um inimigo cujo único objetivo é destruir os avanços da HankaRobotic na tecnologia cibernética.

Roteiro: William Wheeler, Jamie Moss

Elenco: Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Michael Pitt, Chin Han, Lasarus Ratuere, Yutaka Izumihara, Tawanda Manyimo, Rila Fukushima, Michael Wincott, Anamaria Marinca, Daniel Henshall, Kaori Momoi, Peter Ferdinando, Christopher Obi, Danusia Samal, Mana Hira Davis, Adwoa Aboah

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  • Neemias

    Acabei de assistir, realmente os remakes das cenas clássicas do filme de 1995, deu um calafrio. Foi muito bom rever as cenas no filme.

  • Betotruco

    Boa critica. Certeira na menção do “Executivo se sentir em casa na OCP”(hehehehe). Nota generosa do Sicas.
    Mas no geral o filme diverte sim.
    Só não faz pensar como o anime.

  • Allan Prime

    Eu achei o filme muito bom, e concordo com a critica do Siqueira, realmente o filme não tão memorável quanto o original, mas eu esperava isso, esperava que o filme fosse ser um pouco mais pop do que reflexivo. E a proposito…queria trazer um questionamento aqui, será que o problema dos blockbusters em geral não o fato de serem filmes tão caros ? porque pra mim o problema desse filme e o mesmo problema do Robocop do José Padilha e possivelmente do Blade Runner 2049, são filmes muitos caros, devido a efeitos especiais (que nesse tão maravilhosos), o 3D, as Locações, Figurações, etc. E isso faz que filmes que deveriam ser profundos e questionadores como o Ghost in the Shell e o Robocop, acabem sendo filmes mais leves e divertidos, pois para justificar o alto investimento do filme, ele precisa atingir a maior parte do publico possível, para que então o filme se torne um sucesso de bilheteria (por isso devemos sempre ter Suspensão de Descrença em filmes Blockbusters), esse problema atinge também os filmes da Marvel, por exemplo, o Doutor Estranho, muita gente crítica esse filme por causa das piadas, dos alívios cômicos e por um ”potencial desperdiçado” mas acho que devemos levar em consideração que o filme quase custou 200 milhões de dólares para ser produzido, quando um estúdio investe um dinheiro desse é para ter lucro e isso é impossível se for agradar apenas uma parte do publico, por isso a Marvel tem uma formula para fazer filmes mais leves e divertidos que é capaz agradar adultos e crianças, para ter um risco minimo, porque os filmes deles são muitos caros, principalmente pelos efeitos especiais que tem. A gente hoje elogia Logan e Deadpool e dizemos que são os melhores filmes de super heróis já feitos, por seres filmes mais adultos e por serem violentos e etc, mas esses dois filmes são baratos para os padrões atuais, por o estúdio pode se dar o luxo de fazer um filme mais arriscado, por isso não acham que em filmes Blockbsters a gente tem que pegar leve um pouco com as criticas ?…enfim esse é o questionamento que queria trazer aqui

  • Gelo

    Sou absolutamente fã da serie original (em especial o Innocense) e torci o nariz para o “whitewashing”, e fui muito apreensivo pro cinema. Não criei expectativas pra evitar o qje passei com SuicideSquad… E me surpreendi completamente!! O filme está maravilhoso e respeita em muito todo o legado do original. Concordo com toda a critica do Siqueira, em especial o “abrandamento filosofico” e adiciono que o personagem “realmente humano” Kusanagi não teve tanto espaço como no original. Mas amei o filme. Indico tanto aos fãs, como eu, quanto aos que não conhecem. Ja quero o DVD original pra minha coleçao o/

    • Gelo

      Obs: Me enganei. Togusa é o personagem humano… Acho que ainda estou tonto kkkkkkk #shameonme

  • cristian

    Filme muito sincero e bem feito, cenas bem filmadas e bem caracterizados, se não empolga a ponto de gelar a espinha no cinema também não deixa ninguém constrangido, pelo contrário, garante boas cenas e fecha a história da Major de forma muito digna.

  • Volcof

    Parabéns Sicas, por mais uma boa cobertura.
    Confesso que esperava muito da adaptação e saí ainda mais surpreso. Achei muito eficiente!
    E somando ao debate que seu texto invoca, traria mais dois ou três elementos: o primeiro, diz respeito aos adicionais que o roteiro traz à história original: antes de inchá-la com sequências desnecessárias, elas constroem um bom acabamento explicativo aos espectadores menos familiarizados com o mangá, como o núcleo da dra. Oulet e a explicação visual de Mira ser Motoko. O segundo diz respeito aos simbolismos: achei muito inteligente, em pelo menos duas passagens, o uso sutil da linguagem simbólica: na cena do atentado à Oulet a rádio do carro toca La Mamma Morta, com Maria Callas que, para quem viu FIladélfia, é uma música sobre a morte da mãe (Oulet sendo a mãe simbólica de Mira) e sua filha vendo o incêndio consumir sua casa (tal como com glitches de Mira). O terceiro é o símbolo de Adão e Eva no combate final contra o spider-bot; o cenário do galpão abandonado na história original foi adaptado para a “Zona Sem Lei” e no meio do ambiente havia uma imensa árvore, que emulava a árvore do éden. Motoko e Hideo são, aqui, os novos Eva e Adão.
    Por fim, somado o preciosismo visual – que adiciona debates sobre “vivermos em bolhas tecnológicas” e resistência digital – ao poder que essa história original traz, acho que essa adaptação ainda renderá muitas revisitas pelos estudos de cinema ao longo dos anos. Muito satisfatório!

  • Alan Bitencourt

    Esse é um filme que eu quero assistir.