Críticas

Clock sábado, 31 de dezembro, 2016 - às 11h45

Neruda (2016): seria bom se não fosse chato

Apesar de um prólogo sensacional, o roteiro abandona as próprias premissas em prol de um texto excessivamente poético e com uma narrativa rocambolesca e nada envolvente. Assumindo tantos riscos, o produto final é entediante.

Diogo Rodrigues Manassés twitter.com/diogo_rm
por Diogo Rodrigues Manassés
31/12/2016 - 11:45

É provável que Pablo Larraín ainda não seja um diretor conhecido pelo grande público brasileiro. Contudo, seu filme “Jackie”, que ainda não estreou no Brasil, deve figurar em algumas categorias no Oscar (ao menos uma indicação de melhor atriz para Natalie Portman), tornando seu nome mais famoso. “Neruda”, por sua vez, tentou concorrer a melhor filme estrangeiro. Não seguiu na disputa (pela indicação) porque, de fato, não atingiu o nível desejável.

Embora o título indique tratar-se de uma cinebiografia de Pablo Neruda, na verdade, o argumento é bastante inusitado ao manter-se em um recorte bem específico. Conhecido no mundo todo e cada vez mais engajado na política chilena, como comunista opositor ao regime vigente, o poeta passa a ser perseguido político, a ponto de o presidente designar um policial específico para efetuar a sua captura – que, porém, se torna um infindável jogo.

O primeiro problema do roteiro é que o argumento serve de pretexto para uma subversão narrativa, aliando o recorte histórico real (e suas implicações políticas, paulatinamente deixadas em segundo plano) a um lirismo poético confuso. Há um nítido exagero, que prejudica a função pedagógica ao aquilatar em demasia o viés poético da película. Muito embora o explosivo e sensacional prólogo flerte com uma intensidade empolgante, cada vez mais a obra assume que abraça a arte em seu sentido puro em detrimento da faceta histórica do enredo – o que, inclusive, danifica a narrativa, que se torna rocambolesca e nada envolvente. Resultado? O filme é chato!

Verdade seja dita: se o roteiro erra (narração voice over geralmente é indicativo de preguiça) no desenvolvimento (por exemplo, como o policial arranja tantas pistas do paradeiro de Neruda?), acerta na conclusão e, principalmente, em seu lado cômico. Não que o filme se torne uma comédia, mas as pitadas de ironia e sarcasmo são bastante aprazíveis. Saem desses momentos conclusões inteligentes, como a cena em que o policial Peluchonneau (Gael García Bernal, contido, mas eficiente) admite que o chefe do seu chefe (o presidente chileno) é o presidente dos EUA, ou a divertida cena da rádio. O zênite consiste no retrato ácido da bipolarização política radical, uma lamentável demonização do posicionamento alheio que gera intolerância e, em última análise, vítimas – fato inegavelmente ainda contemporâneo e presente até mesmo na realidade brasileira. O longa tem seus bons momentos, que acabam sendo espasmos dentro de um marasmo que conduz o público ao tédio.

A opção de Larraín pela estética noir em nada contribui para tornar o filme dinâmico – ainda que fique belo. A insistência na fotografia chiaroscuro (exceto quando o cenário é a magnífica Cordilheira dos Andes) e, mais ainda, na perenidade de um dispensável uso de contraluz, gera um visual incômodo e cansativo. Cenários noturnos, narração e ângulos baixos de filmagem são elementos do subgênero noir, todavia, seu uso deve ser cuidadoso, sob pena de causar bocejos na sala de cinema – a solução seria uma narrativa instigante, o que não ocorre.

Há que se reconhecer virtudes da fita. Luis Gnecco faz excelente interpretação de Neruda, a direção de arte é irrepreensível e a trilha sonora é soberba (talvez o que o filme tem de melhor). Contudo, nada disso adianta se o espectador não se sente seduzido pelo plot. Ao revés, a sensação que fica é de que, se não fosse chato – ou ao menos se fosse mais curto –, o filme seria bom.

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