Críticas   sábado, 28 de Janeiro de 2017

Até o Último Homem (2016): Nascido Para Matar encontra Cartas de Iwo Jima

Após 10 anos de hiato, Mel Gibson volta ao posto de diretor com "Até o Último Homem" para contar a história do soldado que não queria usar armas durante a Segunda Guerra Mundial.

Desmond Doss, era um jovem adventista que sonhava em ser médico do exército. Porém, para realizar esse sonho, ele teria que fazer com que o exército dos Estados Unidos, em plena ofensiva no Pacífico na Segunda Guerra, aceitasse um soldado que, por conta de sua orientação religiosa, se recusa a utilizar armas de qualquer natureza. Essa pequena premissa, que tem amplitude suficiente para preencher até mesmo um seriado com vários episódios, torna-se ainda mais intrigante quando aprendemos que esta é uma história real, de um homem que, sozinho, salvou dezenas de companheiros na sangrenta batalha da cordilheira de Hacksaw, em Okinawa, em 1945. Agora, provando que mais importante que saber como uma estória termina é como ela acontece, esta narrativa ganha vida pelas mãos de Mel Gibson (“Apocalypto”), depois de um longo hiato de dez anos na carreira de diretor, apoiado no roteiro escrito a quatro mãos por Robert Schenkkan (“The Pacific”) e Andrew Knight (em seu primeiro trabalho relevante).

O filme tem início no meio de um violento combate, cortado rapidamente por um curto flashback, para conhecermos suas relações familiares e como a religião passou a ter uma influência tão forte sobre ele desde a infância, para depois termos contato com Desmond já na idade adulta (aqui interpretado por Andrew Garfield). Neste primeiro ato, a trama se aprofunda no desenvolvimento do protagonista com uma grande riqueza de detalhes, desde a sua “epifania” em que descobre sua vocação, ao seu primeiro contato com Dorothy (Teresa Palmer, de “Meu Namorado é um Zumbi”), aquela que viria a ser sua esposa, até a conturbada relação com o pai, o veterano da Primeira Guerra, Tom Doss (Hugo Weaving, de “V de Vingança”).

Quando chegamos ao seu período de treinamento no exército há uma grande ênfase na resiliência de Desmond, tanto para superar a dureza dos treinamentos quanto para enfrentar as reações de todos a seu redor contra suas convicções ideológicas e religiosas. O roteiro é repleto de bons diálogos, em que todas as partes envolvidas (Desmond, seus superiores, sua família e sua esposa) tem bons argumentos para se oporem, evitando assim a saída fácil de fazer juízo de valor, a favor ou contra de tais convicções. Em contraponto a isso, o texto faz uso de diversos clichês do gênero, como o sargento desbocado que gosta de humilhar os soldados (aqui interpretado por um aparentemente desconfortável Vince Vaughn, de “Os Estagiários“) ou as várias etnias e estereótipos misturadas no pavilhão dos soldados (em um batalhão que, curiosamente, não tem um único soldado negro).

Que Mel Gibson é um diretor talentoso, com obras interessantes e um grande clássico no currículo, é quase um senso comum. E ele traz para “Até O Último Homem” muito daquilo que o consagrou como realizador em “Coração Valente”. As caóticas sequências de batalha são de tirar o fôlego, num ritmo tão intenso que será capaz de prender até o mais frio espectador na poltrona durante as várias explosões, tiroteios, disparos de lança-chamas, granadas, bombardeios e muitos, muitos sacrifícios. O cineasta tem tal domínio daquilo que quer mostrar em tela que mesmo quando não faz uso de sua típica (e muitas vezes exagerada) câmera lenta, somos capazes de compreender com detalhes tudo que se passa com tantos personagens. E a carnificina, inerente ao gênero, se encaixa como uma luva nos gostos cinematográficos de Gibson. Há momentos capazes de rivalizar com algumas das sequências mais impressionantes dos maiores exemplares do gênero, como “O Resgate do Soldado Ryan”, “Platoon” ou “Cartas de Iwo Jima”.

A direção de fotografia chama a atenção pelas composições quase monocromáticas das cenas, com uma paleta de cores que varia entre tons neutros e militares, como cinza, cáqui, verde escuro e bege. Os únicos momentos em que tais cores não são exploradas, são aqueles com escuridão quase total ou quando as labaredas de fogo se multiplicam nos combates. Além disso, vale ressaltar outro grande mérito: o de fugir do já batido tom dessaturado que se tornou quase padrão em filmes de guerra desde “O Resgate do Soldado Ryan”.

Se tecnicamente, com uma montagem eficiente e elementos sonoros realistas e bem equalizados o filme é primoroso, fica um pouco desequilibrado ao falarmos das atuações. Além do já citado Vince Vaughn, não chega a ser surpresa que Sam Worthington (“Avatar“) entregue uma performance tão fraca. Teresa Palmer e Rachel Griffiths (da série “Six Feet Under“) fazem o que podem com o pouco espaço em tela que recebem. Contudo, tais defeitos somem diante de Hugo Weaving e Andrew Garfield (“O Espetacular Homem-Aranha”). Weaving tem uma performance tocante como o maltratado e alcoólatra veterano de guerra, que visivelmente se utilizou da bebida para tentar esquecer os horrores e traumas que vivenciou. O ator brilha em todos os momentos que surge, ofuscando todos a seu redor com tamanha riqueza de detalhes com que compõe cada momento de sua atuação.

Já Andrew Garfield ocupa seu papel de protagonista com louvor. Ele constrói um arco completo, desde o jovem adulto bondoso e apaixonado até o forte e íntegro soldado veterano de guerra, sempre imerso no sotaque caipira e olhar ingênuo. Os únicos momentos que tiram a ingenuidade desse olhar são a frustração por ser constantemente colocado na posição de escolher entre sua fé e sua vocação ou a plenitude que ele alcança a cada vida que consegue salvar.

Talvez o tema “Segunda Guerra” comece a cansar o público, porém, cada vez que somos presenteados com um filme tão bem realizado, é fácil compreender porque é um assunto tão explorado pelo cinema, especialmente em Hollywood.

David Arrais
@davidarrais

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Até o Último Homem (2016)

Hacksaw Ridge - Mel Gibson

Andrew Garfield vive Desmond Doss, um soldado médico que participou da Segunda Guerra Mundial e salvou vidas sem disparar um tiro sequer. Baseado em uma história real.

Roteiro: Robert Schenkkan

Elenco: Andrew Garfield, Sam Worthington, Vince Vaughn, Luke Bracey, Teresa Palmer, Hugo Weaving, Rachel Griffiths, Ryan Corr, Richard Roxburgh, Luke Pegler, Firass Dirani, Goran D. Kleut, Nathaniel Buzolic, Ori Pfeffer, Matthew Nable, Jacob Warner, Richard Pyros, Ben Mingay, Harry Greenwood, Damien Thomlinson

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  • Jefferson Carvalho Cardozo

    Filmão…

  • Jefys L

    o melhor de 2017 acabei de ver…se não for o melhor…com certeza é top 5…pq ultimamente só fazem continuação desnecessária e demais porcarias..Mel gibson pode ser excentrico ,mas não é burro..ainda manja muito em direção;;;…

  • Jon Snow

    http://www.cpb.com.br/produto/detalhe/16006/soldado-desarmado

    Esse é o livro do filme meus amigos. Livro muito bom, estou lendo e recomendo. o frete é gratis para todo Brasil, e o preço ta muito bom.

  • Ednardo Curisco

    Diferenças entre a história real e a do filme:

    a) Ele não impediu o pai de matar a mãe. A mãe dele impediu o pai de matar o cunhado. O Desmond viu quase tudo e teve que se livrar da arma para a polícia não prender o pai.
    b) Ele conheceu a esposa na igreja.
    c) Ele teve mais problemas devido à guarda do sábado que devido a não usar armas.
    d) os oficiais realmente queriam se livrar dele. Não chegou a ter corte marcial. Mas ele ia mesmo ser expulso por ser ‘doido’. ele realmente se recusou a ser expulso por isso. Foi salvo pelos seus pais, mas de outro jeito: eles ligaram para os representantes dos Objetores Conscientes no Congresso Americano que pressionaram os comandantes do campo de treinamento;
    e) A batalha do filme não foi a primeira que ele participou. ele já estava a uns 6 meses em guerra. Já tinha feito outros atos heróicos e já tinha medalha de bronze. Entre os atos está puxar colegas a menos de 7 metros de ninhos de metralhadora, descoberto, e puxar colegas feridos por quase 1km em campo aberto debaixo de bala.
    f) Houve uma troca na sequência de fatos. A vez que ele fez oração pelo batalhão foi ANTES da batalha do filme. Neste dia ninguém morreu.
    g) O dia da batalha principal do filme era sábado. Adventistas podem e devem fazer muitas cosias ao sábado, mas coisas em bem do próximo e de louvor a Deus. Ele já tinha saído várias vezes em missão aos sábados.
    h) na história real, ele vivia cansado. Era uma tuberculose que ele não sabia que tinha. Para ele, todo esforço era dobrado.
    g) Desmond foi um dos soldados que armou aquele rede de navio enorme que os soldados usaram para escalar o paredão.
    h) Ele achava que salvara só uns 50, o seu comandante achou que uns 100. O exército americano fez a média de 75.
    i) ele ficou cerca de 5 horas sozinho descendo cada um dos homens.
    j) Ele realmente chutou uma granada e arrebentou a perna. mas foi 2 semanas depois deste episódio do filme. Enquanto era levado de maca, deu lugar a outro soldado pior que ele. enquanto caminhava apoiado num fuzil, levou um tiro de um sniper japonês, arrebentando o braço. aí sim ele foi levado de maca.
    k) ele perdeu a bíblia na batalha. mas só foi entregue a ele algumas semanas depois. os soldados souberam disso e o batalhão fuçou tudo até achá-la.
    l) ele ficou 5 anos de hospital em hospital se cuidando. além dos ferimentos de guerra, tinha a tuberculose que o fez perder um pulmão. Os antibióticos que tomou, então ainda experimentais, o deixaram surdo progressivamente.
    m) tem sites e alguns livros com a história dele. é realmente inacreditável o que ele fez.

    • Maicon

      foda… valeu por mostrar esses pontos… eu realmente gostei muito desse filme, eles quiseram adaptar bastante e acho que o resultado foi satisfatório, mas com certeza comparado a história original é pouco… como o david disse, um seriado seria o ideal… mas realmente to feliz com esse filme

    • Jefys L

      valew por compartilhar os reais fatos X versão mel gibson..é sempre bom agregar conhecimento …mais uma vez obrigado jovem…

    • Rodrigo M

      Tinha lido algumas aqui
      http://www.historyvshollywood.com/reelfaces/hacksaw-ridge/

    • Roberto Jr. Gilnei

      “na história real, ele vivia cansado. Era uma tuberculose que ele não sabia que tinha. Para ele, todo esforço era dobrado.” Caramba! Isso faz do feito dele ainda mais épico!

      • Ednardo Curisco

        O Mel Gibson mandou cortar diversas coisas no filme porque se não iam dizer que ele tinha exagerado. ele ‘diminuiu’ o heróismo do Desmond.

  • Tâmara Moreira

    Há muito temo eu não via um filme tão bom… O tempo voou.. Entrou para o hall de melhores filmes da minha vida.
    Mel Gibson tem uma mente incrível, que maestria na direção… As cenas de luta são sufocantes… Excelente filme, de fato o considero já o melhor de 2017.

  • Matheus Siavo

    Um dos melhores filmes que já assisti na minha vida. Não vejo motivo para não ter uma nota maior que 8.

  • mais uma vez, um filme que não veio para minha cidade