Críticas

Clock quarta-feira, 21 de dezembro, 2016 - às 10h41

Animais Noturnos (2016): um filmaço para você observar e analisar com calma

Cinema é também a conjunção de técnicas para valorizar uma história e "Animais Noturnos" tem uma muito valiosa, pronta para ser observada e discutida.

Raphael PH Santos twitter.com/phsantos
por Raphael PH Santos
21/12/2016 - 10:41

Amy Adams (de “Encantada“) dá vida a Susan Morrow, proprietária de uma galeria de arte. Os takes iniciais são de mulheres obesas nuas fazendo uma performance para a câmera, entre a troca das atrizes, são mostradas cenas em tomadas isométricas de viadutos lotados de carros. Desde esse prólogo, “Animais Noturnos” demonstra saber o que quer contar e, nessa convicção, tenta colocar-nos em uma trama de difícil interpretação, mas de profunda crítica social. Em seguida, o diálogo sobre consumo e junkie society entrega o motivo de misturar as cenas de obesas nuas e do trânsito caótico. Ora, velocidade, transporte, estradas e uma cultura de consumo alimentar que não preza necessariamente a saúde, são símbolos óbvios desse modo de vida.

Após o início, as rimas visuais partem para outro sentido e buscam centralizar Susan na trama. Ela recebe do seu ex-marido (Jake Gyllenhaal, de “Donnie Darko“) um manuscrito do seu mais novo livro. “Animais Noturnos. Para Susan“, tem escrito. Quando ela começa a ler, nós literalmente entramos nessa história e, ao passo que o livro se mostra algo muito pessoal dele (e dela), vamos também conhecendo em flashbacks um pouco do passado dos dois. A partir daí, já estamos em três linhas narrativas: Susan em sua vida de classe altíssima, o livro a partir do olhar dela e flashbacks de quando ela não estava no patamar da principal linha narrativa.

Tom Ford, que escreveu (adaptado do livro “Tony & Susan” de Austin Wright) e dirigiu, quebra o ritmo comum de se conduzir um filme. Sente-se a mão do diretor em tudo, da a estética até a doação que os atores demonstram. Nada está alí por acaso, tal como uma peça de arte, assunto que se dilui e se transforma em supracitado ao longo do filme. O óbvio não é observado e o ir e vir entre as linhas narrativas é feito com maestria. Nunca sabemos mais do que devemos saber, tudo é apresentado na hora certa para que consigamos formular um pensamento tal como o diretor precisa que seja para aquele momento.

Se o filme quer demonstrar algo, o faz com vários aspectos cinematográficos. Susan, por exemplo, é uma mulher que esconde algo, por isso, quando em público, sempre se apresenta com um lado do rosto coberto por seus longos cabelos. A meia luz costuma ser utilizada também nesses momentos, não definindo cem por cento as faces dos personagens. Os tons dos cenários mudam: quando busca-se mostrar a personagem principal concentrada lendo o livro, o fundo ganha um preto absoluto e somente o rosto dela está em foco, várias vezes em close-up. Quando está no trabalho, o branco e a ausência de mobília sobressaem e exibem todo o vazio que ela, Susan, vive naquele momento.

A montagem é uma aula de como transformar o simples em relevante para a narrativa. Se um tiro acontece dentro da trama do livro, o corte para o susto da Susan (a leitora) é feito usando o som do estouro da madeira na lareira. Ela se assusta e nós nos assustamos, afinal, estamos lendo o livro também. O corte-seco é utilizado diversas vezes com muita maestria, deixando que maquiagem e mise-en-scène nos mostre onde estamos naquele momento. O crossfade (a interpolação de duas imagens em transição) também é observado, sobretudo quando se precisa mostrar que algo de uma trama reflete noutra.

Jake Gyllenhaal está perfeito. Das três linhas narrativas, só não aparece de fato em uma. Nas outras duas, apresenta dois personagens diferentes, porém com sutis semelhanças. Seu personagem discute a insegurança, pois é um homem que, apesar de educado e muito responsável, parece não sair do espaço da mediocridade, do homem comum. As duas camadas das pontas (flashback e livro) fazem um sanduíche com a camada principal e nos buracos entre essas camadas os espelhamentos narrativos apresentam as críticas e o mote principal do roteiro. “Eu não sou assim“, uma hora demonstrará seu personagem, “observem”. E nós observamos essa virada e evolução fascinante do homem-comum.

Destaque também para Michael Shannon (o Zod de “O Homem de Aço“), cujo personagem é importantíssimo para a trama do livro e age como impulsionador do conflito central na trama do livro. Apesar de sua criação aparentar o personagem mais linear de todos, não é, pois tira vários personagens justamente desse caminho retilíneo. Aaron Taylor-Johnson (de “Kick-Ass“) apresenta um mau caráter de marca maior e o faz muito bem também, ajudando o Tony/Edward (Gyllenhaal) a brilhar e ser de fato o protagonista de um dos núcleos.

“Animais Noturnos” só precisaria ser mais chocante. Começa extremamente visual e verborrágico, mas vai perdendo esse tom e tendendo para um lado menos expositivo, mais introspectivo e distante do prólogo impactante. Ora, se for de mostrar sangue, mostre. Nos choque. Afinal, foi isso que a sequência inicial vendeu. Uma escolha, porém, que não modifica o grande objetivo e qualidade da produção.

Dono de direção bem particular e de um aglomerado absurdo de técnicas audiovisuais funcionando para contar uma história, “Animais Noturnos” é um destaque na filmografia de todos os envolvidos. O filme deve ser observado e pensado com calma, tanto pelo grande público quanto pelo cinéfilo mais estudioso da sétima arte. Ah, ao final, ele toma partido e cabe a você julgar se aquele é também o seu partido ou não.

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  • Volcof

    Parabéns pela crítica. Como dito, me agradou mais do que o filme, pois você soube analisar sem revelar, e explicar sem ser tedioso.
    Desde “O Direito de Amar” (que valeria ser mencionado na crítica), aguardo ansiosamente pelas obras de Ford. Aqui, contudo, tive a impressão que ele se perdeu na inception de narrativas. Em vários momentos, não sabia qual história ele realmente queria nos contar: se daquela vida junkie quebrada de Susan (e a relação com seu passado com Edward), se a da trama do livro (por si só conduzida de um jeito meio chato, por ir e voltar tantas vezes à dimensão de Susan lendo), ou ainda uma terceira, do próprio Edward.
    Claro, os personagens são excelentes e, a parte das premiações atuais, acho que Michael Shannon faz um trabalho digno de reconhecimento. A estética de Ford também permanece afiada e sua direção, muito melhor do que outros mais experientes, embora perda um pouco da organicidade de seu primeiro filme.
    O que é aquela cena no Iphone quando ele oferece um susto gratuito e besta à platéia?
    Por fim, o que mais me incomodou é que trata-se de uma história de fundo do poço: depois da beleza (melancólica, mas ainda assim bela) de seu primeiro filme, parece que o diretor atingiu o inverno da alma nessa trama que é só dor e sofrimento. Muito incômodo em assisti-la – mesmo com a linda Amy Adams em cena.

    • phsantos

      Fala macho. Te falar. Sobre seu último parágrafo, eu adorei essa dor sob dor. Sempre vejo os criadores, volta e meia, tentando aliviar quando, na vida, nem sempre isso acontece. Eu achei a dor final quase como uma recompensa. É sobre vazio e eu não gostaria que fosse esperançoso. Porém, te entendo. 🙂

      • Volcof

        Cinema depende muito da vibe do público, né? Acho que eu é que estou num momento mais light rsrs

  • Muito bacana. Traduzisse realmente o que eu senti; para ser perfeito faltou o choque, o explicito… Muito boa sua crítica. Realmente o filme é maravilhoso.