Críticas   sábado, 07 de janeiro de 2017

Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016): drama sem melodrama, tragédia sem comédia

Como filme, não há inovação, mas a experiência do drama fantástico é valiosa em sua mensagem. Apesar de previsível, o plot tem contundência no trágico discurso.

Não são raras as obras em que o drama caminha em direção a um melodrama piegas – se trágico, abusa do humor para mitigar a tristeza. Não é esse o caso de “Sete Minutos Depois da Meia-Noite”, extremamente triste e sem concessões do gênero drama.

O enredo tem por metodologia o uso de uma fantasia para tratar da tristeza. O protagonista, Conor (Lewis MacDougall, “Peter Pan“), é uma criança que precisa enfrentar dois grandes problemas na sua vida: bullying na escola e familiares que não conseguem dar o afeto que ele deseja – um pai (Toby Kebbell, “Ben-Hur”) ausente, uma mãe (Felicity Jones, “Rogue One”) em fase terminal de uma grave doença e uma avó (Sigourney Weaver, “Alien, o Oitavo Passageiro“) muito severa e nada carinhosa. Conor passa a ter sonhos com uma gigantesca e monstruosa árvore, que lhe impõe um trato: o garoto deve ouvir três contos narrados por ela, em troca, deve narrar a sua história para a árvore. O andamento das conversas tem consequências ruins para a vida de Conor, todavia, são elas que permitem a ele lidar com os desafios.

Paira uma atmosfera taciturna na película, iniciando-se com o anúncio de se tratar da história de um garoto “velho demais para ser criança e muito novo para ser um homem”. De fato, a tenra idade de Conor é suficiente para comover o espectador. Se sua mãe morrer, quem poderá cuidar do menino? A avó, com quem ele tem um relacionamento ruim? O pai, que mora longe e não se mostra disposto a assumir a responsabilidade? Fúnebre, “A Monster Calls” (nome original, mais poético e menos literal quando comparado ao brasileiro) não é nada acolhedor ou reconfortante. De falas emblemáticas – “as pessoas não gostam do que não entendem”; “as pessoas preferem mentiras calorosas a verdades dolorosas”; “nem sempre há um mocinho, nem sempre há um vilão; a maioria das pessoas está no meio”; e “o amor não é o bastante” – a retratos dolorosamente reais (a perseguição escolar, o sofrimento de uma pessoa em tratamento médico etc.), a fita não quer ser apaziguadora.

O diretor J. A. Bayona evolui em relação ao seu trabalho anterior, o superestimado “O Impossível”. A despeito de não excluir os clichês do drama (a chuva enquanto representação da tristeza, por exemplo) e de alguns momentos que sugerem destruição como escapismo infantil, a estética do filme é primorosa. A direção de arte acerta no(s) cenário(s): uma cidade cinzenta e nublada; um monstro que reside em um local bastante sugestivo; o quarto de Conor repleto dos seus desenhos nas paredes; uma residência tradicional britânica (artefatos de cerâmica, paredes e mobiliário em tons pastéis, relógios antigos). Também é certeira na caracterização das personagens, em especial a mãe e o Monstro.

Felicity Jones, em interpretação comedida como tinha de ser, ostenta penteado e maquiagem condizentes com uma pessoa naquele estado de saúde – e o ator mirim Lewis MacDougall tenta ensinar atuação para Toby Kebbell, provavelmente em vão (perdoável, já que Sigourney Weaver também não está inspirada). Por sua vez, o Monstro é uma atração à parte: lições edificantes (ainda que duras), ótimos efeitos visuais e a voz imponente de Liam Neeson (“Busca Implacável”). Agressivo (mas solidário), sábio (mas assustador), a voz de Neeson e os olhos expressivos fazem da personagem o que o longa tem de mais marcante – além do seu discurso, que chega a invocar Platão (mundo sensível versus mundo inteligível). O Monstro acompanha o design de produção sombrio (em viés diverso do de Tim Burton), afastando-se do carisma e da simpatia de Groot (“Guardiões da Galáxia”), visualmente similar, e de BFG (“O Bom Gigante Amigo”), funcionalmente semelhante. O ápice visual da película reside justamente nos efeitos visuais, em especial nas maravilhosas animações que simulam aquarela (destaque também para a montagem nesses momentos, que adota um elemento de um plano como conectivo para o seguinte).

O objetivo do filme não foi reinventar a roda; na verdade, o plot é previsível por completo. Porém, é inegável a sua contundência: por maior que seja o sofrimento resultante, a verdade é inafastável e aceitá-la é o melhor caminho. Também é preciso mencionar a fidelidade em relação às próprias premissas, jamais cedendo para atenuantes dramáticas ou pieguices hollywoodianas. Se não é um filme muito inovador, o drama fantástico é uma experiência valiosa em sua mensagem.

Diogo Rodrigues Manassés
@diogo_rm

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Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016)

A Monster Calls - J.A. Bayona

Conor é um garoto de 13 anos de idade, com muitos problemas na vida. Seu pai é muito ausente, a mãe sofre um um câncer em fase terminal, a avó é uma megera, e ele é maltratado na escola pelos colegas. No entanto, todas as noites Conor tem o mesmo sonho, com uma gigantesca árvore que decide contar histórias para ele, em troca de escutar as histórias do garoto. Embora as conversas com a árvore tenham consequências negativas na vida real, elas ajudam Conor a escapar das dificuldades através do mundo da fantasia.

Roteiro: Patrick Ness

Elenco: Sigourney Weaver, Felicity Jones, Toby Kebbell, Lewis MacDougall, Liam Neeson, Geraldine Chaplin, Jennifer Lim, James Melville, Lily-Rose Aslandogdu, Dominic Boyle, Max Gabbay, Oliver Steer, Ben Moor, Frida Palsson

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  • Manolo Carvalho

    Estou querendo ver ha muito tempo este filme. Que seja bom como soa.

  • SegundoHC

    filme muito bom, e a forma que é passado a realidade dos fatos para o personagem foi bastante legal!

  • Uma indicação, desta vez de um dos meus melhores amigos. Sou daqueles que ama quando indicam filmes, porque adoro indicar também, eu vou lá e assisto mesmo, passo até na frente dos que eu já tinha anotado para assistir, mesmo o filme sendo ruim (ou não !). Confesso que enrolei um pouco para assistir, e me arrependo. Além disso, todas as circunstâncias que envolvem a história do filme me deixaram bem mal no seu final, chorei duas vezes inclusive (falo mesmo!). Não aconselho assistir acompanhado, este tipo de filme o melhor a fazer é assistir sozinho para chorar e refletir muita coisa, quase o julguei pela capa e não assisti, teria sido uma heresia incalculável. Se você já assistiu Ponte para Terabítia e Labirinto do Fauno com certeza vai gostar, confiram a rezenha crítica Sete Minutos Depois da Meia-Noite.

    A história é sobre Conor é um garoto de 13 anos de idade, com muitos problemas na vida, “um garoto velho demais para ser uma criança e jovem demais para ser um homem”. Seu pai é muito ausente além de rejeitálo, a mãe sofre um câncer em fase terminal, a avó é uma megera que o odeia e ele é maltratado na escola pelos colegas.

    Toda a noite, exatamente meia noite e sete (sete minutos depois da meia noite!) Conor tem o mesmo pesadelo, entretanto desde que o filme começa uma árvore em forma humana começa a conversar com ele, contando histórias trágicas em troca de uma história verdadeira de Conor. De início o menino exita, ainda sim a árvore forçadamente começa a contar suas histórias de vida, todas com finais trágicos causando um choque de sentimentos no garoto deixando-o bem confuso. As histórias são animadas como se fossem em aquarela,e são todas belíssimas, apesar dos desfechos.

    A cada história somos imergidos em mundos fantásticos, totalmente diferentes um do outro conforme a história da árvore/monstro. O melhor de tudo é que a partir da segunda história começamos a notar que tudo que se passa ali na verdade é uma visão distorcida da vida de Conor e de uma forma bem implícita está a forma como ele deve agir para não continuar “se fudendo”, tudo, através da fantasia. Tanto que isso o próprio monstro deixa bem claro a Conor quando explica os reais motivos para sua aparição, que na verdade ele não veio para curar a mãe, e sim o menino. Muito foda!

    Uma curiosidade é que Liam Neeson (Busca Implacável, Batman Begins, A Lista de Schindler) interpreta o monstro, jamais descobriria se não fosse ler as curiosidades. Outra atriz de peso é Sigourney Weaver (Alien) interpretando a vó de Conor. Falando em elenco, vamos ressaltar a interpretação do garoto Lewis MacDougall que interpretou Conor, toda emoção torna-se emocionante e ainda mais pessoal por causa de sua performance.

    Como adiantei, é uma obra bem próxima de Labirinto do Fauno, onde nada ali fará você dar risada, é uma fantasia obscura e melancólica. Tanto que nos primeiros minutos se for assistir desinformado pode até confundir com um filme de terror.

    A duração é perfeita, conseguindo equilibrar bem início, desenvolvimento e fim, e amigos, que final é esse? Na verdade durante o desenvolvimento já me escorreu uma lágrima em uma determinada cena bem complicada…

    O monstro/árvore é um dos personagens mais conscientes que eu pude conferir até hoje, porquê ele consegue extrair algo muito importante que transcende a quarta dimensão e afeta até quem está assistindo. Conseguiu ir lá no âmago do garoto e logicamente também de quem já sofreu com algum ente querido e está assistindo a obra.

    “Um dia você vai se lembrar deste dia e ficará mal por não ter dito nada. Mas quero que se lembre que ainda que você nada tenha dito em voz alta, eu sei tudo o que você sempre quis dizer.”

    Eu assisti semana passada e estou doido querendo reassistir, é aquele filme para assistir com várias pessoas diferentes e sempre emocionar-se. As últimas vezes que isso me ocorreu foi com Capitão Fantástico, A Vida Secreta de Walter Mitty e Os Intocáveis.

    Minha nota é 5/5.

    https://rezenhando.wordpress.com/2017/05/11/rezenha-critica-sete-minutos-depois-da-meia-noite-2016/