Críticas

Clock sábado, 07 de janeiro, 2017 - às 01h12

Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016): drama sem melodrama, tragédia sem comédia

Como filme, não há inovação, mas a experiência do drama fantástico é valiosa em sua mensagem. Apesar de previsível, o plot tem contundência no trágico discurso.

Diogo Rodrigues Manassés twitter.com/diogo_rm
por Diogo Rodrigues Manassés
07/01/2017 - 01:12

Não são raras as obras em que o drama caminha em direção a um melodrama piegas – se trágico, abusa do humor para mitigar a tristeza. Não é esse o caso de “Sete Minutos Depois da Meia-Noite”, extremamente triste e sem concessões do gênero drama.

O enredo tem por metodologia o uso de uma fantasia para tratar da tristeza. O protagonista, Conor (Lewis MacDougall, “Peter Pan“), é uma criança que precisa enfrentar dois grandes problemas na sua vida: bullying na escola e familiares que não conseguem dar o afeto que ele deseja – um pai (Toby Kebbell, “Ben-Hur”) ausente, uma mãe (Felicity Jones, “Rogue One”) em fase terminal de uma grave doença e uma avó (Sigourney Weaver, “Alien, o Oitavo Passageiro“) muito severa e nada carinhosa. Conor passa a ter sonhos com uma gigantesca e monstruosa árvore, que lhe impõe um trato: o garoto deve ouvir três contos narrados por ela, em troca, deve narrar a sua história para a árvore. O andamento das conversas tem consequências ruins para a vida de Conor, todavia, são elas que permitem a ele lidar com os desafios.

Paira uma atmosfera taciturna na película, iniciando-se com o anúncio de se tratar da história de um garoto “velho demais para ser criança e muito novo para ser um homem”. De fato, a tenra idade de Conor é suficiente para comover o espectador. Se sua mãe morrer, quem poderá cuidar do menino? A avó, com quem ele tem um relacionamento ruim? O pai, que mora longe e não se mostra disposto a assumir a responsabilidade? Fúnebre, “A Monster Calls” (nome original, mais poético e menos literal quando comparado ao brasileiro) não é nada acolhedor ou reconfortante. De falas emblemáticas – “as pessoas não gostam do que não entendem”; “as pessoas preferem mentiras calorosas a verdades dolorosas”; “nem sempre há um mocinho, nem sempre há um vilão; a maioria das pessoas está no meio”; e “o amor não é o bastante” – a retratos dolorosamente reais (a perseguição escolar, o sofrimento de uma pessoa em tratamento médico etc.), a fita não quer ser apaziguadora.

O diretor J. A. Bayona evolui em relação ao seu trabalho anterior, o superestimado “O Impossível”. A despeito de não excluir os clichês do drama (a chuva enquanto representação da tristeza, por exemplo) e de alguns momentos que sugerem destruição como escapismo infantil, a estética do filme é primorosa. A direção de arte acerta no(s) cenário(s): uma cidade cinzenta e nublada; um monstro que reside em um local bastante sugestivo; o quarto de Conor repleto dos seus desenhos nas paredes; uma residência tradicional britânica (artefatos de cerâmica, paredes e mobiliário em tons pastéis, relógios antigos). Também é certeira na caracterização das personagens, em especial a mãe e o Monstro.

Felicity Jones, em interpretação comedida como tinha de ser, ostenta penteado e maquiagem condizentes com uma pessoa naquele estado de saúde – e o ator mirim Lewis MacDougall tenta ensinar atuação para Toby Kebbell, provavelmente em vão (perdoável, já que Sigourney Weaver também não está inspirada). Por sua vez, o Monstro é uma atração à parte: lições edificantes (ainda que duras), ótimos efeitos visuais e a voz imponente de Liam Neeson (“Busca Implacável”). Agressivo (mas solidário), sábio (mas assustador), a voz de Neeson e os olhos expressivos fazem da personagem o que o longa tem de mais marcante – além do seu discurso, que chega a invocar Platão (mundo sensível versus mundo inteligível). O Monstro acompanha o design de produção sombrio (em viés diverso do de Tim Burton), afastando-se do carisma e da simpatia de Groot (“Guardiões da Galáxia”), visualmente similar, e de BFG (“O Bom Gigante Amigo”), funcionalmente semelhante. O ápice visual da película reside justamente nos efeitos visuais, em especial nas maravilhosas animações que simulam aquarela (destaque também para a montagem nesses momentos, que adota um elemento de um plano como conectivo para o seguinte).

O objetivo do filme não foi reinventar a roda; na verdade, o plot é previsível por completo. Porém, é inegável a sua contundência: por maior que seja o sofrimento resultante, a verdade é inafastável e aceitá-la é o melhor caminho. Também é preciso mencionar a fidelidade em relação às próprias premissas, jamais cedendo para atenuantes dramáticas ou pieguices hollywoodianas. Se não é um filme muito inovador, o drama fantástico é uma experiência valiosa em sua mensagem.

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  • Manolo Carvalho

    Estou querendo ver ha muito tempo este filme. Que seja bom como soa.